Estudo com 107 espécies revela linhagens de grilos silenciosos e surdos, incluindo uma espécie da floresta do Pará

Estudo com 107 espécies revela linhagens de grilos silenciosos e surdos, incluindo uma espécie da floresta do Pará
Ilustração: Revista Amazônia

Análise da USP encontrou perdas independentes do canto e da audição em grilos arborícolas e identificou formas intermediárias entre esses extremos.

O canto que desapareceu entre os grilos

Em vez de preencher a noite da floresta com o som produzido pelas asas, algumas linhagens de grilos arborícolas seguiram outro caminho evolutivo. Elas deixaram de cantar e, em diferentes grupos, também perderam as estruturas associadas à audição. A descoberta aparece em uma análise de 107 espécies da família Oecanthidae, grupo que reúne grilos encontrados sobre árvores e outras plantas. Entre as espécies brasileiras citadas está Tafalisca elongata, registrada na Floresta Amazônica, na Guiana Francesa e no Pará.

O resultado não descreve uma única transformação ocorrida uma vez na história do grupo. A análise identificou várias linhagens independentes de grilos silenciosos e surdos. Também foram reconhecidos tipos intermediários, chamados de ouvintes silenciosos, que não produzem som, mas ainda ouvem, e de cantores surdos, que produzem som, mas não ouvem. A diversidade dessas combinações mostra que o canto e a audição podem se separar durante a evolução, em vez de desaparecerem sempre juntos.

As asas e as pernas guardam as pistas

O macho de um grilo normalmente atrai a fêmea esfregando as asas. O som nasce do contato entre estruturas especializadas, incluindo a harpa, o espelho e a fileira estridulatória. Para investigar se essas características estavam presentes ou ausentes nas espécies analisadas, os pesquisadores examinaram a morfologia das asas anteriores e dos órgãos envolvidos na produção sonora. A comparação permitiu distinguir os grilos que mantêm o mecanismo de canto daqueles que deixaram de utilizá-lo.

A audição foi investigada por meio dos tímpanos interno e externo. Ao contrário do que uma representação comum pode sugerir, o ouvido do grilo fica nas pernas dianteiras, e não na cabeça. O estudo combinou essas observações anatômicas com um modelo matemático, fósseis de quatro subfamílias e uma árvore evolutiva de máxima credibilidade de clado. Com esse conjunto de informações, os autores reconstruíram a distribuição do canto e da audição ao longo da história evolutiva dos Oecanthidae.

Uma árvore evolutiva com perdas repetidas

A reconstrução mostrou que o silêncio surgiu em diferentes pontos da árvore evolutiva dos grilos arborícolas. O mesmo ocorreu com a perda da audição. Quando características semelhantes aparecem de forma independente em linhagens distintas, os biólogos usam o conceito de evolução convergente. A expressão descreve o padrão encontrado, sem afirmar que todos os grilos chegaram a ele pelo mesmo caminho. Como explicou Lucas Denadai de Campos, autor do estudo, “algumas espécies perderam, outras mantiveram essas características, mas, no fim, as que possuem as mesmas características nós chamamos no estudo de evolução convergente”.

Entre os animais brasileiros mencionados no trabalho está Tafalisca elongata, uma espécie associada à Floresta Amazônica, à Guiana Francesa e ao Pará. O estudo também cita Aphonodiacanthus chlorops, registrada em São Paulo. A presença dessas espécies na análise mostra que o fenômeno não está restrito a uma região distante ou a um único ambiente. Ele aparece em uma família com distribuição ampla e com diferentes combinações entre estruturas de canto e de audição.

Por que o silêncio permaneceu

Os autores levantam a hipótese de que a maior exposição a predadores e as mudanças de hábitat tenham favorecido a perda do canto em algumas linhagens. O canto pode tornar um macho mais fácil de localizar, enquanto transformações no ambiente podem alterar o valor de produzir ou detectar sinais sonoros. Essas possibilidades ajudam a interpretar o padrão evolutivo, mas não transformam a hipótese em uma causa demonstrada para cada espécie. O estudo identifica a repetição das perdas e propõe explicações para esse resultado.

Um dos dados mais marcantes é que nenhum grupo que perdeu o canto voltou a cantar ao longo de milhões de anos. Isso indica que, depois de desaparecer, o mecanismo não reapareceu nas linhagens examinadas. A história dos grilos, portanto, não é apenas a de animais que produzem sons para encontrar parceiros. Ela também inclui espécies que mantêm outras partes do sistema, perdem apenas uma delas ou abandonam o conjunto. O trabalho foi conduzido no Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP, com publicação no Journal of Systematics and Evolution. O Jornal da USP divulgou o estudo em 22 de setembro de 2026. Na floresta, reconhecer um grilo pode depender tanto do que ele faz quanto do silêncio que sua anatomia preserva.

Com informações do Jornal da USP.

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