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Plano da ONU contra poluição e clima pode elevar PIB global em 2,8% até 2035 com 25 medidas integradas

Plano da ONU contra poluição e clima pode elevar PIB global em 2,8% até 2035 com 25 medidas integradas
Ilustração: Revista Amazônia

Estudo estima que ações coordenadas custariam 0,7% do PIB na próxima década e evitariam perdas trilionárias.

O combate à poluição do ar pode deixar de ser tratado apenas como despesa ambiental e passar a funcionar como uma estratégia de crescimento econômico. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, PNUMA, estima que 25 medidas coordenadas contra a poluição e a mudança climática acrescentariam 2,8% ao PIB global até 2035. Segundo o PNUMA, esse ganho seria alcançado com ações aplicadas mundialmente, como ampliar energias renováveis, adotar veículos elétricos e reduzir emissões em atividades agrícolas e industriais.

A conta apresentada pelo estudo contrasta com a ideia de que a transição para uma economia de baixo carbono necessariamente reduz a atividade econômica. O custo de implementação das medidas equivaleria a cerca de 0,7% do PIB mundial na próxima década. Em troca, o benefício chegaria a 4,5% do PIB até 2050, considerando efeitos econômicos e sociais associados à redução da poluição e dos danos climáticos.

O retorno aparece na saúde, no trabalho e na produção

O cálculo não se limita ao valor da energia produzida ou dos equipamentos instalados. Entre os ganhos previstos estão a diminuição das despesas médicas, a redução de mortes prematuras, o aumento da produtividade dos trabalhadores e a prevenção de prejuízos físicos provocados por eventos e condições ambientais adversas.

Na estimativa mais ampla, cada US$ 1 aplicado em ações integradas contra a poluição do ar e a mudança climática geraria aproximadamente US$ 15 em benefícios econômicos. Quando são retirados da conta os ganhos de bem-estar que não têm preço de mercado, como a valorização de uma vida preservada, o retorno ainda seria de cerca de US$ 4 para cada dólar investido.

O relatório também calcula o preço da demora. Cada ano sem a adoção das medidas representaria a perda de mais de US$ 1,5 trilhão em benefícios combinados, o equivalente a 0,5% do PIB global por ano. A estimativa inclui ganhos de mercado e efeitos que não aparecem diretamente nas contas nacionais.

As mesmas fontes alimentam duas crises

A lógica central do documento é que poluição do ar e mudança climática não são problemas completamente separados. A queima de combustíveis fósseis, determinadas práticas agrícolas e processos industriais estão entre as atividades que alimentam as duas crises ao mesmo tempo.

Por isso, uma política pública pode produzir efeitos em mais de uma frente. A expansão de fontes renováveis reduz a dependência de combustíveis que liberam gases de efeito estufa e partículas nocivas. Alternativas mais limpas para cozinhar diminuem a exposição dentro das casas. O uso eficiente de fertilizantes reduz emissões associadas à agricultura, enquanto o fim da ventilação rotineira em operações de petróleo e gás evita a liberação de gases diretamente na atmosfera.

O estudo sustenta que a coordenação acrescentaria 0,2% ao crescimento econômico, resultado que não apareceria quando as agendas fossem tratadas de forma isolada. Simon Dietz, copresidente da avaliação e professor de política ambiental na London School of Economics, afirmou que os retornos conjuntos são maiores porque as duas crises frequentemente envolvem os mesmos setores, fontes de emissão e instrumentos de política.

O ar poluído continua sendo um problema de saúde pública

A urgência econômica acompanha uma crise sanitária de escala global. O PNUMA estima que 6,4 milhões de mortes prematuras em 2025 estejam associadas à exposição à poluição do ar externo causada pela atividade humana. A poluição doméstica, relacionada por exemplo à queima de combustíveis sólidos, teria ligação com outras 2 milhões de mortes prematuras, incluindo cerca de 300 mil crianças.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 99% da população mundial respira ar acima dos limites considerados seguros. Esse dado ajuda a explicar por que medidas de controle da emissão podem produzir efeitos econômicos além da redução de gases de efeito estufa. Menos poluição significa também menor pressão sobre hospitais, menos afastamentos do trabalho e menor risco para pessoas expostas diariamente.

O PNUMA afirma que o relatório oferece a avaliação mais rigorosa até agora sobre os ganhos de tratar as duas agendas juntas. Inger Andersen, diretora executiva do órgão, disse que a ação climática foi considerada por muito tempo um custo, enquanto a poluição do ar era vista como consequência do desenvolvimento. Para ela, a aplicação das soluções disponíveis depende de liderança de governos, instituições financeiras e empresas.

O que a experiência de outros países indica

China e Canadá já associam políticas de controle da poluição atmosférica a ações climáticas. No caso chinês, os níveis de poluição nociva capaz de entrar na corrente sanguínea caíram quase 60% entre 2013 e o fim do ano passado. O PNUMA relaciona esse movimento a uma queda de 30% na proporção de internações hospitalares provocadas por esse tipo de poluição.

O resultado mostra que metas ambientais podem ser acompanhadas por indicadores de saúde. Também reforça uma diferença importante na leitura dos números: parte do benefício das medidas aparece no mercado, como a redução de despesas médicas, e outra parte aparece na qualidade de vida e na preservação de vidas.

O que a agenda representa para a Amazônia

Na Amazônia, a discussão chega a uma região formada por cidades, áreas rurais e comunidades que dependem de diferentes fontes de energia, transporte e produção. As medidas citadas no relatório podem orientar decisões sobre geração elétrica, mobilidade, equipamentos para cozinhar e uso de insumos agrícolas nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

O principal ponto para a região é que a transição não se resume à troca de uma fonte de energia por outra. Ela envolve reduzir a exposição de famílias à fumaça, melhorar a eficiência dos sistemas produtivos e evitar que o custo da poluição seja transferido para os serviços de saúde e para os trabalhadores. A aplicação, porém, depende de políticas adaptadas às distâncias, à infraestrutura disponível e às características de cada território amazônico.

O relatório foi divulgado poucos dias depois de outra avaliação do PNUMA alertar que o mundo caminha para ultrapassar, nos próximos anos, a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5 °C acima do período pré-industrial. A combinação entre esse alerta e os cálculos econômicos reforça que o debate não envolve apenas o futuro do clima, mas também decisões de investimento na próxima década.

Os próximos passos dependem de governos, empresas e instituições financeiras transformarem as 25 medidas em políticas coordenadas, com execução capaz de reduzir emissões e produzir os ganhos econômicos projetados até 2035 e 2050.

Com informações de Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

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