
O gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi) sempre pareceu um felino fácil de encontrar. Caça de dia, atravessa áreas abertas e aparece até em paisagens degradadas. Justamente por isso foi tratado por décadas como uma espécie comum. A nova avaliação da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) mostra o contrário: ele passou da categoria pouco preocupante para quase ameaçado.
Segundo a avaliação, a população mundial de adultos é estimada em cerca de 13 mil indivíduos, espalhados do México à Argentina. O número é pequeno para uma área tão grande.
A armadilha da visibilidade
A avaliação foi conduzida pelo pesquisador brasileiro Tadeu de Oliveira, copresidente do Grupo de Especialistas em Felinos da IUCN. Segundo ele, o principal obstáculo foi a percepção de que o animal era abundante só porque é avistado com mais facilidade que outros felinos, que andam à noite e dentro da mata fechada.
Quando a equipe reuniu dados de pesquisadores de toda a área de ocorrência e quantificou os registros, o retrato mudou. O gato-mourisco não só é raro como está entre os felinos menos abundantes na maior parte de sua distribuição. As exceções são algumas localidades do México e do Brasil.
A espécie também consegue ocupar áreas desmatadas. Quando uma floresta é degradada e fica parecida com uma savana, o ambiente passa a lembrar o habitat preferido do felino. Não é o ideal, mas permite que ele continue ali, e isso ajudou a mascarar o declínio.
A Amazônia deixou de ser refúgio
Um ponto decisivo foi a Amazônia. Antes vista como possível refúgio para a espécie, a região já não é considerada segura. Um dos motivos é o tamanho do território de cada animal: em alguns lugares, os machos usam áreas de até 100 quilômetros quadrados. Com a floresta fragmentada, manter populações viáveis fica mais difícil.
Sem a Amazônia funcionando como reserva, a espécie passou a se enquadrar nos critérios de quase ameaçada. No Brasil, a última avaliação nacional, coordenada pela pesquisadora Flávia Tirelli, já classificava o gato-mourisco como vulnerável.
Quem é o gato-mourisco
É um felino pequeno, de até cerca de 7 quilos, corpo alongado, pernas curtas, orelhas arredondadas e cauda comprida. A aparência pouco felina, que lembra uma lontra ou uma irara, rendeu apelidos como jaguarundi e gato-preto. A pelagem varia do cinza-escuro quase preto ao marrom-avermelhado.
Vive em savanas, matas secas, bordas de floresta e áreas de transição, do Cerrado e da Caatinga à Amazônia. Come pequenos roedores, aves, répteis e insetos.
As ameaças
A avaliação lista conflitos com criadores de galinhas, que matam o animal em retaliação quando ele ataca aves domésticas, atropelamentos e doenças como raiva e sarna, transmitidas por cães domésticos e ferais. Ataques de cães também aparecem entre as causas de morte.
Há ainda uma lacuna enorme de conhecimento. Segundo a coautora Mariam Weston-Flores, presidente do Grupo de Trabalho sobre a Jaguatirica, a maior parte dos dados existentes é incidental: vem de armadilhas fotográficas instaladas para estudar outros animais, porque quase ninguém pesquisa especificamente o gato-mourisco.
O que pode ajudar
Como é oportunista e usa ambientes variados, proteger só florestas não basta. A avaliação recomenda conservar habitats-chave, como o Cerrado e a Caatinga, e garantir conectividade entre eles. Entre as medidas práticas estão galinheiros protegidos contra predadores, passagens de fauna sob estradas movimentadas e campanhas de vacinação de cães, que reduzem a transmissão de doenças.
Os autores pedem monitoramento permanente, porque algumas populações já estão em declínio e a espécie pode se aproximar da categoria vulnerável. A lição, segundo Oliveira, é avaliar espécies com dados, e não com a impressão de quem as vê com frequência.
Perguntas frequentes
O gato-mourisco é perigoso para pessoas?
Não. É um felino pequeno e arisco, que evita contato humano. O conflito mais comum é com criações de galinhas.
Quantos gatos-mouriscos existem?
A avaliação da IUCN estima cerca de 13 mil adultos em toda a área de ocorrência, do México à Argentina.
Com informações da avaliação da Lista Vermelha da IUCN e do Grupo de Especialistas em Felinos da IUCN.
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