Drones que assustam aves podem ganhar mapas inteligentes para voar sem pressionar a vida selvagem

Drones que assustam aves podem ganhar mapas inteligentes para voar sem pressionar a vida selvagem
Foto: acervo

Pesquisadores noruegueses desenvolvem um sistema que adapta rotas, horários e cuidados ao comportamento de cada espécie.

Um drone pode ser pequeno para quem o pilota, mas parecer uma ameaça para uma ave que protege o ninho. Para reduzir esse conflito, pesquisadores da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, a NTNU, estão desenvolvendo um sistema capaz de orientar voos conforme a espécie presente, o período do ano, o tipo de aeronave e a forma de aproximação. A pesquisa foi apresentada em 22 de setembro de 2026, com foco inicial em operações florestais e agrícolas.

A proposta nasce de um problema prático observado em Lofoten, arquipélago no norte da Noruega. A presença de drones já provocou reações de moradores e de aves de rapina, que podem atacar os equipamentos quando se sentem ameaçadas. O objetivo dos pesquisadores, porém, não é apenas evitar danos aos drones. É criar uma maneira mais precisa de impedir que a tecnologia afaste aves de seus ninhos ou altere o comportamento da fauna.

O risco muda conforme a espécie e o voo

As regras atuais costumam recomendar que o piloto não perturbe animais e evite áreas protegidas. O problema é transformar essa orientação ampla em uma decisão concreta. Uma distância segura para uma espécie pode ser insuficiente para outra. O mesmo animal também pode reagir de maneira diferente se o drone vier de cima, de baixo ou permanecer na mesma altura.

O ruído, o tamanho e a frequência sonora da aeronave entram na conta. Um equipamento leve usado por um fotógrafo não produz necessariamente o mesmo impacto de um drone agrícola capaz de carregar até 100 quilos. Segundo os pesquisadores, uma máquina desse porte pode gerar uma paisagem sonora mais próxima da de um helicóptero.

Há também diferenças entre as respostas fisiológicas dos animais. Estudos citados pela equipe indicam que patos eider não apresentam reação significativa à passagem de um drone a 30 metros de altura, enquanto pinguins-rei registram aumento expressivo da frequência cardíaca. A comparação mostra por que uma regra única de altitude não resolve o problema.

Como funcionaria o mapa para pilotos

O projeto reúne pesquisas que normalmente analisam os fatores de forma separada. Em vez de observar apenas a distância entre o drone e o animal, o modelo pretende cruzar dados sobre a aeronave, o padrão de voo, a espécie e as consequências ecológicas possíveis ao longo do tempo.

Na prática, o resultado poderia aparecer como um mapa interativo. Antes de decolar, o operador informaria o local, a época do ano e o modelo do drone. O sistema indicaria a probabilidade de encontrar determinadas espécies e sugeriria cuidados específicos, como alterar a rota, reduzir a aproximação ou evitar uma área durante a temporada de reprodução.

Segundo a NTNU, o framework desenvolvido pela equipe transforma conhecimento ecológico em dados técnicos que podem ser usados por engenheiros na criação de algoritmos e ferramentas de simulação. O estudo que descreve essa estrutura está disponível no artigo científico publicado pela equipe.

Segundo a NTNU, o sistema em desenvolvimento poderá adaptar as orientações de voo ao tipo de drone, às espécies presentes e às condições sazonais da área.

Da pesquisa ao uso cotidiano

A Noruega já tem cerca de 457 mil proprietários de um ou mais drones, de acordo com dados citados na apresentação da pesquisa. Os equipamentos são usados em agricultura, manejo florestal, inspeções de infraestrutura e coleta de dados científicos. Quanto maior o número de operações, mais importante se torna distinguir uma simples passagem de uma perturbação com efeito acumulado.

O uso científico também pode se beneficiar da tecnologia. O Instituto Norueguês de Pesquisa da Natureza, conhecido como NINA, informa que drones podem permitir o monitoramento de aves marinhas com menos interferência do que métodos anteriores, desde que os pilotos conheçam o ambiente e o comportamento das espécies. A diferença está no modo de operar, não apenas na existência do equipamento.

Essa distinção é especialmente relevante para a Amazônia. Nos estados do Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia, Tocantins e Mato Grosso, drones podem apoiar levantamentos ambientais, atividades agropecuárias, inspeções e pesquisas em áreas extensas. Em uma região onde o acesso por terra é difícil e os ecossistemas variam muito, um mapa que considere a fauna local seria mais útil do que uma distância fixa aplicada a todos os lugares.

O que ainda precisa ser resolvido

A tecnologia ainda depende de conhecimento detalhado sobre cada espécie e cada ambiente. Para funcionar bem, o sistema precisa saber quando uma ave está em período reprodutivo, quais rotas provocam maior reação e como diferentes modelos de drones alteram o risco. Isso exige dados suficientes e atualização constante.

Também será necessário testar se as recomendações digitais correspondem ao que ocorre no campo. Uma simulação pode indicar menor risco, mas condições como vento, visibilidade, presença de filhotes e alteração repentina no comportamento dos animais podem mudar a situação durante o voo.

Inicialmente, os pesquisadores pretendem direcionar a ferramenta aos setores florestal e agrícola. A equipe também considera que, no futuro, o serviço possa atender usuários particulares, inclusive turistas que levam drones para regiões naturais. A próxima etapa é transformar o framework em uma ferramenta operacional capaz de orientar voos em diferentes épocas e ambientes.

Com informações de Norwegian University of Science and Technology (NTNU).

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