Aves da cidade fogem mais cedo quando quem se aproxima é uma mulher, e os cientistas que descobriram isso não sabem explicar por quê

Aves da cidade fogem mais cedo quando quem se aproxima é uma mulher, e os cientistas que descobriram isso não sabem explicar por quê
Fêmea de pardal (Passer domesticus), uma das espécies urbanas analisadas no estudo. Foto: Bramans, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Pardais, pombos, melros e chapins vivem cercados de gente nas cidades. Seria natural imaginar que tratam todos os humanos da mesma maneira. Um estudo internacional mostrou que não. Em parques e áreas verdes de cinco países europeus, aves de 37 espécies voaram mais cedo quando quem se aproximava era uma mulher. Os homens conseguiam chegar, em média, cerca de um metro mais perto antes de o pássaro fugir.

O resultado foi publicado na revista People and Nature, da Sociedade Ecológica Britânica. E o detalhe mais curioso está na conclusão dos próprios autores: eles não sabem explicar a diferença.

Como foi o teste

A medida usada é bem conhecida dos ecólogos: a distância de início de fuga. Uma pessoa caminha em linha reta em direção a uma ave pousada, num ritmo constante, e anota a distância em que o animal levanta voo. Quanto maior a distância, mais cauteloso o bicho.

No estudo, homens e mulheres participaram como observadores. Para evitar distorções, os pares tinham altura parecida e usavam roupas semelhantes. Os testes foram feitos na Tchéquia, na França, na Alemanha, na Polônia e na Espanha, num total de 2.701 observações.

O padrão apareceu em todos os países e em todas as 37 espécies, das mais assustadiças, como as pegas, às mais acostumadas com gente, como os pombos, que deixam as pessoas chegarem bem perto.

Os cientistas admitem o mistério

O biólogo Daniel Blumstein, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, um dos pesquisadores, disse acreditar plenamente nos resultados. Segundo ele, técnicas de análise comparativa de ponta mostraram que o efeito é consistente entre cidades e espécies, mas ainda não existe uma explicação conclusiva.

A ecóloga Yanina Benedetti, da Universidade Tcheca de Ciências da Vida, em Praga, contou que se surpreendeu como mulher que trabalha em campo. Para ela, o estudo mostra como os animais da cidade enxergam os humanos e tem implicações para a ecologia urbana e até para a igualdade na ciência, porque muitos estudos de comportamento partem do princípio de que o observador humano é neutro.

O que as aves podem estar percebendo

Os pesquisadores levantaram algumas hipóteses, todas ainda especulativas:

  • Sinais químicos, como diferenças no cheiro do corpo.
  • Diferenças na forma do corpo, mesmo com altura e roupas parecidas.
  • Diferenças no jeito de andar, como ritmo e movimento do quadril.

Para o ecólogo Federico Morelli, da Universidade de Turim, coautor, essa talvez seja a parte mais interessante do trabalho: o grupo identificou um fenômeno sem saber a causa. O que os resultados deixam claro é a capacidade sofisticada das aves de avaliar o ambiente.

Próximos passos

Benedetti sugere que os próximos estudos testem cada fator separadamente, como movimento, cheiro e características físicas, em vez de agrupar tudo sob a categoria sexo do observador. Os autores lembram que, apesar do grande número de observações, os achados ainda são preliminares e precisam ser confirmados em outros lugares e populações.

Aves que reconhecem pessoas

O estudo se soma a outras pesquisas que mostram como as aves prestam atenção nos humanos. Corvos e gralhas conseguem reconhecer rostos específicos e lembrar de pessoas que os ameaçaram, chegando a avisar outros membros do bando. Pombos aprendem a distinguir quem os alimenta e quem os enxota. Para aves que vivem em cidades, onde convivem com milhares de pessoas por dia, saber de quem desconfiar pode ser uma vantagem para economizar energia.

E no Brasil?

O experimento ainda não foi repetido em cidades brasileiras, onde as espécies mais comuns são outras, como o sabiá-laranjeira, o bem-te-vi e a rolinha. Testes simples, como os usados no estudo, podem ser feitos em praças e parques e ajudariam a saber se o padrão vale também para as aves dos trópicos. Enquanto isso, quem observa pássaros tem um motivo a mais para prestar atenção: a reação de um passarinho pode depender de quem está chegando perto.

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