Aos 25 anos, onça Guardião do Exército entra para o Guinness

Aos 25 anos, onça Guardião do Exército entra para o Guinness
Onça-pintada (Panthera onca) no zoológico do CIGS, em Manaus (AM), fotografada em 8 de fevereiro de 2004. Foto: BjoernS/Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0 DE. Foto ilustrativa, não é o Guardião.

A onça-pintada Guardião, do zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), do Exército Brasileiro, em Manaus, foi reconhecida pelo Guinness World Records como a onça-pintada mais velha em cativeiro, segundo a Força. O macho tinha 25 anos e 90 dias quando o recorde foi verificado, em 9 de junho de 2026, cerca de 1,7 a 2,1 vezes a expectativa de vida da espécie na natureza, de 12 a 15 anos, segundo o San Diego Zoo.

O que se sabe sobre o recorde de Guardião

Segundo o Exército, Guardião nasceu em março de 2001 em Tabatinga, no interior do Amazonas. Chegou ao zoológico do CIGS em 7 de agosto de 2007 e vive ali há mais de 19 anos, sob os cuidados da equipe técnica da instituição. O comunicado não detalha as circunstâncias da chegada.

A notícia foi divulgada pela Agência Gov em 22 de setembro de 2026 e publicada pelo Exército em 24 de setembro. O título registrado é o de onça-pintada mais velha em cativeiro. A Força não informa qual era o recorde anterior nem o critério de verificação aplicado pelo Guinness.

Bases científicas de longevidade têm números próprios. O banco de dados AnAge, que reúne o levantamento de Richard Weigl de 2005, cita uma fêmea nascida na natureza que tinha cerca de 28 anos quando morreu em cativeiro. Por isso, o título deve ser lido como o comunicado pelo Exército e reconhecido pelo Guinness, e não como uma comparação com todos os registros da literatura.

Como o CIGS cuida de um felino idoso

De acordo com a bióloga do CIGS, primeiro-tenente Eliane Carvalho, uma equipe multidisciplinar, formada por veterinários, bióloga e tratadores, acompanha Guardião no dia a dia. O Exército descreve quatro frentes de cuidado.

  • Alimentação adaptada ao desgaste dos dentes.
  • Suplementação para proteger as articulações.
  • Acompanhamento veterinário periódico, com o mínimo possível de contenção química.
  • Enriquecimento ambiental, para manter comportamentos típicos da espécie.

Segundo a Força, mesmo idoso Guardião é saudável, caminha, nada e usa estruturas elevadas do recinto. O Exército afirma ainda que o reconhecimento ajuda a divulgar a importância da proteção da fauna amazônica e fortalece as ações de educação ambiental do zoológico.

Por que a mata cobra mais caro

O San Diego Zoo informa que as onças-pintadas vivem de 12 a 15 anos na natureza e até 20 anos em zoológicos. Guardião passou desse teto de zoológico em cinco anos e do teto da natureza em dez. O Exército cita uma faixa de 10 a 15 anos para a espécie.

A diferença está no que a vida livre impõe. Segundo o projeto Onçafari, que atua no Pantanal, as onças morrem de velhice, em brigas com outras onças ou por ferimentos graves causados pelas presas, como as garras do tamanduá-bandeira e os dentes do queixada. Na prática, um animal com desgaste nos dentes, como o que o Exército descreve em Guardião, teria de enfrentar essas presas para comer. No zoológico, a comida chega ajustada a essa limitação.

A ameaça humana pesa ainda mais. A avaliação de risco de extinção publicada em 2013 na revista Biodiversidade Brasileira, do ICMBio, aponta como principais ameaças a perda e a fragmentação do habitat, a ampliação da malha viária e a eliminação de animais por caça ou por retaliação à predação de animais domésticos. O estudo estimou declínio de cerca de 30% da população em 27 anos, o equivalente a três gerações, e classificou a espécie como Vulnerável no Brasil.

A organização Panthera também cita o conflito com pecuaristas e a matança em retaliação entre as principais ameaças. O San Diego Zoo registra que, quando as onças passam a atacar o gado, criadores costumam responder com armadilhas e veneno. Sobre as estradas, estudo conduzido por Rafaela Cerqueira, da Universidade Federal de Lavras, e publicado em 2022 na Scientific Reports, aponta os atropelamentos como uma importante preocupação para a conservação da espécie.

O cativeiro também tem riscos próprios

Viver mais não significa viver sem doença. Um estudo de Duque-Correa e colegas, publicado em 2022 no Journal of Zoo and Aquarium Research, analisou 206 mortes de onças-pintadas em zoológicos europeus entre 1998 e 2018. Em 51,4% dos casos, os animais eram idosos. A neoplasia, ou câncer, respondeu por 19,8% das mortes, com carcinomas de mama e de fígado entre os mais comuns.

O trauma foi a principal causa identificada, com 21,6%, e atingiu sobretudo filhotes, feridos pelos pais. Ou seja, o cativeiro troca as causas de morte da natureza por outras, ligadas à idade, ao câncer e ao convívio. A longevidade de um indivíduo, isoladamente, também não mede seu bem-estar.

O caso de Guardião mostra o que o manejo pode fazer por um animal idoso: dieta ajustada, vigilância veterinária e um recinto que permite nadar e subir. Nenhum desses cuidados corrige o que a floresta perde quando as onças livres somem.

Entenda

  • Guardião é um macho nascido em março de 2001 em Tabatinga (AM) e vive no zoológico do CIGS, em Manaus, desde 7 de agosto de 2007.
  • O Guinness o registrou como onça-pintada mais velha em cativeiro, aos 25 anos e 90 dias, em 9 de junho de 2026, segundo o Exército.
  • Na natureza, a espécie vive de 12 a 15 anos, e em zoológicos até 20, segundo o San Diego Zoo.
  • Na mata, as ameaças incluem brigas, ferimentos na caça, perda de habitat, atropelamentos e retaliação a ataques ao gado.

O que vem a seguir

Guardião segue no zoológico do CIGS, com acompanhamento veterinário periódico e a rotina adaptada à idade. O Exército diz que o título deve reforçar as ações de educação ambiental da unidade. Para as onças que vivem soltas, o desafio continua sendo a proteção do habitat, o controle das mortes por retaliação e a redução dos atropelamentos.

Com informações de Exército Brasileiro (CIGS), Agência Gov, San Diego Zoo, Biodiversidade Brasileira (ICMBio), Journal of Zoo and Aquarium Research, Onçafari, Panthera, Universidade Federal de Lavras e AnAge.

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