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Super El Niño pode ser o mais forte já registrado e alterar chuvas, calor e tempestades até 2027

Super El Niño pode ser o mais forte já registrado e alterar chuvas, calor e tempestades até 2027
Foto: interactive.carbonbrief.org

Fenômeno iniciado em junho deve elevar temporariamente a temperatura global e ampliar riscos climáticos em várias regiões.

Um El Niño iniciado em junho de 2026 pode se tornar o mais forte já registrado e alterar, até 2027, a distribuição de chuvas, o risco de secas, a formação de tempestades e a temperatura média do planeta. O fenômeno, chamado de “super El Niño” por especialistas e veículos de divulgação científica, ocorre no Pacífico tropical e já é projetado para afetar a vida de bilhões de pessoas, inclusive em diferentes áreas do Brasil e da Amazônia.

O que está acontecendo no Oceano Pacífico

Em condições consideradas neutras, os ventos alísios sopram de leste para oeste na faixa tropical do Pacífico. Eles empurram a água quente da superfície da costa da América do Sul em direção à Ásia. No lugar dessa água, sobe das profundezas uma massa fria e rica em nutrientes, processo conhecido como ressurgência.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que a costa oeste da América do Sul concentra áreas de pesca tão produtivas. No Peru, por exemplo, a pesca da anchoveta é uma das maiores do mundo em volume. Quando o El Niño se instala, os ventos alísios enfraquecem e a água quente retorna para o centro e o leste do Pacífico, reduzindo a ressurgência.

Entenda o caso

El Niño é a fase quente de um ciclo climático chamado Oscilação Sul do El Niño, ou ENSO. A fase fria recebe o nome de La Niña, enquanto o período sem anomalias relevantes é chamado de fase neutra.

Segundo a NOAA, o monitoramento do fenômeno considera a temperatura do mar na região Niño 3.4, no Pacífico central, além de alterações nos ventos e nos padrões de chuva. A agência norte-americana passou a usar, em 2026, o índice ONI relativo, que leva em conta o aquecimento de fundo do oceano.

Os critérios técnicos de acompanhamento podem ser consultados no documento da NOAA sobre o novo índice ONI relativo.

Como o fenômeno ganha força

O deslocamento da água quente altera a circulação da atmosfera. A chuva que normalmente se concentra no oeste do Pacífico, sobre a Indonésia e partes do Sudeste Asiático, tende a avançar para o centro e o leste do oceano. Ao mesmo tempo, o contraste de temperatura entre as duas partes do Pacífico diminui.

Essa mudança enfraquece ainda mais a diferença de pressão atmosférica e os ventos alísios. Forma-se, assim, um ciclo de retroalimentação que amplia o aquecimento do mar. É esse processo que pode levar um episódio de El Niño a atingir intensidade excepcional.

Os eventos de El Niño e La Niña geralmente duram entre nove e 12 meses, embora alguns se prolonguem. O episódio atual começou em junho e deve persistir até 2027, segundo a análise publicada pelo Carbon Brief em 18 de agosto de 2026.

Chuvas, secas e tempestades mudam de lugar

Na América Central e na América do Sul, o El Niño costuma favorecer tempo mais quente e seco no norte e nas áreas tropicais do continente. Colômbia, Venezuela e o norte do Brasil podem enfrentar maior risco de estiagem, incêndios florestais e baixa disponibilidade de água.

Em sentido oposto, o sul do Brasil, o Chile central e o norte da Argentina podem registrar períodos de chuva intensa e inundações. Os efeitos não ocorrem de maneira idêntica em todos os anos, porque dependem da intensidade do episódio e da interação com outros sistemas atmosféricos.

Na Amazônia, a redução das chuvas em partes da região pode agravar secas, aumentar a pressão sobre rios e favorecer a propagação de queimadas. O impacto, porém, varia entre os estados e não permite afirmar que todo o território amazônico terá o mesmo comportamento. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins podem responder de forma diferente conforme a posição dos sistemas de chuva.

Segundo o Carbon Brief, o El Niño tende a deixar o Sudeste Asiático e partes da Austrália mais secos, com maior risco de estiagens e incêndios. Na Índia, o fenômeno pode contribuir para ondas de calor no início do ano e reduzir a força das monções posteriormente. Na África, o sul pode ficar mais seco entre dezembro e fevereiro, enquanto países do leste enfrentam maior risco de inundações.

Efeito sobre furacões e tufões

O fenômeno também modifica a atividade de tempestades tropicais. No Atlântico Norte e no Caribe, o El Niño costuma aumentar o cisalhamento do vento, uma diferença de velocidade e direção dos ventos que pode dificultar a organização de furacões.

Ao mesmo tempo, o sul dos Estados Unidos e a Califórnia podem receber tempestades de inverno mais intensas. No Pacífico ocidental, a área de formação dos tufões tende a se deslocar para leste. Com mais tempo sobre águas quentes, algumas tempestades podem atingir maior intensidade antes de chegar à China, ao Japão ou à Coreia do Sul.

Ilhas do Pacífico central e oriental, como Havaí, Kiribati e Tuvalu, também podem enfrentar tempestades tropicais mais frequentes ou intensas. Para esses territórios, o aquecimento do oceano representa uma ameaça adicional a comunidades costeiras, infraestrutura e abastecimento.

Por que o El Niño eleva a temperatura global

O oceano Pacífico armazena uma grande quantidade de calor. Quando os ventos alísios enfraquecem, a água quente se espalha pela superfície e libera energia para a atmosfera. O resultado é um impulso temporário na temperatura média do planeta.

Uma variação de 1 grau Celsius na região Niño 3.4 está associada, em média, a uma mudança de aproximadamente 0,1 grau Celsius na temperatura média global, com atraso de três a seis meses. Grandes episódios contribuíram para recordes anuais de calor em 1998, 2016 e 2024.

Segundo o Carbon Brief, El Niño e La Niña são os principais responsáveis pela variação natural de um ano para outro na temperatura global. O efeito é temporário, mas ocorre sobre um planeta que continua aquecendo por causa das emissões humanas de gases de efeito estufa. Por isso, recordes associados ao El Niño tendem a ser superados posteriormente, como ocorreu em diferentes momentos entre 1998 e 2024.

O que ainda não é possível afirmar

A classificação de “super El Niño” descreve uma projeção de intensidade, não uma conclusão definitiva sobre todos os impactos. A força real do fenômeno será acompanhada por satélites, boias, navios e estações meteorológicas, além dos índices de temperatura e pressão atmosférica.

Também não é possível atribuir cada seca, enchente ou onda de calor exclusivamente ao El Niño. O fenômeno interfere na circulação atmosférica, mas seus efeitos se combinam com o aquecimento global, condições locais do oceano, uso do solo e outros padrões climáticos.

As próximas atualizações dos centros meteorológicos devem indicar se o episódio de 2026 e 2027 alcançará, de fato, o recorde de intensidade e quais regiões terão os maiores impactos nos meses seguintes.

Perguntas frequentes

O que é um super El Niño?

É uma forma de descrever um episódio de El Niño excepcionalmente intenso. A confirmação depende do monitoramento das temperaturas do Pacífico e de indicadores atmosféricos.

O super El Niño vai atingir o Brasil?

Os efeitos podem incluir seca em partes do norte e do centro do país e chuva intensa no Sul. A resposta varia entre regiões e não significa que todos os estados terão o mesmo impacto.

El Niño causa o aquecimento global?

Não. O fenômeno eleva temporariamente a temperatura média global, mas o aquecimento de longo prazo é causado principalmente pelas emissões humanas de gases de efeito estufa.

Com informações de Carbon Brief.

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