
Imagens sísmicas em 3D mostram que um deslizamento submarino antecedeu a explosão do vulcão Kolumbo.
O mar primeiro recuou, como se fosse puxado para longe da costa. Poucos instantes depois, ondas de até 20 metros atingiram as ilhas próximas de Santorini, no mar Egeu. A sequência ocorreu em 1650, durante a erupção do vulcão submarino Kolumbo, e agora foi reconstruída por pesquisadores com imagens sísmicas em 3D e simulações de computador.
O resultado resolve uma parte importante do episódio histórico: a explosão sozinha não teria força para explicar a altura e o comportamento das ondas descritos por testemunhas. Segundo o GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research Kiel, o tsunami foi produzido por uma combinação de deslizamento submarino e erupção explosiva.
O que as testemunhas viram em 1650
A erupção já chamava atenção havia algumas semanas. A água mudou de cor e começou a ferver. Rochas brilhantes eram lançadas por uma abertura que surgiu no mar, cerca de sete quilômetros a nordeste de Santorini. Fumaça cobriu o céu, enquanto chamas e relâmpagos eram observados na região.
Em seguida, o nível do mar baixou repentinamente. A água voltou em forma de ondas que alcançaram aproximadamente 20 metros em um ponto do litoral. O estrondo da explosão foi ouvido a mais de 100 quilômetros, enquanto pedra-pomes e cinzas caíram sobre outras ilhas. Uma nuvem de gases venenosos também matou pessoas.
Esses relatos foram reunidos e publicados no século 19 por um vulcanólogo francês. Eles serviram como uma espécie de registro de campo para a equipe liderada pelo geofísico marinho Jens Karstens, do GEOMAR. O desafio era transformar descrições antigas em evidências capazes de ser comparadas com a estrutura atual do vulcão.
O fundo do mar guardou a prova do deslizamento
Para investigar Kolumbo, os cientistas usaram dados coletados pelo navio de pesquisa POSEIDON, hoje desativado. A técnica sísmica em 3D funciona de modo semelhante a uma tomografia: ondas sonoras atravessam o subsolo marinho, retornam em diferentes tempos e permitem montar uma imagem das camadas e das estruturas escondidas.
O vulcão está atualmente a 18 metros abaixo da superfície do oceano. As imagens revelaram uma cratera com cerca de 500 metros de profundidade e 2,5 quilômetros de diâmetro. As dimensões indicam que houve uma explosão de grande porte.
Os perfis sísmicos também mostraram que uma das laterais do cone vulcânico foi severamente deslocada. Para Gareth Crutchley, coautor do estudo, essa parte do vulcão “certamente escorregou”. A marca deixada no fundo do mar foi decisiva para testar a hipótese de um deslizamento.
Por que a explosão isolada não bastava
Os pesquisadores compararam diferentes possibilidades em modelos computacionais. Quando consideraram apenas a explosão, a simulação produziu ondas de aproximadamente seis metros em um dos pontos analisados. O registro histórico, porém, indicava ondas de 20 metros no mesmo trecho.
Havia outra diferença. Em determinado local, o modelo baseado somente na explosão previa que o mar recuaria primeiro. Os relatos indicavam o contrário: uma crista de onda chegaria antes à costa. A discrepância mostrava que faltava um evento na explicação.
Quando o deslizamento da encosta foi incluído nos cálculos, o comportamento das ondas se aproximou das observações históricas. A conclusão foi que a encosta deslizou durante a erupção e alterou de forma brusca a pressão dentro do sistema vulcânico.
O efeito de uma garrafa de champanhe
Kolumbo é formado em parte por pedra-pomes, material vulcânico leve e poroso, e tem encostas muito íngremes. Essa combinação favorece a instabilidade. Enquanto a erupção avançava, lava era expelida continuamente e a câmara magmática acumulava pressão por causa da grande quantidade de gases.
Karstens compara o mecanismo ao estouro de uma garrafa de champanhe. Quando uma das laterais deslizou, a pressão foi liberada de modo repentino. O gás dissolvido no magma se expandiu, intensificando a explosão. O deslizamento, portanto, não apenas deslocou água: ele também pode ter funcionado como o gatilho que ampliou a erupção.
Essa interpretação também ajuda a observar outros vulcões submarinos. Os autores apontam que algo semelhante pode ter acontecido na erupção de 2022 do vulcão Hunga Tonga, cujo formato de cratera é parecido com o de Kolumbo. A comparação não significa que os dois eventos tenham sido idênticos, mas indica que deslizamentos e explosões podem atuar em cadeia.
O que a descoberta significa para a Amazônia
O caso ocorreu no Mediterrâneo e não representa uma ameaça direta identificada para os estados amazônicos. Ainda assim, ele interessa ao Brasil porque amplia o conhecimento sobre perigos que começam no fundo do mar e podem afetar comunidades costeiras muito antes de qualquer sinal visível na superfície.
No Amapá e no Pará, áreas litorâneas e estuarinas dependem de monitoramento de marés, ondas, erosão e mudanças no nível da água. O estudo não aponta um vulcão submarino ativo nessas áreas. Sua contribuição para a Amazônia é metodológica: mostra por que sistemas de alerta precisam combinar imagens do subsolo, observação em tempo real e simulações capazes de testar diferentes causas para uma onda extrema.
Esse tipo de monitoramento é especialmente importante quando o fenômeno ocorre longe da costa. Um tsunami pode atravessar grandes distâncias, e a origem submarina nem sempre é evidente para quem está em terra. A investigação de Kolumbo reforça que o alerta não deve olhar apenas para a explosão, mas também para o risco de colapso de encostas vulcânicas.
O próximo passo é acompanhar a atividade em tempo real
A pesquisa foi publicada em 27 de outubro de 2023 na revista Nature Communications, com o título “Cascading events during the 1650 tsunamigenic eruption of Kolumbo volcano”. O artigo defende que os resultados podem contribuir para programas de acompanhamento de atividade vulcânica submarina, incluindo o sistema SANTORY.
A expectativa dos cientistas é desenvolver novas formas de identificar sinais de instabilidade e, no futuro, reunir dados em tempo real para um sistema de alerta antecipado. Esse é o próximo passo para transformar a reconstrução de um desastre ocorrido há 373 anos em ferramenta de prevenção para futuras comunidades costeiras.
O estudo completo está disponível no artigo científico publicado na Nature Communications.
Com informações de GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research Kiel.
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