Ex-presidente americano Theodore Roosevelt desceu rio desconhecido da Amazônia com Rondon em 1914, perdeu três homens e quase não retornou

Ex-presidente americano Theodore Roosevelt desceu rio desconhecido da Amazônia com Rondon em 1914, perdeu três homens e quase não retornou
Ilustração: Revista Amazônia

A Expedição Científica Rondon-Roosevelt saiu de Cáceres com 19 homens, enfrentou mortes e terminou com o rio da Dúvida rebatizado

Quando Theodore Roosevelt entrou no rio da Dúvida, na Amazônia, o curso d’água ainda era associado a um território pouco conhecido e sem nome definitivo para o mundo exterior. O ex-presidente americano participou da descida ao lado de Cândido Rondon em uma expedição que começou com 19 homens e terminou com apenas 16 sobreviventes. Três integrantes morreram durante o percurso, e o próprio Roosevelt quase não conseguiu sair da floresta.

A viagem ocorreu entre dezembro de 1913 e abril de 1914. A comitiva saiu de Cáceres, no rio Paraguai, passou por Tapirapuã e entrou no rio da Dúvida, seguindo até a confluência com o Aripuanã. O caminho que seria registrado como uma operação científica se transformou em uma sucessão de perdas, doenças e dificuldades de navegação. Depois da expedição, o rio passou a ser chamado de Roosevelt, associando para sempre o nome do político americano à paisagem amazônica que quase lhe custou a vida.

De Cáceres ao rio que ainda aparecia como dúvida

A Expedição Científica Rondon-Roosevelt começou fora da calha amazônica mais conhecida. O ponto de partida foi Cáceres, no Mato Grosso, às margens do rio Paraguai. De lá, o grupo avançou até Tapirapuã antes de alcançar o rio da Dúvida. A cronologia importa porque a viagem não foi uma simples passagem de um visitante estrangeiro pela floresta. Ela conectou diferentes ambientes hidrográficos e levou a expedição por um curso cuja descida ainda representava um problema geográfico.

O rio era chamado da Dúvida justamente porque seu percurso e sua ligação com outros rios ainda precisavam ser esclarecidos. A expedição seguiu por suas águas até a confluência com o Aripuanã, um marco que organizou a compreensão daquele trecho da bacia amazônica. O nome não descrevia um fenômeno da água, mas a incerteza existente sobre o curso. Ao final, a viagem deixou uma consequência cartográfica e histórica: o rio da Dúvida passou a ser conhecido como rio Roosevelt.

Uma equipe de 19 homens perde três integrantes

A contagem dos participantes revela a dimensão humana do percurso. Eram 19 homens no início, mas somente 16 voltaram. Três morreram ao longo da expedição. Um deles se afogou, e seu corpo nunca foi encontrado. Em uma viagem marcada pelo deslocamento contínuo em rios e pela dependência de embarcações, a perda de um integrante também significava deixar para trás uma pessoa que conhecia a rotina do grupo e participava diretamente da travessia.

Outro brasileiro morreu depois de ser atingido por um tiro disparado por um companheiro, em um episódio relacionado ao roubo de comida. O caso mostra como os alimentos tinham peso prático na sobrevivência da equipe. A expedição não era uma visita breve a um ponto isolado, mas uma descida que se estendeu por meses. As mortes, somadas às demais perdas registradas no caminho, reduziram o grupo de 19 para 16 homens e transformaram a contagem dos sobreviventes em um dos dados centrais da história.

A infecção na perna quase interrompe a viagem

Roosevelt também foi atingido fisicamente pela expedição. Ele desenvolveu uma infecção grave na perna e ficou à beira da morte. A enfermidade comprometeu sua capacidade de acompanhar o deslocamento e colocou o ex-presidente na mesma condição de vulnerabilidade que os demais integrantes, embora sua presença desse à viagem uma repercussão internacional incomum para uma expedição amazônica.

A doença não ficou restrita a um episódio passageiro. A saúde de Roosevelt nunca se recuperou por completo depois da viagem, e ele morreu menos de cinco anos mais tarde. A relação entre a infecção sofrida no rio e sua morte posterior não deve ser transformada em uma causa direta sem evidência suficiente. O que a cronologia permite afirmar é que ele sobreviveu à descida, carregou consequências duradouras para a saúde e morreu antes de completar cinco anos desde o fim daquela travessia.

O rio muda de nome e a viagem permanece na história

A consequência mais visível da expedição foi a troca do nome do rio. O curso que aparecia como rio da Dúvida passou a ser chamado de rio Roosevelt depois da passagem da equipe. A mudança não apagou a história anterior, mas incorporou ao mapa o nome do participante estrangeiro que chegou ao local com Rondon e saiu dele gravemente debilitado.

A história começou em dezembro de 1913, atravessou Tapirapuã e o rio da Dúvida, alcançou o Aripuanã e terminou em abril de 1914. Sua origem está na própria Expedição Científica Rondon-Roosevelt, uma missão que reuniu deslocamento, reconhecimento territorial e observação científica em uma região amazônica ainda pouco conhecida. O nome do rio permanece como uma marca simples de ler no mapa, mas a sequência que o produziu é mais pesada: 19 homens partiram, 16 retornaram, três morreram e Roosevelt nunca recuperou inteiramente a saúde. Em rios amazônicos, um nome pode sobreviver por séculos, enquanto a memória dos que o atravessaram precisa ser reconstruída a partir das perdas.

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