Super El Niño pode elevar riscos em 2027, enquanto Amazônia enfrenta efeitos de um Pacífico mais quente

Super El Niño pode elevar riscos em 2027, enquanto Amazônia enfrenta efeitos de um Pacífico mais quente
Foto: David Trilling)

Fenômeno já alcança 2 °C acima da média no Pacífico equatorial e pode atingir intensidade inédita desde 1950.

O próximo grande risco climático pode começar no oceano, mas seus efeitos devem aparecer em lavouras, rios, incêndios e temperaturas muito além do Pacífico. Um El Niño de intensidade excepcional já está se formando em 2026 e pode se tornar o mais forte desde 1950, com reflexos especialmente difíceis de prever porque ocorrerá sobre um planeta mais quente.

Na região Niño 3.4, área usada pelos meteorologistas para acompanhar o fenômeno, a superfície do mar estava 2 °C acima da média em meados de setembro. A previsão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, NOAA, indica um pico próximo de 3,4 °C acima do normal durante o inverno do Hemisfério Norte.

Um oceano quente muda a circulação do planeta

El Niño é uma alteração natural do sistema climático do Pacífico. Em condições comuns, os ventos alísios empurram a água quente da costa da América do Sul para a direção da Indonésia e da Austrália. Esse deslocamento concentra calor e umidade no oeste do oceano.

Quando os ventos enfraquecem, a água aquecida retorna para o leste. A chuva acompanha esse movimento, enquanto a subida de água fria e rica em nutrientes diminui diante das costas do Peru e do Equador. O resultado pode ser uma queda acentuada nas populações de peixes e prejuízos para comunidades que dependem da pesca.

O ciclo não obedece a um calendário fixo. Ele costuma reaparecer em intervalos de dois a sete anos, mas a data e a intensidade variam. A expressão El Niño foi associada por pescadores peruanos à chegada de águas quentes perto do Natal, em referência ao menino Jesus.

O que os instrumentos já mostram

A previsão atual combina satélites, boias ancoradas e sensores robóticos que percorrem diferentes profundidades. Os chamados flutuadores Argo medem a temperatura e outras condições do oceano enquanto sobem e descem na água.

Esses dados alimentam modelos capazes de identificar o avanço da massa de água quente. Segundo o Harvard Climate Brief, previsões feitas entre seis e 12 meses antes do pico ganham precisão quando esse deslocamento para o leste já pode ser observado.

A ciência, porém, conhece melhor a evolução do El Niño depois que ele começa do que a razão exata de seu início. Rajadas de vento de oeste podem dar o impulso inicial. A influência de grandes erupções vulcânicas é investigada, mas ainda não existe consenso sobre esse mecanismo.

Recorde não significa, sozinho, uma nova regra

A NOAA estima em 75% a probabilidade de que, entre outubro e dezembro, o episódio seja mais quente e mais forte do que qualquer outro registrado desde 1950. A comparação considera a temperatura de várias áreas tropicais, não apenas o aquecimento geral provocado pelas mudanças climáticas.

Essa correção é importante. Um evento muito intenso não prova, por si só, que todos os El Niños estejam ficando mais fortes. Para responder a essa pergunta, os pesquisadores precisam separar a oscilação natural do aumento gradual da temperatura do planeta.

O registro instrumental ainda é curto, e os modelos climáticos têm dificuldade para reproduzir todos os detalhes do ENSO, nome dado ao conjunto formado por El Niño e Oscilação Sul. Por isso, permanece em aberto se o aquecimento global está tornando o fenômeno mais frequente ou mais potente.

Super El Niño pode elevar riscos em 2027, enquanto Amazônia enfrenta efeitos de um Pacífico mais quente
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Por que a Amazônia entra no alerta

Os impactos não ficam restritos ao oceano. El Niño altera a circulação atmosférica por meio de conexões que atravessam grandes distâncias. As regiões tropicais costumam registrar algumas das mudanças mais expressivas na distribuição das chuvas, o que coloca a Amazônia no centro da necessidade de monitoramento.

Para os estados amazônicos, de Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, o risco prático está na possibilidade de alterações no regime de chuva, no nível dos rios, na produção rural e na ocorrência de queimadas. A direção e a intensidade dos efeitos não são iguais em todo o território, mas a combinação entre um Pacífico alterado e o aquecimento de longo prazo reduz a margem de segurança para comunidades, cidades e atividades dependentes da água.

O fenômeno também pode influenciar a agricultura em outras partes do mundo. Indonésia e Austrália tendem a ficar mais secas, enquanto áreas da África podem enfrentar estiagens. Na Índia, o enfraquecimento das monções pode reduzir a chuva em 15% ou mais em alguns episódios, embora existam exceções.

Em sentido oposto, chuvas extremas podem atingir áreas produtoras de cacau no Equador. Na África Ocidental, a seca pode comprometer a mesma cadeia produtiva. Os países mais vulneráveis são aqueles que dependem da agricultura de chuva e têm poucas alternativas para substituir perdas.

O efeito que ainda não tem mapa

El Niño costuma favorecer condições mais quentes e secas no Sudeste Asiático e em partes da África, além de alterar a precipitação na América do Sul. Nos Estados Unidos, o sul geralmente fica mais úmido e frio, enquanto o cisalhamento do vento tende a reduzir a formação de furacões no Atlântico.

O problema deste episódio é a sobreposição com o aquecimento global. O professor Peter Huybers, da Universidade Harvard, afirmou que será um El Niño anômalo sobre uma tendência de temperaturas elevadas. Para ele, essa combinação pode produzir efeitos novos e mais difíceis de antecipar.

“A estranheza, em geral, gera risco. Vamos ver todos os tipos de risco se desenrolarem”, disse Peter Huybers.

O calor adicional também pode acelerar outros processos, como o descongelamento do permafrost no Ártico. Ainda não é possível estimar todos os encadeamentos. A principal certeza é que um ano de El Niño não representa sozinho o clima do futuro, mas pode elevar temporariamente as temperaturas globais e pressionar sistemas já fragilizados.

O monitoramento continuará sendo atualizado à medida que o oceano evoluir. A próxima etapa será verificar se a previsão de pico entre outubro e dezembro se confirma e como os sinais regionais se distribuirão ao longo de 2027.

Com informações de Harvard University Center for the Environment.

Respostas rápidas sobre o fenômeno

Quando o El Niño deve atingir o pico?

A previsão indica o período de outubro a dezembro de 2026 para o auge das condições no Pacífico equatorial, com efeitos globais que podem se estender por 2027.

O El Niño é causado pelo aquecimento global?

Não. El Niño é uma oscilação natural do sistema do Pacífico. O aquecimento global é uma tendência de longo prazo que pode modificar seus efeitos e tornar os impactos mais arriscados.

O fenômeno terá o mesmo efeito em toda a Amazônia?

Não necessariamente. As conexões atmosféricas variam entre regiões, e a intensidade da chuva, da seca e do calor depende também das condições locais e de outros padrões climáticos.

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