Fungos que matam cobras e lagartos podem estar pegando carona em botas e sacos de quem resgata répteis, alertam pesquisadores

Fungos que matam cobras e lagartos podem estar pegando carona em botas e sacos de quem resgata répteis, alertam pesquisadores
Píton-tapete-costeira (Morelia spilota mcdowelli), uma das espécies afetadas por fungos na Austrália. Foto: LiquidGhoul, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

Imagine que um resgatador tira uma cobra do forro de uma casa e, horas depois, atende outro chamado do outro lado da cidade. O mesmo gancho e o mesmo saco usados no primeiro resgate podem levar fungos de um animal para outro, e de um lugar para outro. O alerta é de pesquisadores australianos que estudam doenças de répteis.

Fungos perigosos

A Austrália tem uma das maiores diversidades de répteis do mundo, muitos exclusivos do país. Vários fungos já infectam répteis selvagens por lá, entre eles o Ophidiomyces ophidiicola, que causa a doença fúngica das serpentes, e o Nannizziopsis barbatae, que atinge dragões-d’água e pítons.

As infecções provocam lesões graves na pele, atrapalham a troca de pele e deixam os animais fracos e magros, muitas vezes até a morte. No mundo, a doença fúngica das serpentes já foi ligada à queda de populações de cobras selvagens. Como essas doenças apareceram primeiro em répteis de cativeiro na Austrália, o comércio de animais de estimação é uma provável porta de entrada.

Animais sem sintomas

Evitar animais com aparência doente não basta. Répteis podem carregar e espalhar os fungos sem sinais visíveis, porque acabaram de se infectar, toleram a infecção ou se recuperaram há pouco. Os fungos também sobrevivem no solo e em matéria em decomposição. Em Brisbane, dragões-d’água tinham mais chance de se infectar pelo ambiente contaminado do que pelo contato direto com outros animais doentes.

Por isso, uma bota enlameada, um saco de cobra já usado ou um gancho sem lavar podem levar o fungo adiante sem que ninguém perceba.

Cuidados simples

Os pesquisadores Patrick Champagne, Laura Grogan e Shelly Butcher recomendam medidas baratas e fáceis para quem lida com répteis, como resgatadores, cuidadores de fauna, guias de ecoturismo e cientistas:

  • Lavar e desinfetar as mãos e trocar as luvas entre um animal e outro.
  • Limpar e desinfetar ganchos, pinças e outros equipamentos.
  • Escovar e desinfetar botas antes de ir para outro local.
  • Usar um saco limpo para cada animal.
  • Separar os equipamentos usados com répteis de cativeiro dos usados na natureza.

Ainda não há prova de que pessoas estejam espalhando esses fungos entre populações selvagens na Austrália. Mas os caminhos existem, e o mesmo já aconteceu com outras doenças da fauna.

A lição dos sapos

O exemplo mais conhecido é o fungo quitrídio dos anfíbios, que devastou populações de sapos no mundo todo, inclusive na Mata Atlântica brasileira, e foi levado a refúgios remotos por atividades humanas, como o turismo. Desde então, pesquisadores de anfíbios adotaram protocolos rígidos de limpeza, e os autores pedem que quem trabalha com répteis faça o mesmo.

Não pegue répteis

Os pesquisadores lembram que ninguém deve manusear répteis selvagens sem treinamento e autorização. No Brasil, ao encontrar uma cobra em casa ou no quintal, a recomendação é manter distância e chamar o Corpo de Bombeiros ou a Polícia Militar Ambiental, que fazem o resgate com segurança para as pessoas e para o animal.

Perguntas frequentes

O que é a doença fúngica das serpentes?

Uma infecção causada pelo fungo Ophidiomyces ophidiicola, que provoca lesões na pele e pode matar cobras.

O que fazer ao encontrar uma cobra em casa?

Manter distância e chamar os bombeiros ou a Polícia Militar Ambiental. Não tente pegar o animal.

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