Laser espacial será testado entre dois satélites e pode alimentar data centers fora da Terra

Laser espacial será testado entre dois satélites e pode alimentar data centers fora da Terra
Foto: cUgOGk"]{content:"hRFzlA,"}/*!sc*/

Protótipo da Star Catcher tentará enviar energia a um cubesat em órbita pela primeira vez entre objetos independentes.

Satélites podem ganhar uma espécie de tomada sem fio no espaço. A startup americana Star Catcher prepara, para a semana de 28 de setembro de 2026, o lançamento de um protótipo que tentará enviar energia por laser a outro satélite, sem que os dois estejam conectados fisicamente. Se funcionar, será a primeira demonstração de transmissão de energia entre duas espaçonaves independentes em órbita.

A experiência será levada ao espaço por um foguete da SpaceX. O equipamento principal, chamado Protostar, deverá apontar seu feixe para um cubesat lançado na mesma missão. A empresa quer medir quanta energia chega ao pequeno satélite enquanto ele se afasta e comparar o resultado com os modelos desenvolvidos em solo.

Uma rede elétrica para quem vive em órbita

A ideia responde a um problema que ainda parece distante, mas já acompanha os planos de empresas como Google, SpaceX e outras startups: como fornecer eletricidade para estruturas cada vez maiores no espaço.

Satélites dependem de painéis solares e baterias. Quando precisam operar durante períodos sem luz direta ou quando carregam instrumentos de alto consumo, o espaço disponível para baterias se torna um fator decisivo. A proposta da Star Catcher é separar a geração da energia do equipamento que vai consumi-la.

Os chamados power nodes funcionariam como usinas solares e linhas de transmissão orbitais. Lentes captariam a luz do Sol e a concentrariam em comprimentos de onda específicos. Depois, o sistema converteria essa energia em um feixe de laser direcionado aos painéis solares de outro satélite.

Segundo a Star Catcher, a luz concentrada pode entregar até dez vezes mais potência do que a luz solar difusa recebida normalmente. Na prática, isso permitiria reduzir o tamanho das baterias ou instalar instrumentos mais pesados e capazes, incluindo processadores gráficos, conhecidos como GPUs, para futuros centros de processamento de dados no espaço.

O teste que muda a escala da demonstração

A novidade não está apenas em usar um laser fora da Terra. O principal salto é fazer o feixe alcançar um objeto separado, que se movimenta em relação à fonte. Isso exige rastreamento preciso, ajuste contínuo da direção e controle da quantidade de energia recebida.

Segundo a WIRED, em 28 de setembro de 2026, a Star Catcher se preparava para testar a transmissão de energia entre o Protostar e um cubesat não conectado fisicamente a ele. Essa configuração permitirá verificar o desempenho do sistema em uma situação mais próxima de um serviço comercial.

A empresa já havia realizado um teste espacial de sua tecnologia de rastreamento e, no ano anterior, estabelecido um recorde de transmissão de energia por laser em solo. Nessa demonstração, mais de 1 quilowatt chegou a painéis solares disponíveis no mercado, quantidade suficiente para alimentar um forno de micro-ondas.

O resultado ainda está muito abaixo do necessário para abastecer satélites de telecomunicações de grande porte ou um data center orbital. Por isso, a própria empresa descreve seu estágio atual como o de quem está aprendendo a engatinhar antes de caminhar e correr.

Por que a energia orbital ganhou espaço agora

A geração solar no espaço não é uma ideia recente. O conceito apareceu em uma obra de ficção científica de Isaac Asimov, em 1941, e foi estudado pela NASA na década de 1970. Durante muito tempo, porém, colocar grandes estruturas em órbita custava caro demais para que a proposta tivesse aplicação econômica.

A queda nos preços de lançamento mudou parte dessa conta. Ainda assim, levar massa ao espaço continua sendo caro, e cada quilograma ocupado por bateria representa menos espaço para sensores, antenas ou computadores. Para operadores de satélites, receber energia sob demanda poderia aumentar o tempo de funcionamento e o retorno financeiro de cada equipamento.

A Star Catcher anunciou uma rodada de financiamento de 65 milhões de dólares e recebeu um prêmio de 30 milhões de dólares da Força Espacial dos Estados Unidos. Também informou ter 40 cartas de intenção de possíveis compradores e dez contratos de compra de energia de longo prazo.

O mesmo foguete que levará o protótipo também transportará a primeira tentativa do Google de colocar um data center em órbita. A coincidência reforça a corrida por uma infraestrutura espacial capaz de produzir, processar e transmitir dados longe da superfície terrestre.

O que ainda pode impedir a expansão

O laser tem uma vantagem importante sobre outras formas de transmissão: consegue atingir alvos pequenos. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia, o Caltech, já testaram o envio de energia solar por micro-ondas em direção à Terra. As micro-ondas podem transportar mais energia, mas exigem receptores muito grandes. Um feixe de laser, por outro lado, pode ser direcionado a uma área menor.

Isso não significa que a tecnologia esteja pronta para uma rede elétrica orbital. Em 2023, o Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos operou um laser espacial durante 100 dias para gerar energia. O experimento usava uma única unidade, e o feixe percorreu menos de 1,5 metro. A eficiência foi de 11%, índice considerado baixo para uma operação comercial.

A pesquisadora Hanieh Fattahi, do Instituto Max Planck de Ciência da Luz, aponta obstáculos que ainda precisam ser resolvidos, como perdas de eficiência, controle térmico e rastreamento. Os equipamentos também precisam funcionar durante anos no vácuo e no frio extremos do espaço, sem manutenção direta.

“Não existe uma rede elétrica no espaço. Todo mundo faz essas pequenas viagens de acampamento”, afirmou Andrew Rush, presidente-executivo e cofundador da Star Catcher.

O que isso pode significar para a Amazônia

O teste não prevê uma aplicação direta para os estados da Amazônia brasileira, mas a região pode ser afetada indiretamente se a infraestrutura orbital crescer. Satélites mais potentes e com maior disponibilidade poderiam ampliar serviços de comunicação, observação ambiental, previsão meteorológica e acompanhamento de áreas remotas no Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão.

Esses benefícios, porém, dependeriam de contratos, cobertura e custos acessíveis. A transmissão de energia por laser não substitui redes terrestres nem resolve sozinha os desafios de conectividade na floresta. Seu possível papel seria manter satélites operando por mais tempo e com instrumentos mais capazes, algo relevante para monitorar rios, queimadas, desmatamento, produção agrícola e deslocamentos em áreas isoladas.

O próximo passo é descobrir se o Protostar consegue manter o feixe sobre o cubesat em movimento e entregar a potência prevista. A Star Catcher afirma que pretende oferecer serviços comerciais de fornecimento de energia em órbita antes do fim desta década.

Com informações de WIRED.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA