
Na maré baixa, nas praias das Terras Altas da Escócia, uma labradora preta enfia o focinho entre as algas e aponta. Ali está uma colônia de ascídia-tapete, um organismo marinho invasor apelidado de vômito do mar. A cadela se chama Sgiath, pronuncia-se algo como “Squi-a”, e é considerada a primeira do Reino Unido treinada para caçar esse invasor.
Pelo trabalho, ela foi eleita animal do ano pelo Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW), na 26ª edição do prêmio Animal Action Awards, em 15 de outubro de 2026.
De cão de resgate a farejadora marinha
Sgiath vive com a ecóloga marinha Texa Sim, perto de Glencoe, desde filhote. Primeiro foi treinada como cão de resgate em montanha. O desempenho foi tão bom que Sim se perguntou se as mesmas habilidades poderiam ajudar na conservação marinha.
A cadela, hoje com seis anos, aprendeu a reconhecer o cheiro da ascídia-tapete e passou a acompanhar a dona nas praias. Segundo Sim, ela sempre acerta quando indica uma colônia, que pode ser difícil de enxergar porque parece uma gosma no meio das algas, em pontões e em gaiolas de criação de ostras. Já encontrou centenas de colônias.
O projeto começou como um teste, sem garantia de que funcionaria, porque ninguém tinha explorado o uso de cães contra invasores no ambiente marinho. Na avaliação de Sim, os resultados superaram todas as expectativas. Com o faro, a cadela faz em pouco tempo um levantamento que exigiria muito mais esforço a olho nu.
O que é o vômito do mar
A ascídia-tapete (Didemnum vexillum) é um animal marinho colonial, parente distante dos vertebrados, que vive preso a superfícies. Forma camadas que podem ser laranja ou creme e se espalham como um tapete sobre rochas, cascalho, conchas, algas e estruturas humanas.
Especialistas acreditam que a espécie veio do Japão. Chegou ao sul da Inglaterra e ao País de Gales em 2008 e desde então se espalhou por vários pontos do litoral britânico. Reproduz-se rápido nos meses quentes de verão, e o aquecimento dos mares aumenta o temor de que avance ainda mais.
Por que ela preocupa
Se não for controlada, a ascídia cobre e sufoca espécies nativas, como mexilhões, ostras e outros organismos do fundo. Segundo o biólogo marinho Martyn Kurr, da Universidade de Bangor, espécies incrustantes como essa competem com a fauna nativa por nutrientes, entopem tanques e gaiolas de aquicultura, estruturas marinhas e até hélices de barcos. O controle desses invasores custa milhões de libras por ano na Europa.
Faro de cão na conservação
Cães farejadores já são usados em terra para localizar espécies ameaçadas, achar fezes de animais raros para estudos genéticos e ajudar a investigar crimes ambientais. O trabalho de Sgiath mostra que o faro também pode ser útil no litoral, onde detectar um invasor cedo faz toda a diferença para conseguir removê-lo.
Invasores do mar no Brasil
O litoral brasileiro também enfrenta invasores marinhos. O coral-sol, originário do Indo-Pacífico, se espalhou por costões rochosos do Sudeste e do Nordeste, e o peixe-leão chegou recentemente a recifes da Bahia. Em todos os casos, a detecção precoce é a arma mais barata.
Perguntas frequentes
O que é o vômito do mar?
É o apelido da ascídia-tapete (Didemnum vexillum), um animal marinho colonial invasor que forma camadas parecidas com gosma sobre o fundo e estruturas.
Como o cão encontra a ascídia?
Pelo cheiro. Sgiath foi treinada para reconhecer o odor da espécie e indica o local exato das colônias na maré baixa.
Com informações do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW) e da Universidade de Bangor.
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