Laser que atravessa a floresta revela mais de 20 mil obras de terra antigas no sudoeste da Amazônia, onde viveram até 3 milhões de pessoas

Laser que atravessa a floresta revela mais de 20 mil obras de terra antigas no sudoeste da Amazônia, onde viveram até 3 milhões de pessoas
Imagens de LiDAR mostram geoglifos e estradas antigas sob a floresta do sudoeste da Amazônia. Figura: Pärssinen e colaboradores, revista Nature (2026), via Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0.

Por muito tempo, os geoglifos do Acre só podiam ser vistos onde a floresta tinha sido derrubada. Valas em forma de círculos, quadrados e retângulos apareciam no meio do pasto, e os cientistas só podiam imaginar quantas outras estruturas continuavam escondidas sob as árvores. Um estudo publicado na revista Nature usou um laser capaz de atravessar a copa da floresta para responder a essa pergunta. O resultado: mais de 20 mil obras de terra pré-coloniais no sudoeste da Amazônia.

A pesquisa foi liderada pelo arqueólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, na Finlândia, e reúne pesquisadores da Universidade Federal do Acre, da Universidade Federal do Pará, da Universidade Federal do Ceará e de instituições finlandesas e dinamarquesas. Entre os autores está o paleontólogo Alceu Ranzi, da UFAC, um dos primeiros a chamar a atenção para os geoglifos do Acre, e o indígena Francisco Apurinã.

O laser que vê o chão

O LiDAR funciona como um radar de luz. Um equipamento no avião dispara milhares de pulsos de laser por segundo. Parte deles passa pelos espaços entre as folhas, bate no solo e volta. Com esses retornos, os computadores reconstroem o relevo do terreno como se a floresta não existisse, e estruturas de poucos metros de altura ou profundidade aparecem com nitidez.

A equipe analisou 4.430 quilômetros de voos com esse sistema, somando aos dados já conhecidos de áreas desmatadas. O mapa resultante mostra valas geométricas, aterros e caminhos retos que ligam as estruturas, uma rede que os autores associam a uma área cultural chamada de Aquiry.

Uma região, a estimativa da Amazônia inteira

O dado mais impressionante é a comparação. Segundo o estudo, só essa área cultural do sudoeste da Amazônia contém tantas obras de terra quanto se estimava antes para toda a Amazônia. Se padrões parecidos forem encontrados em outras regiões, o número total de estruturas antigas na floresta pode ser muito maior do que se pensava.

Até 3 milhões de habitantes

A partir da quantidade e da distribuição das estruturas, os pesquisadores propõem que a população humana da área, entre os anos 100 e 300 da nossa era, ficou entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas. É uma estimativa alta para uma região que, no imaginário popular, sempre foi vista como floresta quase vazia antes da chegada dos europeus.

Os autores lembram que, se resultados semelhantes aparecerem no resto da bacia, será preciso reavaliar a densidade populacional da Amazônia antiga e o efeito dessas populações sobre o solo, a estrutura da floresta, a biodiversidade e até alguns modelos do clima global.

Para que serviam

A função dos geoglifos ainda é debatida. Muitos parecem ter sido espaços cerimoniais, usados em encontros e rituais, e não aldeias permanentes. As estradas retas, por sua vez, sugerem uma organização social capaz de planejar e manter obras ao longo de grandes distâncias. Estudos anteriores na região mostraram que os construtores manejavam a floresta, favorecendo palmeiras e outras plantas úteis, sem derrubá-la em grandes áreas.

Uma história que começou de avião

Os geoglifos do Acre começaram a chamar a atenção da ciência no fim dos anos 1990, quando Alceu Ranzi, sobrevoando a região, percebeu figuras geométricas perfeitas desenhadas no chão de áreas desmatadas. Desde então, centenas de estruturas foram registradas no Acre, no sul do Amazonas, em Rondônia e na Bolívia. Algumas têm valas de até 11 metros de largura e vários metros de profundidade, com formas de círculos, quadrados e combinações de figuras. O novo levantamento mostra que essas descobertas eram apenas a parte visível de uma rede muito maior.

Patrimônio em risco

A descoberta chega num momento delicado. Muitos geoglifos já foram encontrados justamente porque a floresta foi derrubada para pasto e lavoura, e parte deles foi danificada por máquinas e plantações. Mapear as estruturas escondidas sob a mata é também uma forma de saber o que ainda pode ser protegido antes que o avanço do desmatamento revele, e destrua, o restante dessa história.

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