
No deserto da costa norte do Peru, onde quase nunca chove, um cão morreu há mais de 1.200 anos e continuou com a pele no corpo. Arqueólogos encontraram o animal mumificado naturalmente em Castillo de Huarmey, um antigo centro administrativo e funerário do Império Wari, junto com um crânio de outro cão ainda com orelhas e pele, pintado de vermelho. A análise mostrou que eram cães pelados peruanos, a raça sem pelo que até hoje é símbolo nacional do país.
O estudo, publicado no Journal of Anthropological Archaeology, traz a primeira evidência física desses cães no sítio, o único complexo Wari conhecido na costa norte peruana. A primeira autora é a arqueóloga Weronika Tomczyk, pesquisadora do Departamento de Antropologia do Dartmouth College, nos Estados Unidos.
Um império antes dos incas
Castillo de Huarmey fica a cerca de 300 quilômetros ao norte de Lima e ocupa uma área de aproximadamente 45 hectares. O lugar foi usado entre os anos 600 e 1050 da nossa era, cerca de 400 anos antes de os incas chegarem ao poder. Em 2012, o sítio ficou famoso pela descoberta do primeiro túmulo intacto da elite Wari, com os restos de 58 mulheres de alto status, seis pessoas sacrificadas e cerca de 1.300 objetos. Em 2022, apareceram sepulturas de artesãos de elite enterrados com ferramentas de ouro, prata e bronze.
Os cães contam outra parte da história, a da convivência diária entre pessoas e animais. Ao todo, as escavações reuniram 341 fragmentos de ossos que representam pelo menos 19 cães, além do macho mumificado quase completo, ao qual faltavam apenas as partes inferiores das patas da frente.
Os dentes que não nasceram
No começo, a equipe desconfiou que o cão mumificado fosse recente. Um terremoto em 1970 derrubou parte do complexo e expôs câmaras funerárias, que depois foram saqueadas, e as camadas de cima ficaram misturadas. O animal poderia ter sido enterrado uns 50 anos atrás.
Dois detalhes mudaram a conclusão. O cão não tinha pelo, e os três animais analisados não tinham os primeiros pré-molares. Não eram dentes perdidos ao longo da vida: eles simplesmente nunca nasceram. Tomczyk lembrou que a literatura científica descreve o mesmo gene como responsável pela ausência de pelo nos cães e pela redução do número de dentes. Os dentes faltando eram, portanto, a assinatura da raça.
A datação por radiocarbono confirmou a idade. O macho mumificado tem pelo menos 1.200 anos e é o espécime mais antigo já datado no sítio, o que também ajuda a ajustar a cronologia do complexo.
Filhote enterrado ao lado do mestre cesteiro
Alguns enterros chamam a atenção. Os ossos de um filhote de 6 a 8 semanas estavam junto a um artesão de elite apelidado de Mestre Cesteiro. Outro cão adulto foi enterrado dentro do palácio. Parte do esqueleto de um filhote apareceu ao lado de um homem que provavelmente foi sacrificado para guardar o túmulo.
Nem todos os cães tiveram esse tratamento. Alguns foram enterrados com cuidado, enquanto outros estavam no meio do lixo. Poucos ossos tinham marcas de corte, sinal de que cães não eram comida comum. Para a pesquisadora, isso mostra relações contraditórias, parecidas com as de hoje: um animal querido por um grupo podia ser uma praga para os vizinhos.
O que os cães comiam
A equipe analisou isótopos de carbono, nitrogênio, oxigênio e estrôncio nos dentes e ossos. Como os dentes de cães se formam muito cedo, eles guardam a dieta do filhote; o osso registra mais ou menos o último ano de vida. A maioria dos cães comeu pelo menos algum milho, base da alimentação nos Andes antes da chegada dos europeus, o que aproxima a dieta deles da dieta humana.
Nos cães sem pelo, a semelhança foi maior. Quando filhotes, a alimentação se parecia com a de crianças humanas do sítio. Depois, na vida adulta, as fontes de comida ficaram mais variadas. Para os pesquisadores, isso sugere que os filhotes podiam ser alimentados de perto pelas pessoas.
Uma raça que atravessou mil anos
O cão pelado peruano aparece com frequência na cerâmica das sociedades antigas da costa andina. Em Castillo de Huarmey, foi encontrado um vaso que mostra um cão sem pelo sentado, com traços humanos, segurando algo parecido com um instrumento musical. Em 2000, o Peru declarou a raça patrimônio cultural da nação, e uma variação dela é reconhecida hoje como Peruvian Inca Orchid.
O clima seco do deserto, que preservou pele, pelos, tecidos, couro e pigmentos, fez do sítio um dos poucos lugares onde é possível ver de perto como esses animais eram tratados há mais de um milênio, muito antes de os incas usarem o nome que hoje acompanha a raça.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














