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Macacos da África sobem árvores com flexibilidade de chimpanzés e reabrem a origem da escalada humana

Macacos da África sobem árvores com flexibilidade de chimpanzés e reabrem a origem da escalada humana
Foto: discovermagazine.com

Vídeos de mangabeis-cinzentos indicam que o ancestral comum de humanos e chimpanzés provavelmente escalava troncos.

Um grupo de mangabeis-cinzentos foi filmado escalando troncos na floresta Taï, na Costa do Marfim, e revelou um movimento surpreendentemente parecido com o dos chimpanzés. A flexibilidade observada no meio do pé desses macacos chegou a 46 graus, praticamente o mesmo valor registrado nos tornozelos de chimpanzés durante a escalada. O resultado, publicado em estudo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, reforça a hipótese de que o ancestral comum de humanos e chimpanzés conseguia subir verticalmente em árvores, há milhões de anos.

A descoberta não identifica exatamente qual era a aparência desse ancestral. Fósseis de grandes primatas africanos do período em que as linhagens de humanos e chimpanzés se separaram são escassos. Mesmo assim, os movimentos registrados em animais vivos ajudam a reconstruir uma capacidade importante para entender a evolução humana.

O movimento que reabriu um antigo debate

Humanos e chimpanzés compartilham um ancestral comum que viveu provavelmente entre 8 milhões e 6 milhões de anos atrás, no Mioceno Superior. Em algum momento desse intervalo, as duas linhagens começaram a seguir caminhos evolutivos distintos. O problema é que a falta de fósseis completos deixa dúvidas sobre como esse primata se locomovia.

Uma das principais discussões envolve os pés. Uma hipótese afirma que o ancestral tinha características semelhantes às dos grandes primatas e usava os membros para escalar troncos. Outra possibilidade é que seus pés fossem mais próximos dos macacos do Velho Mundo, como babuínos, macacos-de-cheiro e mangabeis, animais que também se movimentam com eficiência no alto das árvores.

Os pesquisadores avaliaram essa questão a partir de imagens de alta resolução feitas pelo Taï Forest Monkey Project. Os vídeos permitiram observar com precisão como os pés dos mangabeis eram apoiados e como as articulações recebiam carga durante a subida.

Entenda o caso

O mangabei-cinzento é um primata africano que vive em ambientes florestais e transita entre o solo e as árvores. No estudo, os animais foram filmados subindo verticalmente em troncos, enquanto os pesquisadores analisavam a flexão do meio do pé.

O valor máximo observado foi de 46 graus. Em chimpanzés, a flexão para cima do tornozelo durante a escalada chega a aproximadamente 45 graus. Em humanos, a capacidade média de flexão do tornozelo é de cerca de 20 graus.

Macaco também pode ter sido um escalador eficiente

Segundo a Ohio State University, mangabeis-cinzentos alcançaram 46 graus de flexão no meio do pé durante a escalada vertical na floresta Taï, na Costa do Marfim, em observações analisadas no estudo publicado em 2026.

A comparação sugere que a habilidade de subir troncos não depende necessariamente de um pé com anatomia considerada típica de chimpanzés ou de outros grandes primatas. Um animal com estrutura mais semelhante à de um macaco também pode realizar o mesmo tipo de movimento.

“A grande vantagem de ter o vídeo é que ele permite registrar exatamente o que o macaco está fazendo, em alta resolução. Assim, podemos dizer como a articulação é carregada. Antes, tínhamos suposições, mas dessa forma a análise é muito mais precisa”, afirmou W. Scott McGraw, professor e chefe do departamento de antropologia da Ohio State University e um dos pesquisadores do trabalho.

Para Luke Fannin, primeiro autor do estudo e professor assistente de antropologia da mesma universidade, compreender os movimentos dos primatas atuais é uma maneira de investigar por que os humanos passaram a se locomover de forma tão diferente de seus parentes vivos mais próximos.

“Estamos tentando entender por que isso aconteceu”, disse Luke Fannin, ao explicar a importância de comparar a locomoção humana com a dos chimpanzés.

O que isso revela sobre a evolução humana

A consequência mais importante é que a escalada vertical pode ter sido uma capacidade ancestral, anterior às mudanças que levaram ao bipedalismo. Isso não significa que os primeiros ancestrais humanos já caminhassem como as pessoas atuais, nem que a escalada tenha sido a única causa da evolução para andar sobre duas pernas.

O estudo indica apenas que a relação com as árvores provavelmente continuou relevante durante uma parte importante da história evolutiva dos hominínios. Subir em troncos exige força, equilíbrio e grande mobilidade nas articulações dos pés e dos tornozelos. Essas exigências podem ter influenciado o formato do corpo ao longo do tempo.

Os autores destacam, porém, que os vídeos não substituem os fósseis. A anatomia do ancestral comum permanece desconhecida, e a semelhança entre os movimentos dos mangabeis e dos chimpanzés não prova que ambos descendem de um animal com exatamente a mesma estrutura corporal.

Uma conexão com as florestas da Amazônia

A pesquisa foi realizada na África Ocidental, mas o princípio investigado também ajuda a compreender a diversidade de primatas arborícolas da Amazônia. Macacos que vivem nas florestas brasileiras, do Acre ao Amapá e do Amazonas ao Maranhão, desenvolveram diferentes formas de agarrar galhos, atravessar copas e descer por troncos.

Espécies amazônicas como macacos-aranha, barrigudos, macacos-prego e guaribas mostram que a vida nas árvores pode favorecer soluções anatômicas variadas. A comparação entre esses animais e primatas africanos ajuda a separar características específicas de cada grupo daquelas que podem ter surgido repetidamente em diferentes linhagens.

O próximo passo é ampliar a análise para outros primatas e combinar os dados de movimento com novas descobertas fósseis. Essa integração poderá esclarecer se o ancestral comum de humanos e chimpanzés vivia principalmente no chão, nas copas ou em uma combinação dos dois ambientes.

Perguntas frequentes

Quando humanos e chimpanzés compartilharam um ancestral comum?

A separação entre as duas linhagens é geralmente estimada entre 8 milhões e 6 milhões de anos atrás. O período exato ainda é discutido porque existem poucos fósseis africanos desse intervalo.

O ancestral comum já caminhava sobre duas pernas?

O estudo não responde a essa pergunta. Ele sugere que o animal tinha capacidade de escalar verticalmente, mas não determina quando ou como o bipedalismo surgiu.

Por que os vídeos dos mangabeis são importantes?

As imagens permitem medir a posição das articulações durante a escalada real, em vez de depender apenas da anatomia dos ossos. Isso ajuda a mostrar que pés com aparência mais próxima à de macacos também podem executar movimentos eficientes em troncos.

Novos fósseis e gravações de outros primatas devem definir os próximos passos para testar essa hipótese sobre a locomoção do ancestral humano.

Com informações de Ohio State University.

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