
Fenômeno já alcança 2 °C acima da média no Pacífico equatorial e pode atingir intensidade inédita desde 1950.
O próximo grande risco climático pode começar no oceano, mas seus efeitos devem aparecer em lavouras, rios, incêndios e temperaturas muito além do Pacífico. Um El Niño de intensidade excepcional já está se formando em 2026 e pode se tornar o mais forte desde 1950, com reflexos especialmente difíceis de prever porque ocorrerá sobre um planeta mais quente.
Na região Niño 3.4, área usada pelos meteorologistas para acompanhar o fenômeno, a superfície do mar estava 2 °C acima da média em meados de setembro. A previsão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, NOAA, indica um pico próximo de 3,4 °C acima do normal durante o inverno do Hemisfério Norte.
Um oceano quente muda a circulação do planeta
El Niño é uma alteração natural do sistema climático do Pacífico. Em condições comuns, os ventos alísios empurram a água quente da costa da América do Sul para a direção da Indonésia e da Austrália. Esse deslocamento concentra calor e umidade no oeste do oceano.
Quando os ventos enfraquecem, a água aquecida retorna para o leste. A chuva acompanha esse movimento, enquanto a subida de água fria e rica em nutrientes diminui diante das costas do Peru e do Equador. O resultado pode ser uma queda acentuada nas populações de peixes e prejuízos para comunidades que dependem da pesca.
O ciclo não obedece a um calendário fixo. Ele costuma reaparecer em intervalos de dois a sete anos, mas a data e a intensidade variam. A expressão El Niño foi associada por pescadores peruanos à chegada de águas quentes perto do Natal, em referência ao menino Jesus.
O que os instrumentos já mostram
A previsão atual combina satélites, boias ancoradas e sensores robóticos que percorrem diferentes profundidades. Os chamados flutuadores Argo medem a temperatura e outras condições do oceano enquanto sobem e descem na água.
Esses dados alimentam modelos capazes de identificar o avanço da massa de água quente. Segundo o Harvard Climate Brief, previsões feitas entre seis e 12 meses antes do pico ganham precisão quando esse deslocamento para o leste já pode ser observado.
A ciência, porém, conhece melhor a evolução do El Niño depois que ele começa do que a razão exata de seu início. Rajadas de vento de oeste podem dar o impulso inicial. A influência de grandes erupções vulcânicas é investigada, mas ainda não existe consenso sobre esse mecanismo.
Recorde não significa, sozinho, uma nova regra
A NOAA estima em 75% a probabilidade de que, entre outubro e dezembro, o episódio seja mais quente e mais forte do que qualquer outro registrado desde 1950. A comparação considera a temperatura de várias áreas tropicais, não apenas o aquecimento geral provocado pelas mudanças climáticas.
Essa correção é importante. Um evento muito intenso não prova, por si só, que todos os El Niños estejam ficando mais fortes. Para responder a essa pergunta, os pesquisadores precisam separar a oscilação natural do aumento gradual da temperatura do planeta.
O registro instrumental ainda é curto, e os modelos climáticos têm dificuldade para reproduzir todos os detalhes do ENSO, nome dado ao conjunto formado por El Niño e Oscilação Sul. Por isso, permanece em aberto se o aquecimento global está tornando o fenômeno mais frequente ou mais potente.

Por que a Amazônia entra no alerta
Os impactos não ficam restritos ao oceano. El Niño altera a circulação atmosférica por meio de conexões que atravessam grandes distâncias. As regiões tropicais costumam registrar algumas das mudanças mais expressivas na distribuição das chuvas, o que coloca a Amazônia no centro da necessidade de monitoramento.
Para os estados amazônicos, de Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, o risco prático está na possibilidade de alterações no regime de chuva, no nível dos rios, na produção rural e na ocorrência de queimadas. A direção e a intensidade dos efeitos não são iguais em todo o território, mas a combinação entre um Pacífico alterado e o aquecimento de longo prazo reduz a margem de segurança para comunidades, cidades e atividades dependentes da água.
O fenômeno também pode influenciar a agricultura em outras partes do mundo. Indonésia e Austrália tendem a ficar mais secas, enquanto áreas da África podem enfrentar estiagens. Na Índia, o enfraquecimento das monções pode reduzir a chuva em 15% ou mais em alguns episódios, embora existam exceções.
Em sentido oposto, chuvas extremas podem atingir áreas produtoras de cacau no Equador. Na África Ocidental, a seca pode comprometer a mesma cadeia produtiva. Os países mais vulneráveis são aqueles que dependem da agricultura de chuva e têm poucas alternativas para substituir perdas.
O efeito que ainda não tem mapa
El Niño costuma favorecer condições mais quentes e secas no Sudeste Asiático e em partes da África, além de alterar a precipitação na América do Sul. Nos Estados Unidos, o sul geralmente fica mais úmido e frio, enquanto o cisalhamento do vento tende a reduzir a formação de furacões no Atlântico.
O problema deste episódio é a sobreposição com o aquecimento global. O professor Peter Huybers, da Universidade Harvard, afirmou que será um El Niño anômalo sobre uma tendência de temperaturas elevadas. Para ele, essa combinação pode produzir efeitos novos e mais difíceis de antecipar.
“A estranheza, em geral, gera risco. Vamos ver todos os tipos de risco se desenrolarem”, disse Peter Huybers.
O calor adicional também pode acelerar outros processos, como o descongelamento do permafrost no Ártico. Ainda não é possível estimar todos os encadeamentos. A principal certeza é que um ano de El Niño não representa sozinho o clima do futuro, mas pode elevar temporariamente as temperaturas globais e pressionar sistemas já fragilizados.
O monitoramento continuará sendo atualizado à medida que o oceano evoluir. A próxima etapa será verificar se a previsão de pico entre outubro e dezembro se confirma e como os sinais regionais se distribuirão ao longo de 2027.
Com informações de Harvard University Center for the Environment.
Respostas rápidas sobre o fenômeno
Quando o El Niño deve atingir o pico?
A previsão indica o período de outubro a dezembro de 2026 para o auge das condições no Pacífico equatorial, com efeitos globais que podem se estender por 2027.
O El Niño é causado pelo aquecimento global?
Não. El Niño é uma oscilação natural do sistema do Pacífico. O aquecimento global é uma tendência de longo prazo que pode modificar seus efeitos e tornar os impactos mais arriscados.
O fenômeno terá o mesmo efeito em toda a Amazônia?
Não necessariamente. As conexões atmosféricas variam entre regiões, e a intensidade da chuva, da seca e do calor depende também das condições locais e de outros padrões climáticos.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.















Você precisa fazer login para comentar.