
Pesquisa financiada na Alemanha reunirá dados de 25 experimentos para descobrir quando a diversidade ajuda a manter florestas produtivas.
Uma floresta com muitas espécies pode reagir de maneira diferente a uma seca do que uma plantação formada por apenas uma árvore dominante. É essa diferença, ainda pouco medida de forma experimental, que uma nova pesquisa da Universidade de Freiburg, na Alemanha, pretende investigar durante três anos, a partir de dados coletados em 25 experimentos florestais espalhados pelo mundo.
O projeto recebeu financiamento da Fundação Alemã de Pesquisa, conhecida pela sigla DFG, e será conduzido pelo pesquisador Florian Schnabel, da área de Silvicultura da universidade. Batizado de TreeStability, o estudo quer descobrir se a diversidade de espécies ajuda as florestas a manter o crescimento e outras funções mesmo quando enfrentam secas, calor e demais extremos associados às mudanças climáticas.
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O ponto central não é apenas saber se uma floresta diversa cresce mais. A equipe quer verificar se ela cresce de forma mais regular ao longo do tempo. Essa diferença é importante porque uma queda brusca na produtividade pode afetar a produção de madeira, o armazenamento de carbono e a capacidade de uma área restaurada continuar funcionando como ecossistema.
Segundo a Universidade de Freiburg, o projeto TreeStability foi anunciado em Freiburg, em 19 de março de 2026. A iniciativa terá duração de três anos e incluirá uma vaga para pesquisador ou pesquisadora de doutorado.
A hipótese será testada com informações anuais sobre o diâmetro e a altura das árvores. Os dados vêm da TreeDivNet, rede considerada pela universidade a maior estrutura mundial de experimentos sobre diversidade de árvores. O conjunto reúne áreas de florestas tropicais, subtropicais, temperadas e mediterrâneas.
Por que comparar monoculturas e misturas
Em uma floresta natural, muitas variáveis mudam ao mesmo tempo. O tipo de solo, a quantidade de água, a idade das árvores e o histórico de perturbações podem influenciar o resultado. Isso torna difícil afirmar se uma determinada resposta ocorreu por causa da diversidade ou de outro fator.
Os experimentos usados pelo TreeStability foram planejados para reduzir esse problema. Neles, os pesquisadores podem comparar parcelas com uma única espécie a outras com combinações progressivamente mais diversas, sob condições ambientais mais controladas. A comparação permite investigar com maior segurança se o número e a combinação de espécies têm relação causal com a estabilidade do funcionamento florestal.
Na prática, a pesquisa não vai tratar diversidade como uma solução automática para todos os problemas. A intenção é identificar em quais situações a mistura de árvores funciona, quais características tornam uma espécie mais importante para a resistência e onde o efeito pode ser menor.
Quatro caminhos para explicar a estabilidade
A investigação foi organizada em quatro frentes. A primeira vai observar as relações entre diversidade e estabilidade em diferentes níveis, desde árvores individuais e espécies até a comunidade florestal inteira. Assim, será possível avaliar se uma floresta permanece estável porque cada espécie responde de um jeito ou porque o conjunto compensa melhor os impactos.

A segunda frente buscará características funcionais ligadas à tolerância à seca. Essas características podem ajudar a explicar por que determinadas combinações de espécies suportam melhor períodos de pouca água, enquanto outras perdem crescimento com mais rapidez.
A terceira etapa terá como base o experimento de Sardinilla, no Panamá, apontado como o mais antigo experimento tropical de diversidade de árvores. A equipe quer testar, pela primeira vez, se a relação entre diversidade e estabilidade se torna mais forte à medida que as florestas envelhecem. Schnabel coordena esse experimento panamenho.
Por fim, os pesquisadores vão analisar como os efeitos da diversidade mudam ao longo de grandes gradientes ecológicos e em condições experimentais com diferentes níveis de água e nutrientes. Essa parte poderá mostrar se uma mistura de espécies é igualmente útil em ambientes com mais recursos e em locais submetidos a maior estresse.
O que o resultado pode significar para a Amazônia
A Amazônia não aparece como uma área específica de coleta descrita no projeto, mas a pergunta tem relação direta com os desafios enfrentados por florestas tropicais e iniciativas de restauração na região. Em estados como Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, decisões sobre recuperação de áreas degradadas precisam considerar não apenas o plantio inicial, mas também a capacidade de a floresta continuar crescendo sob condições climáticas mais instáveis.
O estudo pode ajudar a organizar melhor essa discussão ao separar duas questões frequentemente tratadas como se fossem iguais: plantar mais árvores e plantar uma combinação de espécies capaz de sustentar o funcionamento do ecossistema. Os resultados, porém, não devem ser aplicados automaticamente a todos os ambientes amazônicos. As respostas podem variar conforme o solo, a idade da floresta, a disponibilidade de água e as características das espécies usadas em cada projeto.
Essa cautela é especialmente importante porque florestas plantadas ocupam papel crescente em programas de restauração no mundo. A Universidade de Freiburg destaca que ainda não há segurança suficiente para afirmar quando essas áreas manterão suas funções à medida que os extremos climáticos se intensificarem.
Uma rede internacional para acompanhar o tempo
O projeto será desenvolvido com colaborações já estabelecidas na TreeDivNet, incluindo instituições francesas como o CIRAD, em Montpellier, e o INRAE, em Avignon. Na própria Universidade de Freiburg, Michael Scherer-Lorenzen, da área de Geobotânica, participará das atividades de síntese como um dos coordenadores da rede.
Os resultados também serão incorporados ao cluster de excelência Future Forests. O programa financiará ainda um projeto de incubação para estudar como as interações entre árvores vizinhas influenciam a relação entre diversidade e estabilidade.
Ao acompanhar árvores ao longo do tempo, a pesquisa pretende transformar uma hipótese de manejo em evidência comparável entre biomas: florestas mais diversas são realmente mais estáveis ou apenas parecem mais produtivas em determinados momentos? A resposta deverá orientar as próximas etapas do TreeStability e as discussões sobre restauração florestal nos anos seguintes.
Com informações de Universidade de Freiburg.
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