
Pesquisadores na Suíça criaram um feixe frio de muônio para verificar se a matéria exótica cai como a matéria comum.
Imagine um átomo lançado para cima, em linha quase reta, com apenas alguns milionésimos de segundo para revelar como a gravidade funciona. É esse o desafio preparado por pesquisadores da ETH Zurich e do Paul Scherrer Institute, na Suíça, que produziram um feixe intenso e frio de muônio para testar se um tipo de matéria formado por partículas de segunda geração cai da mesma maneira que a matéria comum.
O experimento não pretende alterar a gravidade nem criar uma nova partícula. A proposta é observar com precisão o movimento do muônio, um átomo exótico e eletricamente neutro, sob a ação do campo gravitacional da Terra. O resultado poderá confirmar um princípio associado à teoria da gravitação de Albert Einstein ou indicar que existe uma interação ainda desconhecida.
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O muônio nasce quando um antimuon, a antipartícula do múon, se combina com um elétron. O múon é semelhante ao elétron, mas pertence à segunda geração de partículas e tem massa maior. Já o próton, o nêutron e o elétron que formam a matéria ao nosso redor são classificados como partículas da primeira geração.
Essa diferença é importante porque o modelo padrão da física descreve três gerações de matéria, mas ainda não explica por que elas existem nem por que são três. Medir como uma estrutura baseada em um múon responde à gravidade oferece uma maneira de investigar se as leis conhecidas valem igualmente para partículas mais pesadas.
Segundo a ETH Zurich, o muônio é formado artificialmente no acelerador de partículas do Paul Scherrer Institute, em Villigen, e tem vida média de apenas 2,2 microssegundos. Esse intervalo é tão curto que o átomo precisa ser produzido, organizado e medido antes de desaparecer pelo decaimento do múon.
O frio extremo virou uma espécie de canhão atômico
O avanço anunciado em 15 de setembro de 2026 veio de uma mudança na forma de preparar o feixe. Em experimentos anteriores, os átomos de muônio se espalhavam em várias direções e viajavam com velocidades diferentes. Esse comportamento dificultava a medição do efeito gravitacional, que é muito fraco diante de forças eletromagnéticas e de outras fontes de interferência.
Para resolver o problema, a equipe usou hélio superfluido resfriado a uma temperatura próxima de menos 273 graus Celsius, o chamado zero absoluto. Nesse estado, o hélio se comporta como um fluido quântico e praticamente não tolera impurezas.
Antimúons produzidos no acelerador são direcionados para uma camada fina desse hélio. Ao encontrar elétrons livres no material, eles formam átomos de muônio. A combinação é expulsa do líquido e recebe um impulso ao alcançar a superfície. O efeito transforma o potencial químico do hélio em movimento, lançando o muônio verticalmente.
O resultado é um feixe chamado supertérmico, no qual os átomos se deslocam em velocidades semelhantes e quase paralelos entre si. Essa organização é decisiva: quanto menos disperso o feixe, maior a chance de acompanhar sua trajetória antes que os múons se desintegrem.
Uma sombra no padrão de interferência
A próxima etapa será construir um interferômetro. O equipamento aproveita o comportamento ondulatório dos átomos para produzir um padrão de interferência. A gravidade da Terra deve causar uma pequena alteração nesse desenho, e a equipe tentará medir essa mudança para calcular como o muônio responde ao campo gravitacional.
Segundo a ETH Zurich, a equipe pretende testar o método com o novo feixe ainda em 2026. Se essa fase funcionar, o experimento gravitacional completo deverá ocorrer em dois ou três anos. A pesquisa é apoiada pelo National Centre of Competence in Research Muoniverse.
O princípio investigado é conhecido como universalidade da queda livre. Na prática, ele afirma que corpos submetidos ao mesmo campo gravitacional caem com a mesma aceleração, independentemente de sua composição. A ideia remonta aos estudos associados a Galileu Galilei e Isaac Newton e, na formulação moderna, relaciona a massa gravitacional à massa inercial.
Esse princípio já foi testado com matéria comum e com antimatéria de primeira geração. O muônio levará a verificação para um cenário diferente, envolvendo um componente ligado à segunda geração de partículas. A pergunta central é simples, mas profunda: partículas mais pesadas obedecem exatamente à mesma regra?
Se houver diferença, a física terá uma nova pista
Uma discrepância não significaria automaticamente que a teoria de Einstein deixou de funcionar. Seria necessário repetir as medições, eliminar possíveis fontes de erro e comparar o resultado com outras experiências. Ainda assim, uma diferença mensurável poderia apontar para uma nova interação fundamental.
A física reconhece quatro interações fundamentais: gravidade, eletromagnetismo, força forte e força fraca. A chamada quinta força aparece como hipótese em diferentes estudos, mas nunca foi comprovada. Por isso, o objetivo declarado da equipe não é encontrar essa força, e sim medir pela primeira vez se o princípio da equivalência também vale para um átomo de segunda geração.
O mesmo feixe poderá ser usado em experiências de espectroscopia a laser. Essas medições podem melhorar o conhecimento sobre a massa do múon e sobre constantes fundamentais da física, ampliando o valor do equipamento para além do teste gravitacional.
Por que a experiência interessa a quem vive na Amazônia
O laboratório está na Suíça, mas a pergunta alcança qualquer lugar onde a gravidade seja usada como referência. Na Amazônia, isso inclui sistemas de posicionamento por satélite, monitoramento do relevo, modelagem de rios, previsão meteorológica e observação de mudanças na superfície terrestre. Esses recursos dependem de modelos físicos precisos para transformar sinais e medições em mapas, trajetórias e previsões.
Não há, no material divulgado, uma aplicação imediata do feixe de muônio para medir rios ou florestas nos estados da região. A conexão é outra: experimentos básicos como esse testam os princípios que sustentam tecnologias usadas também no Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso. Se uma nova interação for confirmada, os efeitos iniciais deverão aparecer na física teórica e em experimentos de alta precisão, antes de chegar a aplicações práticas.
O estudo que descreve a produção do feixe foi publicado em 14 de setembro de 2026 na revista Nature Physics. A referência completa está disponível no artigo científico sobre o feixe de muônio. Informações sobre a colaboração internacional podem ser consultadas no projeto Muoniverse.
Respostas rápidas sobre o experimento
O muônio é um átomo comum?
Não. Ele é uma estrutura exótica formada por um antimuon positivo e um elétron negativo. Como o conjunto é neutro, os pesquisadores conseguem estudar melhor a ação da gravidade sem que campos elétricos desviem fortemente sua trajetória.
Quando a gravidade sobre o muônio será medida?
A equipe espera testar o método com o feixe em 2026. Caso a demonstração seja bem-sucedida, a medição gravitacional principal deverá ser realizada em dois ou três anos.
Os próximos passos são concluir o interferômetro, validar o padrão de interferência e então procurar o pequeno deslocamento produzido pela gravidade terrestre.
Com informações de ETH Zurich.
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