
Nem o sapo-cururu, um dos anfíbios mais tóxicos do planeta, escapa de predadores que descobriram como driblar o veneno.
Existe um bicho que carrega o veneno no ombro e, mesmo assim, vira prato do dia para alguns espertos. O sapo-cururu, conhecido em inglês como cane toad, é um dos anfíbios mais tóxicos do mundo, mas cobras, corvos, ratos-d’água e até uma águia japonesa aprenderam a lidar com ele. A espécie nasceu na América do Sul e Central, tem a savana amazônica sazonal entre seus lares originais e hoje incomoda a Austrália, os Estados Unidos, o Japão e outros países.
Um gigante de pele áspera e glândulas nos ombros
Segundo a lista vermelha da IUCN, o que chamamos de sapo-cururu são, tecnicamente, duas espécies: o sapo-cururu mesoamericano (Rhinella horribilis) e o sul-americano (Rhinella marina). É a segunda que aparece com mais frequência fora de sua área natural.
Ambas são enormes para um anfíbio. Segundo o Museu Australiano, os adultos costumam chegar a 15 centímetros, e há registros de exemplares de 25 centímetros. A barriga é branca ou amarelada, as costas variam do marrom-claro ao amarronzado, e a pele é seca e cheia de verrugas.
O segredo está nas grandes glândulas parotoides, nos ombros. Delas sai a bufotoxina, uma substância leitosa e espessa. Segundo o governo australiano, se ingerida ela pode afetar o funcionamento do coração, causar salivação excessiva, paralisia e morte.
Quem consegue comer o sapo e escapar
O veneno faz mal à maioria dos animais, humanos incluídos. Mas há exceções. Em sua região de origem, algumas espécies, como as cascavéis, parecem imunes ou tolerantes.
Na Austrália, a cobra-keelback (Trophidonophis mairii), do norte do país, come o sapo sem consequências fatais. Segundo o Museu Australiano, essa habilidade pode ter sido herdada de ancestrais recentes que viveram na Ásia, onde existem animais com toxinas parecidas.
No Japão, águias-serpentes-de-crista também foram vistas devorando os sapos ilesas. Um estudo de 2025 na revista BMC Ecology and Evolution constatou que a ave compartilha sequências genéticas com a keelback-de-pescoço-vermelho siamesa, que também come o sapo.
Já a cobra-preta-de-barriga-vermelha (Pseudechis porphyriacus) não tinha imunidade no início, mas parece ter se adaptado desde que o sapo chegou à Austrália, em 1935. Algumas ficaram mais resistentes. Outras simplesmente têm a cabeça pequena demais para engolir o anfíbio.
Truques de quem não quer arriscar
Há ainda os que não confiam na imunidade e preferem a técnica. Alguns corvos viram o sapo de barriga para cima e bicam só o ventre, que não é tóxico. O rakali, o rato-d’água nativo australiano (Hydromys chrysogaster), faz cortes delicados no peito do sapo para retirar coração e fígado, também livres de veneno.
Segundo o Museu Australiano, esses comportamentos mostram que a natureza tem encontrado respostas, ainda que lentas, para um invasor que chegou sem inimigos naturais.
Como um aliado virou problema
A história australiana é um clássico das consequências não previstas. Nos anos 1930, o sapo foi solto de propósito em Queensland para combater besouros que devoravam os canaviais. Segundo o Museu Nacional da Austrália, ele não foi muito eficaz contra os insetos.
Em compensação, proliferou e avançou pelo norte do país e pela costa oeste, tornando-se uma praga pior do que aquelas que deveria controlar. Segundo o Conselho de Espécies Invasoras da Austrália, mais de 90% de algumas espécies, como crocodilos de água doce e lagartos de língua azul, morreram logo após a chegada dos sapos.
E nos Estados Unidos?
O sapo é nativo do sul do Texas, mas invasor em outros lugares, como Flórida, Havaí e territórios americanos. No Havaí, a lógica foi a mesma da Austrália: proteger a cana-de-açúcar. Na Flórida também houve esse uso, embora as populações atuais sejam tidas como descendentes de animais que escaparam ou foram soltos por importadores nos anos 1950.
O que isso diz sobre a Amazônia
Aqui, o sapo-cururu é parte da paisagem. Vive em lagoas, jardins e até sob casas, e divide o ambiente com predadores que evoluíram junto com ele. É esse equilíbrio de milhões de anos que falta aos países invadidos. A diferença entre bicho de casa e praga, nesse caso, é a presença de quem sabe comê-lo.
A pesquisa sobre predadores que se adaptam, como a do estudo de 2025, segue aberta e deve indicar se outras espécies invadidas desenvolvem resistência ao longo das próximas décadas.
Com informações de Discover Magazine, Museu Australiano e IUCN.
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