
Estudo publicado em 2026 mostra que pagamentos digitais só favorecem a transição sustentável quando há regras, crédito e governança.
Um pagamento feito pelo celular pode ter relação com a redução de emissões, mas não por si só. É essa conexão, ainda dependente de regras e instituições, que aparece em um estudo publicado em 14 de maio de 2026 na revista Financial Innovation. A pesquisa analisou 148 economias associadas à Iniciativa Cinturão e Rota, entre 2004 e 2023, e concluiu que a fintech tende a apoiar o desenvolvimento verde em parte desses países, com resultados bastante diferentes entre Ásia, África e Europa.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Huazhong University of Science and Technology, em Wuhan, na China, com colaboração do Wenhua College. Em vez de tratar a tecnologia financeira como uma solução automática para a crise climática, os autores avaliaram quando pagamentos digitais, inteligência artificial, blockchain e serviços bancários móveis conseguem aproximar crescimento econômico e menor pressão ambiental.
O efeito positivo não aparece do mesmo jeito em todo lugar
Na amostra completa, o indicador de tecnologias financeiras disruptivas teve associação positiva com o desenvolvimento verde, com coeficiente de 0,014. O resultado também foi estatisticamente significativo na Ásia, onde o coeficiente chegou a 0,034, e na África, com 0,041.
Na Europa, porém, a relação direta não foi estatisticamente significativa. Os pesquisadores apontam que mercados digitais mais maduros, mas ainda desiguais, regras fragmentadas e barreiras à integração entre países podem dificultar a conversão da inovação financeira em ganhos ambientais.
Segundo a Huazhong University of Science and Technology, o estudo avaliou 148 economias entre 2004 e 2023 para medir a relação entre finanças digitais, efeitos da Iniciativa Cinturão e Rota e desenvolvimento verde.
O que mudou depois da Iniciativa Cinturão e Rota
Lançada em 2013, a Iniciativa Cinturão e Rota ampliou conexões de infraestrutura, comércio e investimento entre países da Ásia, Europa e África. Para estimar possíveis efeitos indiretos desse processo, o estudo separou os períodos anterior e posterior a 2013.
Esse chamado efeito de transbordamento foi positivo para o desenvolvimento verde no conjunto analisado, com coeficiente de 0,020. O resultado foi mais expressivo na Ásia, com 0,061, seguido pela Europa, com 0,048, e pela África, com 0,041.
Na prática, isso significa que projetos de infraestrutura, circulação de capital e integração comercial podem criar condições para atividades econômicas menos intensivas em carbono. Mas o resultado não autoriza concluir que toda obra ou fluxo financeiro ligado à iniciativa seja ambientalmente benéfico. A qualidade da governança e o destino do dinheiro continuam decisivos.
Quando a tecnologia passa a produzir o efeito contrário
A interação entre fintech e os efeitos da Cinturão e Rota foi positiva no painel geral, com coeficiente de 0,014, e na Europa, com 0,007. Na Ásia, entretanto, essa interação foi negativa, com menos 0,044. Na África, também ficou negativa, em menos 0,045, com significância estatística mais limitada.
A diferença ajuda a explicar por que o crescimento das finanças digitais não deve ser confundido com uma política climática. Onde faltam fiscalização ambiental, educação financeira, acesso bancário e padrões comuns para projetos internacionais, o crédito pode acelerar atividades econômicas sem garantir que elas sejam sustentáveis.
Os modelos usados pelos autores combinaram regressões, testes de relação de longo prazo, análise bayesiana e índices construídos por análise de componentes principais. O objetivo foi reunir dimensões diferentes de finanças digitais e desenvolvimento verde em uma mesma avaliação, reduzindo o risco de observar apenas um tipo de tecnologia ou indicador econômico.
Crédito, energia e estabilidade entram na conta
Além da fintech e da Cinturão e Rota, o estudo considerou ambiente de negócios, estabilidade do governo, depósitos em cooperativas de crédito, transição para energias renováveis e a Belt and Road Initiative Green Development Coalition, conhecida pela sigla BRIGC.
No painel completo, depósitos em cooperativas de crédito tiveram associação positiva com o desenvolvimento verde. Já ambiente de negócios, estabilidade governamental e BRIGC apareceram com associação negativa. A transição para energias renováveis foi positiva, mas não alcançou significância estatística no conjunto dos países.
Os resultados regionais mudaram novamente. Na Ásia, estabilidade governamental e transição energética tiveram associação positiva. Na África, depósitos em cooperativas de crédito e BRIGC foram os fatores com relação positiva. Essa variação reforça que uma mesma política pode produzir efeitos diferentes conforme a estrutura financeira e institucional de cada território.
O que isso significa para a Amazônia
Para os estados da Amazônia brasileira, o debate interessa principalmente porque a digitalização do crédito já influencia a forma como pequenos negócios, produtores, cooperativas e empreendimentos de infraestrutura acessam serviços financeiros. A tecnologia pode facilitar pagamentos, seguros, rastreabilidade e financiamento de atividades de menor impacto, mas também pode ampliar rapidamente recursos para projetos sem critérios ambientais claros.
O estudo não avaliou especificamente Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão. Ainda assim, sua principal lição é aplicável à região: plataformas digitais não substituem licenciamento, fiscalização, transparência nem participação das comunidades. Para que o crédito verde chegue a áreas amazônicas, também são necessários conectividade, educação financeira e instrumentos capazes de reconhecer as particularidades de cadeias extrativistas, agroflorestais e de conservação.
Entre as alternativas citadas pelos pesquisadores estão títulos verdes, empréstimos vinculados a metas de sustentabilidade, plataformas de negociação de carbono e impostos ambientais. A recomendação é combinar essas ferramentas com padrões ambientais, cooperação entre países, transferência de tecnologia e financiamento de energias renováveis, especialmente em regiões onde a expansão econômica ocorre com maior pressão sobre os recursos naturais.
Limites e próximos passos da pesquisa
Os autores alertam que o índice usado para medir a tecnologia financeira disruptiva pode não representar toda a complexidade da Iniciativa Cinturão e Rota. Também defendem novas análises por faixa de renda e por modelo de governança, duas variáveis que podem alterar a relação entre digitalização financeira e sustentabilidade.
O estudo foi financiado pelo projeto nacional chinês de ciência e tecnologia Smart Grid, sob o código 2024ZD0800500, e pelos Fundos de Pesquisa Fundamental para Universidades Centrais, código 2024WKYXQN016. O artigo completo está disponível na publicação da Financial Innovation.
A próxima etapa indicada pelos pesquisadores é aprofundar a comparação entre países e criar políticas que façam o dinheiro digital chegar a projetos de baixo carbono com controle ambiental, em vez de apenas acelerar a circulação de recursos.
Com informações da Huazhong University of Science and Technology.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














