
Novo centro de pesquisa reúne Bremen e Oldenburg para estudar uma interface ainda pouco conhecida do planeta.
Uma parte essencial do funcionamento do planeta permanece escondida sob quilômetros de água e sedimentos. Para investigar essa fronteira, pesquisadores das universidades de Bremen e Oldenburg, na Alemanha, formaram um novo Cluster de Excelência dedicado ao fundo do oceano, aprovado em 2025 na competição da Estratégia de Excelência alemã. O grupo quer medir como materiais e energia circulam entre a coluna d’água e o leito marinho, além de entender o impacto dessas trocas no clima, no carbono e na vida oceânica.
A pesquisa não trata o fundo do mar como uma superfície passiva, semelhante a um piso onde os materiais simplesmente se acumulam. A proposta é observá-lo como uma interface dinâmica, isto é, uma zona de contato na qual ocorrem transferências químicas, físicas, geológicas e biológicas capazes de influenciar o sistema terrestre.
O fundo do mar como uma fronteira ativa
O novo projeto é coordenado pelo professor Heiko Pälike, da Universidade de Bremen, com Gesine Mollenhauer como co porta voz. A equipe pretende responder a uma pergunta central: quanto material e quanta energia passam da água para o fundo oceânico, e no sentido contrário?
Essa transferência envolve partículas que descem pela água, sedimentos que se acumulam, organismos que transformam matéria e reações químicas que alteram os compostos armazenados no leito marinho. Em conjunto, esses processos podem modificar a forma como o oceano absorve, transporta ou devolve elementos importantes ao ambiente.
Segundo a Universidade de Bremen, o fundo do oceano exerce funções relevantes no sistema terrestre, embora apenas uma pequena parte dessa área tenha sido explorada diretamente pela ciência.
Por que os sedimentos interessam ao estudo do clima
Os sedimentos funcionam, em certa medida, como um arquivo natural. Camadas depositadas ao longo do tempo preservam sinais de mudanças na temperatura, na composição química da água, na circulação oceânica e na atividade dos organismos. Ao analisar esse material, os pesquisadores podem reconstruir condições passadas e testar cenários para um planeta mais quente.
O objetivo não é apenas descrever o que está no fundo do oceano. A equipe quer quantificar os processos, ou seja, transformar observações em medidas que possam ser incorporadas a modelos do sistema climático. Hoje, o conhecimento ainda é insuficiente para incluir plenamente o fundo do mar nos balanços globais de matéria.
Essa lacuna é importante porque o oceano participa do ciclo global do carbono. Esse ciclo descreve o movimento do carbono entre atmosfera, água, organismos vivos, rochas e sedimentos. Quando uma parcela desse elemento é armazenada no fundo oceânico, o ritmo de sua circulação pode influenciar a evolução do clima ao longo do tempo.
Duas universidades, uma rede de tecnologias
A parceria entre Bremen e Oldenburg foi escolhida porque o problema exige competências diferentes. Geólogos estudam a formação e a composição dos sedimentos. Químicos analisam os elementos presentes nas amostras. Biólogos investigam os organismos e a biodiversidade. Físicos observam fluxos, circulação e transporte de partículas.

Esse trabalho também depende de tecnologias capazes de observar regiões profundas, coletar amostras sem destruir sua estrutura e detectar alterações químicas em concentrações muito baixas. Os dados serão combinados com modelos numéricos, ferramentas matemáticas que simulam processos e permitem comparar diferentes condições ambientais.
Entre os recursos associados à pesquisa estão veículos de exploração subaquática e expedições oceanográficas. Imagens divulgadas pela Universidade de Bremen mostram um robô de mergulho do MARUM, centro de ciências ambientais marinhas da instituição, registrando caranguejos da espécie Sternostylus rogeri sobre um coral de bambu, a 926 metros de profundidade, no Pacífico.
Biodiversidade também está no centro da investigação
A biodiversidade não será tratada apenas como uma lista de espécies encontradas em áreas profundas. O grupo pretende avaliar o papel dos organismos nas trocas que ocorrem entre a água e o fundo do mar. Microrganismos, animais e comunidades associadas a sedimentos podem participar da decomposição, da transformação de nutrientes e do armazenamento de matéria.
Esse ponto ajuda a explicar por que o projeto combina observação da vida marinha com estudos sobre clima e geologia. Um organismo pode alterar o sedimento ao escavá-lo. Uma reação química pode mudar a disponibilidade de nutrientes. Uma mudança na temperatura pode reorganizar comunidades inteiras. Os processos não acontecem isoladamente.
A expectativa dos pesquisadores é produzir informações que possam ser usadas por gestores públicos e pela sociedade na avaliação de cenários relacionados ao aquecimento global. O trabalho não oferece uma previsão única para o futuro, mas pretende melhorar a base científica usada para construir essas projeções.
O que isso tem a ver com a Amazônia
A pesquisa é realizada na Alemanha e em áreas oceânicas estudadas por expedições internacionais, mas o tema alcança diretamente a Amazônia por causa da conexão entre clima, oceanos e circulação de matéria. Os estados da região dependem de um sistema climático integrado, no qual alterações no oceano podem influenciar padrões de chuva, temperatura e disponibilidade de água, ainda que os efeitos variem conforme o local e o período.
Para o litoral amazônico, especialmente no Amapá e no Pará, a relação também passa pelo encontro entre rios, estuários e mar. O transporte de sedimentos e matéria orgânica pelos grandes rios leva componentes da bacia amazônica ao oceano. Compreender o destino desse material ajuda a ampliar o conhecimento sobre a conexão entre a floresta, os rios, a costa e o ambiente marinho.
Isso não significa que o novo cluster esteja estudando diretamente o rio Amazonas ou os demais estados amazônicos. A importância para a região está no avanço de modelos capazes de representar melhor as conexões planetárias que influenciam o clima local, do Acre ao Tocantins, passando por Amazonas, Roraima, Rondônia e Mato Grosso.
O próximo passo é medir o que ainda é pouco conhecido
O projeto representa a aprovação de um dos dois Clusters de Excelência da Universidade de Bremen. A iniciativa pretende consolidar uma rede regional de pesquisa marinha e ampliar a cooperação entre as universidades de Bremen e Oldenburg.
As próximas etapas envolvem observações, coleta de sedimentos, análises laboratoriais e aprimoramento de modelos numéricos. A descrição institucional do projeto está disponível na página The Ocean Floor, do MARUM, e o contexto da seleção pode ser consultado na página sobre a Estratégia de Excelência da Universidade de Bremen.
Com informações de Universidade de Bremen.
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