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Estudo calcula que moluscos e crustáceos poderiam nutrir bilhões e reorientar a gestão dos mares

Estudo calcula que moluscos e crustáceos poderiam nutrir bilhões e reorientar a gestão dos mares
Foto: Divulgação

Pesquisa na revista Nature estima o valor de 30 nutrientes em mais de 50 mil espécies aquáticas.

Um alimento pode ser subestimado quando sua importância é medida apenas pelo peso produzido. É o que ocorre com muitos moluscos, crustáceos e outros invertebrados aquáticos, segundo um estudo internacional publicado em 3 de setembro de 2026 na revista Nature. A pesquisa calculou o potencial nutricional de mais de 50 mil espécies e concluiu que esses animais podem contribuir para combater deficiências de vitaminas e minerais sem que a solução seja simplesmente aumentar a captura.

O trabalho reuniu pesquisadores da Lancaster University, da King Abdullah University of Science and Technology e de outras instituições. A equipe analisou 30 nutrientes essenciais à saúde humana, entre eles vitamina B12, ferro, iodo, zinco, cobre, selênio e ácidos graxos ômega 3.

O valor aparece quando a conta muda

Na avaliação tradicional dos sistemas alimentares aquáticos, o principal indicador costuma ser a quantidade de comida obtida. Essa métrica favorece a produção em toneladas, mas não mostra necessariamente quais alimentos entregam mais nutrientes por unidade de peso.

Os pesquisadores propõem uma espécie de mudança de lente. Em vez de perguntar somente quanto pescado ou fruto do mar chega ao mercado, governos e empresas também deveriam medir quais nutrientes esse alimento fornece e para quais populações ele pode ser mais importante.

Segundo a Lancaster University, a produção global atual de invertebrados aquáticos contém vitamina B12 e selênio em quantidade equivalente às necessidades anuais de mais de 5 bilhões de pessoas. O mesmo volume também reúne iodo, zinco, cobre e ômega 3 suficientes para atender, em escala equivalente, mais de 1 bilhão de pessoas por ano.

Mais de 50 mil espécies entraram na estimativa

O número não significa que toda essa produção esteja disponível para distribuição mundial, nem que uma pessoa possa obter todos os nutrientes apenas comendo esses animais. A estimativa representa a capacidade nutricional agregada do que é produzido atualmente. Ela serve como base para comparar espécies, regiões e formas de manejo.

Para chegar a esse resultado, a equipe compilou informações nutricionais de centenas de espécies. Depois, desenvolveu modelos capazes de estimar a composição de mais de 50 mil invertebrados potencialmente comestíveis. A maior parte dessas espécies nunca havia sido avaliada sob esse ponto de vista.

Essa lacuna é relevante porque os invertebrados aquáticos incluem grupos com características bastante diferentes. Bivalves, como ostras, mexilhões e vieiras, apresentaram as maiores concentrações de ferro, iodo, zinco e vitamina B12. O estudo também identificou ouriços-do-mar como fontes particularmente expressivas de selênio e magnésio.

O processamento também altera o resultado

A forma como o alimento é preparado pode modificar a concentração de nutrientes. Em geral, 100 gramas de invertebrados secos apresentam mais minerais do que a mesma quantidade de tecido cru, porque a retirada de água concentra os componentes restantes.

Essa característica abre duas possibilidades. Produtos secos podem facilitar o armazenamento e o transporte, especialmente em locais onde a refrigeração é limitada. Ao mesmo tempo, o processamento precisa ser avaliado com cuidado, porque calor, descarte de partes comestíveis e outras etapas podem reduzir ou preservar nutrientes de maneiras diferentes.

Na aquicultura, o contraste entre volume e qualidade nutricional também chamou atenção. Os invertebrados representam cerca de um terço da produção por peso, mas respondem por mais da metade do fornecimento de nutrientes como iodo, vitamina B12, vitamina C e ferro.

A pesquisa não recomenda aumentar a captura

O principal alerta do estudo está no uso que governos e empresas farão dessas informações. Os autores não defendem a retirada em larga escala de invertebrados dos rios, lagos, estuários ou oceanos. Uma expansão sem controle poderia pressionar populações naturais, destruir habitats e comprometer justamente a fonte de alimento que se pretende proteger.

A proposta é incorporar a nutrição às decisões de conservação, pesca e aquicultura. Hoje, uma espécie pode ser avaliada por seu preço, pelo volume desembarcado ou pelo papel econômico para uma comunidade. Com os novos dados, também será possível perguntar quais vitaminas e minerais ela oferece, quem consome esse alimento e se a produção pode ser mantida ao longo do tempo.

Por que isso importa para a Amazônia

Na Amazônia, essa abordagem pode ajudar a organizar debates sobre cadeias de pescado, manejo comunitário, criação de organismos aquáticos e abastecimento de populações ribeirinhas. O estudo não apresenta um diagnóstico específico dos rios amazônicos, mas fornece uma ferramenta que pode ser aplicada a espécies de interesse regional quando existirem dados confiáveis sobre composição nutricional, disponibilidade e pressão de captura.

Essa distinção é importante. O fato de uma espécie ser nutritiva não autoriza, por si só, o aumento da exploração. Para os estados amazônicos, qualquer política desse tipo precisaria combinar segurança alimentar, conhecimento das comunidades, proteção dos ambientes aquáticos, controle sanitário e acompanhamento dos estoques.

O ganho mais imediato é ampliar o que se considera valor em um alimento aquático. Uma espécie pouco expressiva em toneladas pode ser relevante por fornecer um nutriente escasso na dieta de determinada população. Essa informação pode orientar programas de alimentação, pesquisas de aquicultura e prioridades de conservação.

Uma base para decisões futuras

A pesquisa foi liderada por Jessica Zamborain-Mason, atualmente professora assistente na King Abdullah University of Science and Technology. Ela esteve vinculada à Lancaster University como bolsista Marie Curie e mantém uma posição de pesquisadora visitante na instituição.

Para James Robinson, da Lancaster University, bivalves, crustáceos e gastrópodes são pescados e cultivados em várias partes do mundo, mas ainda recebem pouca atenção como alimentos saudáveis. O pesquisador afirma que a nova base de previsões pode apoiar trabalhos sobre alimentos aquáticos, pesca e segurança alimentar global.

O próximo passo é transformar as estimativas em decisões mais precisas, com validação dos dados em espécies, regiões e sistemas de produção específicos. A publicação do estudo ocorreu em 3 de setembro de 2026, e o conjunto de resultados já está disponível na íntegra no artigo publicado pela revista Nature.

Com informações de Lancaster University.

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