
Depósitos de 21,9 milhões de anos ajudaram cientistas a reconstruir uma paisagem desaparecida sob a rocha vulcânica.
Durante milhões de anos, rios escavaram encostas, abriram vales e redesenharam uma parte dos Andes no norte do Chile. Então, há 21,9 milhões de anos, uma erupção cobriu tudo com uma espessa manta de rocha vulcânica. O terreno desapareceu da superfície, mas suas formas podem ter permanecido registradas no relevo do depósito.
O episódio ocorreu na caldeira Lauca, uma grande depressão vulcânica formada durante uma erupção de proporções excepcionais. A área atingida pelo ignimbrito, material composto por cinzas, fragmentos de rocha e gases quentes, foi seis vezes maior que a capital chilena, Santiago, e quase três vezes superior à Grande Londres. Em alguns pontos, a camada chegou a um quilômetro de profundidade.
Uma paisagem congelada sob a rocha
A comparação com Pompeia ajuda a visualizar o fenômeno, mas muda completamente de escala. Na cidade romana, a erupção do Vesúvio preservou ruas, casas e objetos ligados à vida humana. No caso da Lauca, o que ficou soterrado foi um território inteiro, com os sinais deixados pela erosão e pelo curso dos rios antes da catástrofe vulcânica.
Os pesquisadores não conseguem escavar até a antiga superfície. Em vez disso, usaram a geometria do manto vulcânico e modelos matemáticos baseados no modo como os rios transformam cadeias montanhosas. Foram simuladas centenas de paisagens antigas para descobrir quais poderiam ter existido antes da deposição do ignimbrito.
Segundo a University College London, o estudo publicado em 11 de setembro de 2026 na revista Science Advances concluiu que somente terrenos de relevo relativamente baixo poderiam ter sido cobertos daquela maneira. A paisagem anterior à erupção se parecia mais com contrafortes suaves do que com uma cordilheira de vertentes muito inclinadas.
O relevo indica quanto os Andes subiam
Essa conclusão funciona como uma espécie de registro indireto da velocidade de crescimento das montanhas. Se o terreno já fosse muito íngreme, os depósitos vulcânicos não teriam conseguido reproduzir a cobertura observada. A forma preservada sugere que as rochas eram elevadas gradualmente enquanto os rios ainda tinham tempo para desgastar e suavizar as encostas.
O cálculo aponta para uma elevação de aproximadamente 0,26 quilômetro a cada milhão de anos. Convertido para uma escala humana, isso equivale a cerca de 2,5 centímetros por século, um ritmo lento quando comparado ao de algumas áreas de montanhas jovens e ativas.
A estimativa reforça a hipótese de que uma parte importante dos Andes se formou de maneira progressiva ao longo de dezenas de milhões de anos. Existe, porém, uma discussão antiga entre geólogos: uma interpretação defende crescimento lento e constante ao longo de 40 ou 50 milhões de anos; outra propõe uma elevação muito discreta seguida de um crescimento acelerado nos últimos 6 a 10 milhões de anos.
O que a técnica acrescenta à história da cordilheira
Para medir a formação de montanhas, os cientistas costumam recorrer a sinais químicos preservados nos minerais. Esses registros funcionam como relógios capazes de indicar momentos específicos, como o resfriamento de uma rocha enquanto ela sobe pela crosta terrestre. O método aplicado no depósito da Lauca oferece outra perspectiva, porque permite estimar a elevação acumulada durante um intervalo muito mais amplo.
A equipe comparou a reconstrução do relevo com pesquisas anteriores baseadas em minerais. Esses trabalhos haviam identificado mudanças de temperatura compatíveis com o resfriamento gradual das rochas ao longo dos últimos 50 milhões de anos. A concordância entre as abordagens dá mais sustentação ao cenário de crescimento lento, embora não elimine o debate sobre toda a história dos Andes.
O estudo foi liderado por Byron Adams, da área de Ciências da Terra da University College London, com participação de Frances Cooper. Para os pesquisadores, grandes depósitos vulcânicos podem funcionar como arquivos geológicos: ao sepultar uma paisagem de uma só vez, eles interrompem temporariamente a ação da erosão e conservam informações que normalmente seriam apagadas ou deformadas.
Por que essa descoberta interessa à Amazônia
A história reconstruída no norte do Chile não fica isolada da América do Sul. A Cordilheira dos Andes influencia o clima regional e global, e sua evolução ajuda a explicar mudanças antigas na circulação atmosférica, na distribuição de chuvas e no funcionamento das áreas conectadas à bacia amazônica.
Para os estados da Amazônia brasileira, esse vínculo aparece principalmente na relação entre a cordilheira, os rios e o clima continental. Saber se os Andes subiram devagar ou em pulsos mais recentes ajuda a formular cenários sobre como o relevo alterou a circulação de umidade e os ambientes sul-americanos ao longo do tempo. O estudo não reconstitui a Amazônia nem mede seus rios, mas amplia a base geológica usada para compreender esse sistema integrado.
A abordagem também pode ser aplicada a outros lugares onde erupções antigas cobriram grandes extensões. Em vez de procurar apenas fósseis ou minerais, os cientistas podem analisar a forma de um depósito vulcânico e reconstruir, por modelagem, o terreno que existia antes dele.
Um arquivo de 21,9 milhões de anos
A descoberta não significa que toda a paisagem original esteja intacta. A erosão continuou atuando sobre os depósitos desde a erupção, e os modelos dependem de cenários matemáticos sobre a evolução dos rios e das montanhas. Por isso, o relevo enterrado é uma inferência científica, não uma superfície observada diretamente.
Mesmo com essa limitação, a camada de ignimbrito preservou uma janela rara para o período anterior à formação do relevo atual. A publicação na Science Advances transforma uma antiga catástrofe vulcânica em uma ferramenta para investigar a cronologia dos Andes e os processos que moldaram a paisagem sul-americana.
Os próximos estudos devem testar a mesma estratégia em outros depósitos vulcânicos, ampliando a comparação entre cordilheiras e regiões soterradas em diferentes períodos geológicos.
Com informações de University College London.
O artigo científico está disponível no estudo publicado na revista Science Advances.
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