
Estudo publicado na Nature indica que uma disputa entre camadas profundas do planeta controla parte das mudanças na rotação.
O relógio da vida cotidiana continua marcando 24 horas, mas o planeta não gira com regularidade absoluta. Ao longo de aproximadamente seis décadas, a duração do dia terrestre oscilou em alguns milissegundos, e uma nova análise indica que o principal fator de longo prazo está escondido sob nossos pés: a força gravitacional que conecta o núcleo interno ao manto.
O resultado foi obtido por Huifeng Zhang, doutoranda da Universidade de Alberta, no Canadá, e pelo geofísico Mathieu Dumberry. A dupla comparou modelos de transferência de momento angular entre as camadas profundas da Terra e observações da rotação registradas durante cerca de 60 anos. O estudo foi publicado na revista Nature em 24 de setembro de 2026.
Uma variação invisível no relógio do planeta
Na prática, a diferença é pequena demais para ser percebida por uma pessoa. Mesmo quando o dia fica alguns milissegundos mais curto ou mais longo, o intervalo entre o nascer e o pôr do sol não muda de maneira visível. A importância está em outro lugar: a rotação funciona como uma espécie de sinal indireto sobre regiões que não podem ser observadas diretamente.
A Terra tem um núcleo formado principalmente por ferro, com dimensões aproximadas às de Marte. No centro está o núcleo interno sólido, envolvido por um núcleo externo líquido. Acima deles fica o manto rochoso, camada que se estende até a crosta. Como essas partes não são rigidamente presas umas às outras, podem trocar momento angular e alterar discretamente a velocidade de rotação do planeta.
Segundo o estudo publicado na revista Nature em 24 de setembro de 2026, a interação gravitacional entre o núcleo interno e o manto foi o mecanismo que melhor explicou as variações da duração do dia observadas ao longo das últimas seis décadas.
Três forças disputam o controle da rotação
Os pesquisadores testaram três caminhos possíveis para essa troca de movimento. O primeiro é o acoplamento gravitacional, produzido pela atração entre regiões densas do núcleo interno e do manto. O segundo é o acoplamento eletromagnético, relacionado aos campos magnéticos e à condutividade elétrica nas proximidades do limite entre o núcleo e o manto.
O terceiro envolve o relevo físico da fronteira entre essas camadas. Irregularidades nessa superfície podem criar um acoplamento mecânico, influenciando a forma como o núcleo e o manto transferem movimento. O modelo mais compatível com os dados não apontou uma ação isolada, mas uma competição entre esses efeitos.
A gravidade apareceu como a influência dominante. Os efeitos eletromagnéticos e mecânicos atuaram em sentido contrário, reduzindo a mudança final na velocidade de rotação. Essa compensação ajuda a explicar por que a alteração medida na duração do dia é tão pequena, embora resulte de forças que operam em uma escala planetária.
O que aconteceu entre os anos 1970 e 2021
As observações analisadas indicam que processos ligados ao núcleo modificaram a duração dos dias em alguns milissegundos entre o começo da década de 1970 e 2021. A tendência geral foi de encurtamento dos dias, mas o ritmo não permaneceu constante durante todo o período.
Essa irregularidade é justamente uma das dificuldades do problema. Fenômenos atmosféricos e oceânicos influenciam mudanças em períodos mais curtos. A Lua também interfere na rotação terrestre em escalas de tempo muito longas, por meio das marés. Já as alterações que se acumulam durante décadas eram mais difíceis de atribuir a um mecanismo específico.
O trabalho não elimina todas as incertezas. As propriedades físicas do núcleo, do manto e da fronteira entre os dois ainda são conhecidas de forma incompleta. Por isso, o estudo trata a rotação como uma restrição para os modelos do interior terrestre, e não como uma fotografia definitiva do que ocorre lá embaixo.
Por que isso importa para a Amazônia
Moradores de Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins vivem a mesma variação planetária, mas não precisam ajustar relógios ou rotinas por causa dela. A diferença de milissegundos não altera de modo perceptível o horário do trabalho, o ciclo de rios ou a duração da luz do dia na região.
O interesse amazônico é científico e tecnológico. Sistemas de navegação por satélite, redes de tempo de alta precisão, observações astronômicas e pesquisas sobre a dinâmica terrestre dependem de medições cada vez mais refinadas da rotação. Em uma região extensa, com áreas remotas e grandes distâncias entre centros urbanos, a qualidade desses sistemas ajuda a sustentar comunicações, posicionamento e monitoramento ambiental.
A conexão também reforça um ponto importante: o comportamento do interior da Terra é global. Não há um efeito específico previsto para a floresta ou para as cidades amazônicas, mas os dados produzidos em diferentes partes do planeta contribuem para o mesmo retrato das camadas profundas. A rotação transforma uma região inacessível em um problema que pode ser investigado por medições feitas na superfície.
O próximo teste envolve um ciclo de seis anos
Zhang também investiga se mecanismos semelhantes podem ajudar a explicar um ciclo de aproximadamente seis anos detectado nas variações da duração do dia. A hipótese ainda depende da combinação entre registros de rotação, movimentos do núcleo interno e outros dados geofísicos.
O passo seguinte é aperfeiçoar os modelos e confrontá-los com novas medições. Se a relação entre essas séries for confirmada, oscilações quase imperceptíveis no relógio terrestre poderão oferecer informações mais precisas sobre a interação entre núcleo, manto e campo magnético. A pesquisa segue, portanto, com a promessa de transformar diferenças de milissegundos em pistas sobre milhares de quilômetros de profundidade.
O estudo completo pode ser consultado na publicação da pesquisa na revista Nature.
Com informações de Nature.
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