
Fósseis antigos e novas datações revelam uma paisagem costeira estável durante grandes oscilações climáticas.
Durante centenas de milhares de anos, enquanto o clima do planeta alternava entre fases glaciais e períodos mais quentes, a costa central do Líbano manteve uma característica rara: continuou oferecendo água, vegetação e animais em quantidade relativamente previsível. A conclusão vem de uma investigação internacional que revisitou fósseis escavados em três sítios arqueológicos libaneses e os posicionou no tempo com técnicas modernas de datação.
O estudo analisou coleções provenientes de Ras el-Kelb, Nahr Ibrahim e Naame, na faixa mediterrânea do país. Os materiais foram associados a um intervalo entre 100 mil e 400 mil anos atrás, período correspondente ao Pleistoceno Médio e Superior. A pesquisa teve participação do Centro Nacional de Investigación sobre la Evolución Humana, o CENIEH, da Espanha, e foi publicada em dois artigos complementares na revista Communications Earth & Environment.
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A cena reconstituída pelos pesquisadores não era a de uma floresta contínua e uniforme. Tratava-se de um mosaico formado por áreas arborizadas, margens de rios, clareiras e espaços mais abertos. A vegetação era dominada por plantas do tipo C3, grupo que reúne árvores, arbustos e gramíneas comuns em ambientes de clima temperado.
Esse mosaico sustentava comunidades variadas de grandes herbívoros. Entre os animais identificados estão auroques, gamos persas, cervos-vermelhos, cabras selvagens e rinocerontes. A presença desses grupos indica que a faixa costeira reunia diferentes fontes de alimento e oferecia condições para a sobrevivência de espécies com hábitos distintos.
Segundo o CENIEH, os sítios da costa libanesa foram datados entre 100 mil e 400 mil anos atrás, estabelecendo pela primeira vez uma cronologia confiável para esse conjunto de localidades do Mediterrâneo oriental.
O que os dentes dos animais registraram
Para construir essa linha do tempo, cinco dentes fósseis foram submetidos a uma combinação de datação por séries de urânio e ressonância paramagnética eletrônica, conhecida pela sigla U-series/ESR. O trabalho foi realizado nos Laboratórios de Geocronologia do CENIEH, que possuem instalações consideradas únicas na Espanha para esse tipo de análise.
A escolha dos dentes foi decisiva porque as escavações originais ocorreram décadas atrás ou até mais de um século. Em parte dos casos, os pesquisadores atuais não dispunham de informações estratigráficas suficientemente seguras para saber a idade exata de cada peça. A nova cronologia permitiu separar materiais de épocas diferentes e evitar que evidências de milhares de anos fossem tratadas como se pertencessem ao mesmo momento.
O segundo artigo examinou a composição de isótopos de carbono e oxigênio no esmalte dentário de oito espécies de herbívoros. Como esse tecido registra sinais do ambiente consumido pelo animal, os pesquisadores puderam estimar o tipo de vegetação disponível, a presença de água e os padrões sazonais de temperatura.
Os resultados apontaram para uma sazonalidade mediterrânea persistente, com contrastes relativamente regulares entre verão e inverno. Mesmo diante de grandes oscilações climáticas globais, a amplitude dessas estações mudou pouco ao longo do intervalo estudado. A vegetação C3 continuou presente em diferentes combinações de bosques, áreas ribeirinhas e campos mais abertos.

Caça, aproveitamento de carcaças e adaptação
A paisagem não servia apenas aos animais. Marcas de corte, impactos e fraturas intencionais em ossos mostram que grupos humanos processaram carcaças em vários dos locais analisados. Os sinais indicam retirada de carne, acesso à medula e uso sistemático dos recursos disponíveis.
Os pesquisadores não identificaram uma única estratégia de subsistência válida para todo o Levante. A interpretação mais provável é a de que esses grupos ajustavam a caça e a circulação conforme a estação, a distribuição dos animais e as condições de cada setor da paisagem. Florestas, rios e áreas costeiras eram aproveitados de maneira combinada.
Essa flexibilidade ajuda a explicar por que a costa libanesa pode ter funcionado como um refúgio ecológico recorrente. Em vez de depender de uma condição climática excepcional, os grupos humanos encontravam uma combinação relativamente estável de abrigo, água e presas durante longos períodos.
O valor de coleções guardadas por gerações
A pesquisa também muda a forma de olhar para acervos antigos. Muitas das áreas escavadas no Líbano foram alteradas pelo tempo, e o acesso a novas campanhas de campo tem sido dificultado por instabilidade política e social. Nesse cenário, fósseis preservados em museus e instituições de pesquisa se tornam uma fonte importante para responder perguntas que não existiam quando foram coletados.
Os próprios autores, porém, reconhecem limites. Coleções históricas podem refletir escolhas de escavação, ter materiais misturados de diferentes idades e apresentar lacunas na documentação original. Por isso, uma data isolada não resolve todos os problemas. Ela precisa ser combinada com zooarqueologia, análise de desgaste dentário, estudos isotópicos e modelos de paisagem.
O trabalho foi desenvolvido no projeto REVIVE, financiado por uma bolsa Consolidator Grant do Conselho Europeu de Pesquisa, dentro do programa Horizonte 2020 da União Europeia. A iniciativa também contou com coordenação e colaboração da Direção-Geral de Antiguidades do Líbano.
Por que essa história importa para a arqueologia
A costa mediterrânea do Líbano costuma aparecer de forma secundária em comparações sobre a ocupação humana antiga do Oriente Médio, muitas vezes ofuscada por áreas mais estudadas do Levante meridional. Os novos resultados sugerem que essa divisão é insuficiente. A região central do Levante tinha dinâmica própria e oferecia condições ambientais que podiam favorecer deslocamentos e permanências humanas.
Os dois artigos, disponíveis na primeira publicação sobre ecologia e subsistência e na segunda pesquisa sobre isótopos e clima, não afirmam que a costa permaneceu inalterada. O que os dados mostram é uma resistência ecológica de longa duração, com mudanças internas, mas sem o colapso completo dos recursos que sustentavam animais e hominínios.
Essa distinção é importante também para estudos sobre antigas ocupações na América do Sul, inclusive na Amazônia. Em qualquer região, compreender como água, vegetação e fauna responderam ao clima ajuda a explicar por que certos lugares foram ocupados repetidamente, enquanto outros funcionaram apenas como passagem ou deixaram de oferecer condições de permanência. No caso libanês, a próxima etapa será ampliar a comparação entre sítios e refinar a relação entre mudanças ambientais e comportamento humano.
Com informações de Centro Nacional de Investigación sobre la Evolución Humana (CENIEH).
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