Leões de zoológico passaram a receber carcaça inteira a cada nove dias e o comportamento de bicho selvagem voltou: comem três vezes mais tempo e depois dormem

Leões de zoológico passaram a receber carcaça inteira a cada nove dias e o comportamento de bicho selvagem voltou: comem três vezes mais tempo e depois dormem
Leão se alimenta de carcaça no Centro de Educação para a Conservação da Vida Selvagem de Uganda. Foto: Ssemmanda Will, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Na natureza, leões não comem todo dia no mesmo horário. Alternam banquetes, quando a caçada dá certo, e períodos de jejum. Um estudo feito na Austrália mostrou que, quando esse ritmo é reproduzido no zoológico com carcaças inteiras, o comportamento dos animais fica muito mais parecido com o dos leões selvagens.

A pesquisa foi publicada na revista científica Applied Animal Behaviour Science por cientistas da Universidade de Adelaide e do Monarto Safari Park, no sul da Austrália.

Carcaça a cada nove dias

O parque já usava uma rotina de banquete e jejum. A novidade foi incluir, a cada nove dias, carcaças inteiras de animais. Os pesquisadores observaram três leões africanos machos adultos antes e depois da mudança. Na fase experimental, o grupo recebeu cerca de 200 quilos de carcaça, que ficava disponível por até três dias. Depois vinha um período de descanso e digestão.

Oito câmeras infravermelhas filmaram os animais sem parar por três meses. O resultado é um dos registros de 24 horas mais detalhados já feitos de leões sob cuidados humanos com esse tipo de alimentação.

O que mudou

Nos dias de carcaça, os leões passaram quase três vezes mais tempo comendo do que o normal. Comeram com mais frequência e por períodos mais longos, rasgando, puxando, virando e consumindo a carcaça. Depois de saciados, ficaram bem mais tempo deitados, descansando. À medida que o jejum avançava, foram ficando gradualmente mais ativos.

Esse ciclo de alimentação intensa, descanso prolongado e atividade crescente é o mesmo documentado em populações de leões selvagens.

Mais do que nutrição

Segundo a autora principal, Lesia Hryhorenko, da Escola de Ciências Animais e Veterinárias da Universidade de Adelaide, oferecer a carcaça inteira muda muito mais do que o conteúdo nutricional da dieta. Dá aos leões a chance de rasgar, puxar e manipular o alimento por longos períodos, comportamentos que fazem parte da ecologia alimentar natural da espécie.

Carne em pedaços, servida pronta, é nutritiva, mas acaba em minutos e deixa de fora quase todo o trabalho que um leão faria na savana. A carcaça devolve esse trabalho, e com ele parte da rotina natural.

Bem-estar de animais em cativeiro

A pesquisa se soma a uma linha de trabalho conhecida como enriquecimento ambiental, que busca dar aos animais de zoológicos e santuários oportunidades de comportamento natural: procurar comida, explorar, escolher onde ficar. Para grandes carnívoros, a alimentação é uma das ferramentas mais poderosas, porque ocupa uma parte enorme do tempo dos animais na natureza.

O estudo contou também com a estudante de mestrado belga Florence Demoulin, da Universidade de Liège, e ajuda zoológicos a planejar rotinas que respeitem o ritmo biológico dos felinos.

Perguntas frequentes

Leão come todo dia na natureza?

Não. Leões selvagens alternam grandes refeições, depois de uma caçada bem-sucedida, com períodos sem comer.

Por que dar carcaça inteira a leões de zoológico?

Porque permite que eles rasguem, puxem e manipulem o alimento por mais tempo, aproximando o comportamento do que teriam na natureza.

Com informações da Universidade de Adelaide, do Monarto Safari Park e do estudo publicado na Applied Animal Behaviour Science.

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