O mutum-de-alagoas sumiu da natureza há 40 anos e a espécie recomeçou com só cinco aves; hoje casais voltam às matas do Nordeste

O mutum-de-alagoas sumiu da natureza há 40 anos e a espécie recomeçou com só cinco aves; hoje casais voltam às matas do Nordeste
Foto: Suziane Brugnara/Prefeitura de Belo Horizonte. Mutum-de-alagoas adulto com filhote no Zoológico de Belo Horizonte, em janeiro de 2026.

O mutum-de-alagoas (Mitu mitu), uma ave grande e escura que vivia nas matas do litoral de Alagoas e Pernambuco, desapareceu da natureza há cerca de 40 anos. A espécie só não foi extinta porque um pequeno grupo foi mantido em cativeiro, e toda a população atual descende de apenas cinco aves. Depois de décadas de reprodução controlada, casais voltaram a ser soltos em matas de Alagoas, e em abril de 2026 mais três casais chegaram a uma reserva no sul do estado para viver livres, segundo o Ministério Público de Alagoas (MPAL).

Como a ave desapareceu

O mutum-de-alagoas vivia na Mata Atlântica do Nordeste, uma das áreas mais desmatadas do bioma. A derrubada da floresta para a cana-de-açúcar e a caça acabaram com as populações selvagens. Os últimos registros na natureza são do fim do século 20, e a espécie passou a ser considerada extinta em vida livre.

Cinco aves e um gargalo genético

A salvação veio de um criadouro conservacionista que reuniu as últimas aves. “A espécie passou por um gargalo genético severo, partindo de apenas cinco indivíduos. Foi necessário um manejo criterioso, com controle genético e cruzamentos planejados, para garantir variabilidade e viabilidade populacional”, explicou o veterinário Felipe Coutinho, responsável técnico pelo criatório conservacionista Crax, em comunicado do MPAL.

Com pouca variação genética, cada cruzamento precisa ser planejado para evitar problemas de saúde e de fertilidade nos filhotes. O trabalho permitiu aumentar o número de aves aos poucos e criar condições para a reintrodução.

Um nascimento no zoológico

Em janeiro de 2026, a Prefeitura de Belo Horizonte anunciou o nascimento de um filhote de mutum-de-alagoas no Zoológico de Belo Horizonte, que se tornou uma das instituições a conseguir reproduzir a espécie. Cada filhote nascido em cativeiro reforça o grupo que pode, no futuro, ser levado de volta à natureza.

A volta às matas

As primeiras solturas aconteceram em áreas de Mata Atlântica de Alagoas a partir de 2019. Em abril de 2026, seis aves, três casais, vindas de Minas Gerais, chegaram à Reserva Particular do Patrimônio Natural da Usina Coruripe, no sul de Alagoas. Elas passaram por um período de adaptação em viveiros antes da soltura definitiva, prevista para maio.

A iniciativa faz parte de um programa coordenado pelo MPAL com o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas, o Batalhão de Polícia Ambiental, o Instituto para a Preservação da Mata Atlântica, a Universidade de São Paulo e a iniciativa privada.

“Trazer de volta uma espécie extinta na natureza há cerca de 40 anos é um marco para a conservação mundial. É o resultado de décadas de dedicação e cooperação entre instituições”, afirmou Coutinho.

Matas silenciosas

Aves grandes que comem frutos, como os mutuns, ajudam a espalhar sementes pela floresta. Quando desaparecem, a mata perde parte de quem a replanta, um processo parecido com o que aconteceu na Floresta da Tijuca antes da volta dos tucanos. “Precisamos transformar nossas matas, hoje silenciosas, em ambientes novamente vivos, pulsantes”, disse a promotora de Justiça Lavínia Fragoso, do MPAL.

O que falta

A espécie continua classificada como extinta na natureza. Para mudar essa situação, os pesquisadores precisam confirmar que as aves soltas sobrevivem, formam casais e se reproduzem sozinhas na mata, sem ajuda humana. Também é preciso proteger as áreas de soltura contra caça e desmatamento.

Perguntas frequentes

O mutum-de-alagoas está extinto?

Está extinto na natureza, mas sobrevive em cativeiro e passa por reintrodução em matas de Alagoas.

Quantas aves deram origem à população atual?

Apenas cinco, segundo o criatório responsável pelo manejo da espécie.

Onde as aves estão sendo soltas?

Em áreas de Mata Atlântica de Alagoas, incluindo a reserva da Usina Coruripe, no sul do estado.

Por que o mutum é importante para a floresta?

Porque come frutos e espalha sementes, ajudando a regenerar a mata.

Com informações do Ministério Público de Alagoas (MPAL) e da Prefeitura de Belo Horizonte.

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