
Trabalhos apresentados em Santarém buscam criar ferramentas mais acessíveis para diagnosticar doenças relevantes na região.
Diagnósticos mais rápidos e adaptados às doenças que circulam na Amazônia estão no centro de duas pesquisas reconhecidas no I Congresso em Ciências da Saúde na Amazônia, realizado em Santarém, no Pará. Trabalhos desenvolvidos por pesquisadores e estudantes do Instituto Leônidas e Maria Deane, da Fiocruz Amazônia, receberam o primeiro lugar na categoria de apresentação oral e uma menção honrosa na modalidade de pôster.
O congresso ocorreu no Campus Tapajós da Universidade Federal do Oeste do Pará, reunindo estudantes, profissionais, docentes e pesquisadores. A programação discutiu a saúde amazônica a partir de fatores epidemiológicos, sociais, culturais e ambientais, dimensões que influenciam tanto o surgimento das doenças quanto o acesso ao atendimento.
Do laboratório ao diagnóstico de doenças regionais
Os estudos foram apresentados por integrantes do Laboratório de Diagnóstico e Controle de Doenças Infecciosas na Amazônia, conhecido pela sigla DCDIA, e do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Biologia da Interação Patógeno Hospedeiro. A equipe investiga diferentes caminhos para produzir ferramentas diagnósticas com potencial de aplicação em enfermidades tropicais e negligenciadas.
Entre as frentes estão o desenvolvimento de anticorpos IgY, anticorpos recombinantes do tipo scFv e testes moleculares isotérmicos rápidos. Em termos simples, essas estratégias procuram identificar sinais específicos de um agente infeccioso ou de uma resposta do organismo sem depender necessariamente de estruturas laboratoriais complexas.
Isso é especialmente relevante em áreas amazônicas onde a distância entre comunidades, unidades de saúde e laboratórios de referência pode dificultar a confirmação de casos. Um teste mais simples e ágil pode ajudar a orientar a investigação clínica, mas os trabalhos apresentados ainda estão no campo da pesquisa e do desenvolvimento tecnológico. A premiação não significa que os produtos já estejam disponíveis para uso na rede de saúde.
Dois reconhecimentos para uma mesma equipe
O primeiro lugar na apresentação oral foi conquistado por Joyce Melo, autora do estudo “Validação do reconhecimento do antígeno SsCBF por IgY anti-SsCBF através de citometria de fluxo”. O trabalho avaliou, por meio da citometria de fluxo, se o anticorpo produzido conseguia reconhecer o antígeno estudado.

Antígenos são estruturas capazes de ser identificadas pelo sistema imunológico. Já os anticorpos são proteínas produzidas ou selecionadas para se ligar a alvos específicos. No laboratório, verificar essa ligação é uma etapa importante para saber se uma molécula pode contribuir futuramente para um método de detecção.
Pelo resultado, Joyce recebeu o troféu Prêmio Profª Dra. Katrine Rabelo, concedido pela excelência científica, além de uma premiação de 700 reais. A pesquisadora atribuiu o reconhecimento ao trabalho coletivo do DCDIA, destacando as discussões, orientações e trocas realizadas durante o desenvolvimento do estudo.
A menção honrosa foi concedida a Eliza Duarte, do PPGBIO-Interação, pela pesquisa “Seleção de anticorpos scFv contra a proteína NS1 do vírus da dengue tipo 1, DENV-1, para aplicação diagnóstica”. O estudo trabalha com fragmentos de anticorpos recombinantes direcionados à proteína NS1, um dos alvos investigados em estratégias de identificação da dengue.
Mais de 250 trabalhos foram apresentados
Segundo o relato da equipe, o congresso recebeu mais de 250 trabalhos, e a pesquisa de Eliza ficou entre as dez primeiras apresentações. A estudante avaliou a participação como uma oportunidade de apresentar resultados em desenvolvimento e de discutir os desafios próprios da produção científica na Amazônia.
Segundo o ILMD Fiocruz Amazônia, os trabalhos receberam o primeiro lugar e a menção honrosa no I Congresso em Ciências da Saúde na Amazônia, realizado em setembro de 2026, em Santarém, no Pará.
O reconhecimento também revela uma característica importante da pesquisa regional: o esforço para desenvolver soluções voltadas a problemas que nem sempre ocupam o centro da agenda científica nacional. Doenças tropicais e negligenciadas podem afetar populações em diferentes estados amazônicos, mas as condições de atendimento, transporte de amostras e disponibilidade de equipamentos variam bastante entre capitais, cidades médias e comunidades distantes.

Por que a tecnologia precisa considerar a Amazônia
Um teste criado para a realidade amazônica precisa levar em conta mais do que a capacidade de detectar um agente infeccioso. Também entram nessa equação o tempo de deslocamento das amostras, a conservação dos materiais, a infraestrutura elétrica, a disponibilidade de profissionais treinados e a possibilidade de realizar o procedimento próximo do paciente.
Os testes moleculares isotérmicos mencionados pela equipe são investigados justamente por utilizarem estratégias de amplificação que podem ser executadas com temperaturas mais estáveis e equipamentos potencialmente mais simples do que os empregados em algumas plataformas laboratoriais convencionais. Ainda assim, a utilidade de qualquer teste depende de validações, comparação com métodos de referência, avaliação de sensibilidade e especificidade e análise das condições reais de uso.
O mesmo cuidado vale para os anticorpos IgY e scFv. A identificação de uma molécula que reconhece determinado alvo é uma etapa relevante, mas não encerra o caminho até um produto diagnóstico. São necessárias novas fases de pesquisa para verificar desempenho, reprodutibilidade, segurança, custo e funcionamento com amostras clínicas.
Ciência regional e formação de novos pesquisadores
Para Luis André Morais Mariúba, pesquisador do DCDIA, o resultado demonstra a qualidade da produção científica feita na região e reforça a necessidade de investir na formação de novos pesquisadores. Ele afirmou que a participação no congresso e as premiações representam um reconhecimento ao trabalho das estudantes e de toda a equipe.
“Mais do que a premiação, esse reconhecimento demonstra a qualidade da ciência produzida na região e reforça a importância de investir na formação de novos pesquisadores e em soluções tecnológicas voltadas aos desafios de saúde da população amazônica”, afirmou Luis André Morais Mariúba.
A Fiocruz Amazônia tem sede em Manaus, mas os problemas abordados pelas pesquisas atravessam os nove estados da Amazônia Legal e alcançam diferentes redes de saúde. Por isso, a aproximação entre instituições de pesquisa, universidades e serviços locais pode ser decisiva para transformar resultados de laboratório em ferramentas úteis para profissionais e pacientes.
Os próximos passos dos estudos envolvem a continuidade das avaliações laboratoriais e o avanço das etapas necessárias para verificar se as soluções podem ser aplicadas no diagnóstico de doenças infecciosas em condições reais.
Com informações do Instituto Leônidas e Maria Deane, Fiocruz Amazônia.
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