Onças-pintadas mantêm alta densidade em várzea amazônica, mas 17 anos de monitoramento revelam queda de 77% nas fêmeas

Onças-pintadas mantêm alta densidade em várzea amazônica, mas 17 anos de monitoramento revelam queda de 77% nas fêmeas
Ilustração: Revista Amazônia

Estudo na Reserva Mamirauá mostra que a população total não diminuiu, mas a entrada de machos pode esconder mudanças na reprodução.

Uma população numerosa que mudou por dentro

Na floresta inundável da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, as onças-pintadas continuam entre as mais numerosas já registradas para a espécie. A aparência geral da população, porém, esconde uma transformação importante. Entre 2005 e 2022, a densidade de fêmeas caiu 77%, enquanto a densidade de machos aumentou no mesmo período. O número total de indivíduos não apresentou redução evidente, mas a composição do grupo mudou de maneira significativa.

O resultado foi obtido a partir de 17 anos de monitoramento com armadilhas fotográficas na reserva, uma área protegida com mais de 1 milhão de hectares. Pesquisadores do Instituto Mamirauá e da Panthera analisaram os registros para acompanhar não apenas quantos animais ocupavam a área, mas também como a população se distribuía entre machos e fêmeas. O estudo foi divulgado em 21 de julho de 2026 e publicado no Journal of Applied Ecology. A principal mensagem é que uma contagem geral aparentemente estável pode deixar de mostrar alterações decisivas na capacidade de renovação de uma população de grandes felinos.

O papel da várzea para as onças

A várzea amazônica é formada por florestas que passam por ciclos de inundação e vazante. Esse ambiente está entre os principais refúgios da onça-pintada no planeta e apresenta algumas das maiores densidades conhecidas para a espécie. A produtividade desse ecossistema sustenta uma rede de vida que inclui presas e predadores, mas a região ainda recebe menos atenção internacional em cenários de conservação do que outros ambientes associados à onça-pintada.

Na Reserva Mamirauá, as armadilhas fotográficas permitiram acompanhar indivíduos ao longo de diferentes anos e identificar mudanças na dinâmica da população. O monitoramento de longo prazo foi decisivo porque uma observação isolada poderia registrar muitos animais sem mostrar a diferença entre os sexos nem a trajetória dessa composição. O estudo indica que a várzea mantém uma população numerosa, mas também revela que a permanência de muitos indivíduos não significa, necessariamente, que a reprodução local esteja protegida. Fêmeas residentes têm papel central na geração de filhotes e na continuidade da população ao longo do tempo.

Machos entram, fêmeas diminuem e os filhotes ficam mais vulneráveis

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que a caça mais frequente de machos esteja entre os fatores associados à redução da densidade de machos residentes. A saída desses animais pode favorecer a entrada de machos vindos de outras populações, o que ajuda a explicar o aumento observado na densidade masculina. Os dados indicam que a imigração de fêmeas é menos frequente, porque elas geralmente estabelecem territórios menores próximos da mãe. Esse padrão pode deixar a população local mais dependente das fêmeas que já vivem na região.

A chegada de novos machos também pode alterar a sobrevivência dos filhotes. Em onças-pintadas, machos podem matar filhotes para que as fêmeas voltem ao cio, comportamento conhecido como infanticídio. Quando isso acontece, a fêmea pode se reproduzir novamente, mas os filhotes mortos deixam de ingressar na população. A combinação entre menos fêmeas residentes, menor permanência de filhotes e maior presença de machos externos compromete o recrutamento de novos indivíduos. A pesquisa trata essa sequência como uma hipótese explicativa, não como uma relação causal já demonstrada para cada mudança registrada em Mamirauá.

O alerta para a conservação aparece antes da queda total

O estudo mostra por que o acompanhamento de uma espécie precisa observar sua estrutura interna, e não somente o número total de animais. Uma população pode parecer estável quando a densidade geral permanece semelhante, enquanto a proporção de fêmeas reprodutoras diminui. Nesse cenário, a reprodução e a reposição de indivíduos podem enfraquecer antes que uma redução populacional ampla seja percebida. A queda de 77% na densidade de fêmeas, acompanhada pelo aumento de machos, é o sinal mais importante identificado na série histórica.

Os pesquisadores apontam como prioridades a proteção das fêmeas reprodutoras, o aumento da sobrevivência e da permanência dos filhotes e o fortalecimento da gestão comunitária. Essas medidas dependem de uma conservação ajustada à realidade das florestas inundáveis, onde as relações entre comunidades, fauna e ciclos da água fazem parte do mesmo território. A pesquisa foi realizada por cientistas do Instituto Mamirauá e da Panthera e divulgada pelo Portal Amazônia em 21 de julho de 2026. Em Mamirauá, contar muitas onças é apenas o primeiro passo: compreender quem permanece, quem chega e quem consegue deixar descendentes revela a saúde da população com muito mais precisão.

Com informações do Portal Amazônia.

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