Morcegos e aves voltam quando a floresta ganha madeira morta

Tronco caído coberto de musgo em clareira de floresta com morcegos e ave
Troncos caídos e clareiras oferecem abrigo e alimento para morcegos e aves insetívoros

Abrir clareiras e deixar madeira morta no chão faz a floresta ganhar morcegos e aves. Segundo estudo publicado em 8 de junho de 2026 na revista Current Biology, florestas de faia da Alemanha que receberam essas intervenções passaram a abrigar cerca de duas espécies a mais de cada grupo em escala de paisagem, na comparação com matas de produção homogêneas.

A pesquisa foi liderada pela Universidade de Würzburg, com participação do Parque Nacional da Floresta da Baviera. O trabalho derruba uma ideia antiga do manejo florestal, a de que floresta boa é floresta limpa. Para a fauna, árvore morta também é casa, comida e esconderijo.

Séculos de floresta arrumada demais

Na Europa, séculos de produção de madeira criaram florestas simplificadas, com árvores da mesma idade e poucas clareiras. Faltam as fases jovem e velha da mata, justamente as que oferecem troncos caídos, árvores mortas em pé e luz no chão.

Para testar o efeito de devolver essa complexidade, os cientistas montaram o experimento BETA-FOR em 11 paisagens florestais de seis regiões alemãs. Em cada uma, compararam um distrito de floresta com intervenções e outro de floresta de produção comum.

Ao todo, foram 234 parcelas de 50 por 50 metros. Algumas receberam uma clareira de cerca de 30 metros de diâmetro. Outras tiveram cortes espalhados, mantendo a copa fechada. Tocos, troncos deitados e árvores mortas em pé foram distribuídos de diferentes formas.

Microfones na mata para contar espécies

A contagem foi feita por som. Gravadores automáticos registraram o canto das aves e os chamados de ecolocalização dos morcegos, e programas de computador identificaram as espécies. Especialistas revisaram os registros.

Foram identificadas 17 espécies de morcegos em 936 sessões de gravação. Para as aves, o número chegou a 72 espécies em 16.147 sessões.

Os resultados mostraram quem ganhou com a mudança. Entre as aves, apareceram com mais frequência espécies de bosques abertos e pica-paus ligados à madeira morta. Entre os morcegos, cresceram as espécies que caçam insetos em espaços abertos.

Cada bicho enxerga a floresta de um jeito

O dado mais revelador está na forma como cada grupo respondeu. As aves ganharam diversidade dentro de cada parcela. Ou seja, um pedaço de floresta mais complexo passou a reunir mais espécies ao mesmo tempo.

Os morcegos seguiram outro caminho. O ganho veio da diferença entre parcelas. Cada trecho da floresta passou a abrigar um conjunto distinto de espécies, e a soma da paisagem ficou mais rica.

A explicação, segundo os autores, está no modo de vida. Aves defendem territórios pequenos e reagem a detalhes do ambiente ao redor. Morcegos voam longas distâncias numa mesma noite, entre abrigos e áreas de caça.

As aves também ganharam em diversidade funcional, isto é, passaram a reunir espécies com papéis ecológicos diferentes. Nos morcegos, o ganho foi sobretudo no número de espécies.

Entenda por que isso importa

Morcegos e aves insetívoros controlam populações de insetos nas florestas. Mais espécies com funções diferentes significam um controle natural mais eficiente e uma floresta mais resistente a mudanças.

O estudo mostra que não existe receita única. Para aves, vale caprichar na complexidade de cada trecho. Para morcegos, vale espalhar intervenções diferentes pela paisagem.

Uma lição que atravessa o Atlântico

A floresta alemã é temperada e bem diferente da Amazônia. Mas o princípio vale para qualquer floresta manejada. Quando o manejo mira só a produção de madeira, a estrutura da mata fica mais simples, e essa simplificação cobra um preço da fauna.

Na Amazônia, morcegos e aves cumprem papéis ainda mais amplos. Além de comer insetos, muitos dispersam sementes e polinizam flores, garantindo a regeneração da própria floresta.

Os autores defendem que a restauração precisa ser planejada por grupo de animais e por escala. O próprio estudo observa que os morcegos das florestas temperadas se dividem em menos grupos de caça que os dos trópicos, o que torna o desafio amazônico ainda maior.

Se troncos caídos e clareiras bem distribuídas trazem bichos de volta à Europa, quanto vale cada árvore morta deixada de pé na floresta amazônica?

Com informações da revista Current Biology (Wild et al., 2026).

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