
Plataforma do WWF-Brasil e do MapBiomas acompanha o aquecimento em corpos de água vulneráveis à seca e orienta possíveis ações em campo.
O Lago Cabaliana, na Região Metropolitana de Manaus, registrava 31,74°C na manhã de 30 de setembro de 2024. A marca era 1,2°C superior à observada na mesma data de 2023 e ficava 2,3°C acima da média dos últimos cinco anos para setembro. O registro faz parte de um acompanhamento que identificou temperaturas acumuladas até agosto superiores às do ano anterior em 12 lagos amazônicos.
Os dados são apresentados por uma plataforma desenvolvida pelo WWF-Brasil em parceria com o MapBiomas. A ferramenta monitora lagos com características físicas semelhantes e permite observar alterações que podem afetar a fauna e a flora. O acompanhamento ganhou relevância depois que botos-cor-de-rosa e tucuxis morreram nos lagos Tefé e Coari, no fim de setembro de 2023, quando a água chegou a 40°C. Em 2024, a temperatura voltou a ser observada junto com o nível da água, a turbidez e a exposição à radiação solar.
O aquecimento aparece em lagos conectados a rios amazônicos
Além do Cabaliana, alterações semelhantes foram observadas em outros 22 lagos com a mesma hidrogeomorfologia. São corpos de água conhecidos como lagos de ria, geralmente mais compridos e formados a partir de pequenos tributários que atravessam a floresta. Esses cursos de água desembocam primeiro em um lago alongado e, mais adiante, se conectam ao Rio Solimões ou a outros grandes rios por meio de um canal estreito.
Essa configuração mantém um ciclo de troca de água, nutrientes e temperatura entre o lago, os tributários e o rio principal. Ao mesmo tempo, deixa os corpos de água vulneráveis quando as secas reduzem rapidamente o volume disponível. A perda de superfície concentra animais em áreas menores e modifica as condições do ambiente. Por isso, o monitoramento não considera apenas a temperatura registrada na superfície, mas também a amplitude térmica na coluna da água, observada nos acompanhamentos diários.
Seca, água mais quente e radiação formam um conjunto de riscos
Segundo Mariana Paschoalini Frias, analista de conservação do WWF-Brasil, os animais já demonstravam sinais de estresse porque estavam confinados em lagos que perdiam superfície de água em ritmo acelerado. A pesquisadora também apontou que a temperatura passou a apresentar uma amplitude muito grande em diferentes profundidades, e não apenas na camada superficial. Essa mudança amplia a necessidade de observar o que ocorre dentro da coluna da água.
A plataforma permite reunir essas informações para uma análise multidisciplinar quando os dados indicam ameaça à fauna ou à flora por superaquecimento. A avaliação considera a quantidade de água disponível, a turbidez e o excesso de radiação solar, fatores que podem alterar as condições de vida no ecossistema. A proposta não se limita a registrar uma marca de temperatura, mas acompanhar a combinação de variáveis que transforma o ambiente dos lagos durante a estiagem.
Monitoramento alcança diferentes bacias da Amazônia
Por causa da seca mais intensa e da presença de espécies afetadas no ano anterior, o acompanhamento inclui lagos de diferentes áreas da região. Entre os locais monitorados estão corpos de água ligados aos rios Trombetas, Solimões, Purus, Madeira, Paru, Negro e Tapajós, além dos lagos Tefé e Coari. A seleção reúne ambientes com características semelhantes e também áreas onde a presença de botos torna a observação especialmente importante.
Quando os dados geram um alerta, as informações podem orientar ações em campo e uma análise conjunta da situação. Participam desse trabalho pesquisadores do Instituto Mamirauá e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, além das equipes envolvidas no desenvolvimento e no acompanhamento da plataforma. A atuação depende da leitura integrada das condições de cada lago, já que uma temperatura elevada pode ocorrer junto com redução do nível da água, aumento da turbidez e maior incidência de radiação.
O dado de 2024 retoma a memória da mortandade de botos
Em 2023, as águas dos lagos Tefé e Coari chegaram a 40°C no fim de setembro, período em que botos-cor-de-rosa e tucuxis morreram. O episódio tornou visível a relação entre a estiagem extrema, o confinamento dos animais e o aquecimento dos corpos de água, mas o monitoramento de 2024 foi estruturado para observar o conjunto de condições ambientais antes de uma eventual emergência. A elevação registrada no Lago Cabaliana e nos demais lagos acompanhados reforça a importância de acompanhar a evolução diária.
A divulgação dos dados ocorreu em 30 de setembro de 2024, quando a plataforma já indicava temperaturas superiores às de 2023 em 12 lagos até agosto. O resultado não é apenas uma comparação entre números: ele mostra como lagos conectados à floresta e aos grandes rios respondem às mudanças no regime de água. Ao seguir a temperatura junto com profundidade, turbidez, radiação e superfície disponível, o monitoramento transforma uma variação ambiental em informação capaz de aproximar a resposta humana do tempo dos rios.
Com informações da Agência Brasil.
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