Peixe do rio Madeira chega a 75 vezes o limite da OMS e coloca 951 comunidades em risco entre Peru, Bolívia e Amazonas

Peixe do rio Madeira chega a 75 vezes o limite da OMS e coloca 951 comunidades em risco entre Peru, Bolívia e Amazonas
Ilustração: Revista Amazônia

Análise de 7.725 amostras revela mercúrio em peixes do rio Madeira até 75 vezes acima do limite da OMS e alcança 951 comunidades vulneráveis.

Em um trecho brasileiro do rio Madeira, o mercúrio encontrado em peixes chegou a 150 microgramas por grama, 75 vezes o limite de 2 microgramas por grama adotado pela Organização Mundial da Saúde. O resultado faz parte de uma análise que reuniu dados de comunidades distribuídas entre o Peru, a Bolívia e o Brasil, em uma rede de rios conectados por 2.763 quilômetros.

O levantamento identificou 249 comunidades com exposição confirmada ao mercúrio. Em 220 delas, o nível ficou acima do limite da OMS. Outras 702 foram classificadas como vulneráveis por estarem a até 2 quilômetros de rios contaminados. Somadas, as áreas alcançam 951 comunidades em perigo ou sob risco, incluindo locais da Terra Indígena Karipuna, em Rondônia, e do Amazonas, como o Lago Puruzinho, São Sebastião do Tapurú e Paraíso Grande.

O mercúrio percorre uma rede de rios que atravessa três países

A análise foi publicada pela Mongabay Latam em 10 de setembro de 2026, com orientação científica do Centro de Inovação Científica Amazônica, ligado à Wake Forest University. O trabalho revisou 39 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024 e padronizou 7.725 amostras humanas e 5.939 amostras de tecido de peixe. A reunião desses dados permitiu comparar resultados obtidos em diferentes períodos e localidades.

O percurso analisado começa no rio Madre de Dios, no Peru, passa pelo rio Beni, na Bolívia, e chega ao rio Madeira, no Brasil. No Madre de Dios, os maiores valores registrados em peixes alcançaram 44 microgramas por grama, 22 vezes o limite da OMS. No Beni, chegaram a 32, ou 16 vezes o limite. No Madeira, o máximo foi de 150 microgramas por grama, o valor mais alto entre os três trechos.

O peixe concentra o metal à medida que ele sobe na cadeia alimentar

O mercúrio usado no garimpo pode chegar à água e se transformar em metilmercúrio, uma forma que entra nos organismos aquáticos. O composto passa de um ser vivo para outro quando um peixe se alimenta de pequenos organismos ou de outros peixes. Como a eliminação é lenta, a concentração tende a aumentar ao longo da cadeia alimentar, processo conhecido como biomagnificação.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que peixes predadores podem acumular mais mercúrio que espécies de fundo ou herbívoras. Tucunaré, dourada e filhote estão entre os peixes que podem concentrar níveis elevados por ocuparem posições superiores na rede alimentar. A diferença não depende apenas do tamanho do animal, mas também de sua dieta, idade, posição ecológica e frequência de consumo pelas pessoas que vivem nas margens dos rios.

A exposição afeta principalmente o sistema nervoso

A exposição crônica ao metilmercúrio está associada a efeitos no sistema nervoso. Gestantes e crianças são consideradas grupos de maior risco porque o desenvolvimento neurológico pode ser afetado durante fases sensíveis da formação do organismo. O problema não se limita ao momento em que o peixe é capturado: o composto permanece nos tecidos e chega ao corpo humano quando o alimento contaminado é consumido.

Nas comunidades ribeirinhas, porém, o peixe também representa uma fonte essencial de alimento. Um morador de Puerto Motor, no Peru, resumiu essa dependência em declaração registrada pela Mongabay: “Todos nós somos afetados pelo mercúrio. Comemos peixe, mas se parássemos, passaríamos fome.” A frase mostra por que a orientação dos especialistas não é simplesmente abandonar o consumo, mas dar preferência a espécies que acumulam menos mercúrio.

O risco brasileiro aparece onde o rio sustenta a alimentação diária

Entre os lugares brasileiros citados na análise estão a Terra Indígena Karipuna, em Rondônia, e comunidades do Amazonas ligadas ao rio Madeira, como o Lago Puruzinho, São Sebastião do Tapurú e Paraíso Grande. Nessas áreas, a proximidade do rio combina exposição ambiental e dependência alimentar. A classificação de risco também considera comunidades situadas a até 2 quilômetros de cursos contaminados, mesmo quando a exposição direta ainda não foi confirmada.

Os números não significam que todos os peixes tenham a mesma concentração nem que todas as pessoas estejam igualmente expostas. O nível varia conforme a espécie e sua posição na cadeia alimentar, enquanto o risco humano depende da quantidade, da frequência e do tipo de peixe consumido. A análise da Mongabay Latam transforma uma sucessão de medições dispersas em um mapa regional de atenção. Para quem vive dos rios, conhecer o mecanismo que concentra o metal pode ser tão importante quanto conhecer o limite que aparece no laboratório.

Com informações da Mongabay Latam.

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