Escorpiões brilham sob luz ultravioleta e revelam duas espécies novas em afloramento isolado de Roraima

Escorpiões brilham sob luz ultravioleta e revelam duas espécies novas em afloramento isolado de Roraima
Foto: Guilherme Melo dos Santos - Equipe do AT-Biota/FAPESP

Animais foram encontrados na base de um inselbergue em Mucajaí, onde novas expedições devem ampliar o mapa da fauna amazônica.

Na escuridão da floresta, uma lanterna ultravioleta transforma pedras e folhas em pontos de observação. Foi seguindo esse brilho que pesquisadores localizaram, em outubro de 2022, escorpiões que não correspondiam a nenhuma espécie conhecida. O trabalho levou à descrição de Cayooca puchus e Brotheas cernii, duas novas espécies encontradas na base de um inselbergue na região da Cachoeira do Evandro, em Mucajaí, Roraima.

Segundo a Universidade Estadual Paulista (Unesp), as duas espécies foram descritas cientificamente em 6 de junho de 2026, em artigo publicado na revista Diversity. A identificação envolveu pesquisadores da Unesp, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, do Instituto Butantan e da Universidade Nacional Autônoma do México.

O brilho que orientou a coleta

Escorpiões fluorescem quando expostos à luz ultravioleta. Essa característica não significa que produzam luz própria, mas permite que sejam encontrados com mais facilidade durante buscas noturnas. A técnica foi usada para localizar os animais entre a vegetação e as formações rochosas da Cachoeira do Evandro.

A descoberta, porém, não ocorreu em uma única noite. As expedições reuniram exemplares de diferentes idades e sexos ao longo de vários anos. Depois da coleta, os pesquisadores compararam os animais com espécies já catalogadas, observando tamanho, coloração, granulação do corpo e estruturas utilizadas na identificação taxonômica.

Especialistas de diferentes instituições revisaram os exemplares e confirmaram que as características observadas não correspondiam às de espécies próximas. Esse conjunto de evidências morfológicas sustentou o reconhecimento dos dois escorpiões como novos para a ciência. Mais detalhes sobre a pesquisa estão disponíveis no artigo publicado na revista Diversity.

Duas espécies, características diferentes

Cayooca puchus mede entre 3,2 e 5,1 centímetros. O animal se diferencia por apresentar granulação corporal mais densa e carenas ventrais marcadas. As carenas são cristas ou linhas elevadas na superfície do corpo. Com a nova espécie, o gênero Cayooca passa a reunir duas espécies reconhecidas.

Escorpiões brilham sob luz ultravioleta e revelam duas espécies novas em afloramento isolado de Roraima
Foto: Guilherme Melo dos Santos – Equipe do AT-Biota/FAPESP

O nome puchus foi escolhido para registrar a reação de espanto associada à descoberta. A palavra deriva de pucheros, expressão em espanhol relacionada a uma manifestação de surpresa.

Já Brotheas cernii mede entre 4,5 e 5,7 centímetros. Em comparação com espécies próximas, apresenta corpo menor e granulação mais intensa. O nome homenageia o biólogo Felipe Augusto Cerni e sua família, em reconhecimento à contribuição dele para estudos sobre venenos de escorpiões.

Uma ilha rochosa dentro da floresta

Até o momento, Cayooca puchus e Brotheas cernii foram encontrados apenas na base do inselbergue da Cachoeira do Evandro. O termo designa uma elevação rochosa isolada, que se destaca em meio à paisagem florestal. A ocorrência registrada em um único ponto não prova que as espécies estejam restritas a esse local. Outras populações podem ser encontradas em novas áreas de amostragem.

O isolamento do afloramento pode ajudar a explicar a diferenciação dos animais. Quando uma população permanece separada de outras por longos períodos, o fluxo gênico diminui e diferenças podem se acumular. Em alguns casos, esse processo contribui para o surgimento de barreiras reprodutivas e novas espécies.

Essa é uma hipótese para o caso de Roraima, não uma conclusão definitiva. Estudos específicos ainda precisam verificar se o inselbergue realmente teve papel na formação das duas espécies. A localização também reforça a importância de investigar ambientes pouco amostrados, que podem concentrar organismos ainda desconhecidos.

O mapa incompleto da biodiversidade amazônica

A descoberta se encaixa em um problema conhecido pelos biólogos: a dificuldade de saber quais espécies existem e onde elas vivem. A chamada lacuna Lineana corresponde à falta de espécies formalmente descritas. Já a lacuna Wallaceana se refere ao desconhecimento sobre a distribuição geográfica dos organismos.

Escorpiões brilham sob luz ultravioleta e revelam duas espécies novas em afloramento isolado de Roraima
Foto: Guilherme Melo dos Santos – Equipe do AT-Biota/FAPESP

Roraima ainda possui áreas pouco estudadas, e o mesmo desafio aparece em diferentes partes da Amazônia Legal, incluindo Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Tocantins e Maranhão. Para universidades, unidades de conservação e equipes de monitoramento, isso significa que inventários de fauna continuam essenciais antes de qualquer avaliação completa sobre a diversidade regional.

Descrever uma espécie é uma etapa básica, mas decisiva. Sem um nome e uma caracterização científica, torna-se mais difícil reconhecer sua presença em levantamentos ambientais, avaliar riscos e definir prioridades de conservação. Em áreas sob pressão, um animal pode desaparecer antes de ser formalmente catalogado.

O que a descoberta revela sobre saúde e venenos

Os novos escorpiões pertencem à família Chactidae e não estão entre as principais espécies de importância médica no Brasil. Ainda assim, o grupo tem relevância para a vigilância em saúde. Em 2025, o país registrou 225.695 acidentes envolvendo escorpiões, número equivalente a mais de 65% dos acidentes com animais peçonhentos registrados naquele ano, segundo dados do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde.

As maiores ocorrências foram registradas nas regiões Nordeste e Sudeste. Na região Norte, Tityus obscurus é apontado como o principal causador de acidentes e óbitos. Essa diferença mostra por que a identificação correta é importante: nem todo escorpião oferece o mesmo risco, e a distribuição das espécies varia entre os ambientes.

O veneno de Cayooca puchus e Brotheas cernii também entrou na agenda dos pesquisadores. Amostras já foram coletadas e estão sendo analisadas na Unesp para identificar moléculas com possíveis aplicações em inseticidas biológicos e pesquisas farmacêuticas ou biomédicas. Esses usos ainda são possibilidades de investigação, não produtos ou tratamentos prontos.

Como os animais são sensíveis a mudanças de temperatura e umidade, os exemplares vivos permaneceram na Universidade Federal de Roraima. A decisão permitiu mantê-los em condições mais próximas das encontradas no ambiente de origem, enquanto os venenos seguiram para análise em São Paulo.

As próximas buscas em Roraima

A equipe prepara novas expedições ao estado para investigar também aranhas e barbeiros. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre a fauna associada aos afloramentos rochosos e à floresta ao redor. Os próximos levantamentos poderão indicar se as duas espécies vivem em outros pontos ou se sua distribuição é realmente limitada ao local onde foram encontradas.

A história começou com dois pequenos animais fluorescendo sob uma lanterna, mas o resultado ultrapassa a descoberta de novos nomes. Ela mostra como áreas isoladas de Roraima ainda podem alterar o conhecimento sobre a biodiversidade amazônica e por que as próximas expedições serão importantes para testar as hipóteses levantadas pelos pesquisadores.

Com informações de Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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