
Descoberta na China revela como um antigo grupo ligado a crocodilos e dinossauros se adaptou à vida no mar.
Um fóssil de Austronaga minuta, réptil marinho que viveu há cerca de 245 milhões de anos no território que hoje corresponde à China, preservou quase todo o seu trato digestivo. O animal tinha aproximadamente 60 centímetros de comprimento, alimentava-se de peixes e morreu no período Triássico Médio. A descoberta, analisada por uma equipe internacional com técnicas de luz ultravioleta e espectrometria de massas, ajuda a explicar como ancestrais terrestres ligados aos crocodilos e dinossauros se adaptaram à vida nos oceanos.
O estudo foi publicado na revista Science Advances e apresenta uma das visões mais detalhadas já obtidas do sistema digestivo de um réptil tão antigo. Entre os tecidos preservados estão um estômago em forma de bolsa, o fígado e um tubo alongado correspondente aos intestinos.
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⭐ Adicionar Revista AmazôniaFóssil registra a última refeição do animal
Austronaga minuta tinha pescoço e cauda longos, dentes afiados e membros transformados em nadadeiras. A posição dos restos sugere que ele havia ingerido um peixe pouco antes de morrer. A preservação ocorreu em condições capazes de manter não apenas os ossos, mas também marcas de tecidos moles no interior da caixa torácica.
Uma região escura observada entre as costelas chamou a atenção dos pesquisadores. A análise com luz ultravioleta revelou estruturas internas que não seriam visíveis apenas pela observação da superfície do fóssil. A espectrometria de massas também identificou sinais químicos associados a componentes orgânicos preservados.
Segundo Science Advances, o fóssil de Austronaga minuta preserva um estômago, um fígado e intestinos em um réptil marinho que viveu na China há aproximadamente 245 milhões de anos, durante o Triássico Médio.
Um estômago simples entre os arcossauros
O sistema digestivo encontrado era relativamente curto e simples. Na parte anterior havia uma única câmara estomacal, seguida pelo fígado e por um tubo que reunia as regiões do intestino delgado e do intestino grosso.
“Enquanto as aves e os crocodilos atuais têm um estômago dividido em duas partes, Austronaga tinha apenas uma câmara estomacal. Isso mostra que os estômagos dos arcossauros eram inicialmente simples e só evoluíram mais tarde”, afirmou Nick Fraser, do National Museums Scotland, um dos autores do estudo, em informação divulgada pela equipe.
De acordo com os pesquisadores, a anatomia interna se parecia mais com a de répteis atuais que comem peixes do que com a de arcossauros modernos. O contraste é importante porque crocodilos e aves, os únicos representantes vivos desse grande grupo, apresentam sistemas digestivos mais especializados.
Entenda o caso
Arcossauros são um grupo de répteis que inclui crocodilos, aves, dinossauros e várias linhagens extintas. Embora seus ancestrais fossem predominantemente terrestres, o fóssil indica que alguns deles já exploravam os ambientes marinhos no início da diversificação do grupo.
Austronaga não era um ictiossauro, apesar de ter corpo alongado e nadadeiras que lembram as desses répteis. A semelhança resulta de adaptações parecidas para nadar, e não de uma relação evolutiva próxima.
Corpo pequeno, adaptação marinha avançada
O animal tinha cerca de dois pés de comprimento, ou aproximadamente 60 centímetros. Seu pescoço e sua cauda eram longos em relação ao corpo. A cauda provavelmente produzia a maior parte da propulsão durante a natação, enquanto as nadadeiras dianteiras ajudavam na direção.
As nadadeiras traseiras eram menores e, segundo a interpretação dos autores, talvez tivessem pouca participação no deslocamento. Esse conjunto de características revela uma combinação de corpo ainda influenciado por ancestrais terrestres com mudanças que favoreciam a vida no mar.
“Sempre pensamos que a adaptação dos arcossauros e de seus ancestrais à vida marinha era limitada. A descoberta de Austronaga mostra que representantes iniciais dessa linhagem já haviam desenvolvido adaptações complexas para viver nos oceanos”, disse Stephan Spiekman, especialista em répteis marinhos de pescoço longo e coautor da pesquisa.
Importância para a evolução dos répteis
O achado amplia o conhecimento sobre a recuperação dos ecossistemas marinhos após a grande crise biológica do fim do Permiano, período que antecedeu o Triássico. Nessa fase, diferentes linhagens de répteis passaram a ocupar nichos aquáticos e a disputar recursos nos mares.
A preservação do trato digestivo permite comparar a anatomia interna de Austronaga com a de outros répteis marinhos e com arcossauros mais recentes. O estudo também mostra que mudanças no corpo e nos órgãos internos não ocorreram necessariamente no mesmo ritmo durante a evolução.
Embora a descoberta tenha sido feita na China, ela ajuda a compreender processos que também moldaram a história dos vertebrados aquáticos em outras partes do planeta. No caso da Amazônia, onde fósseis marinhos são menos comuns nas áreas atuais de floresta, a pesquisa reforça como a configuração dos continentes e dos oceanos mudou profundamente ao longo do tempo geológico.
Os próximos estudos devem comparar Austronaga com outros arcossauros aquáticos e investigar como a digestão, a respiração e a locomoção evoluíram entre os primeiros répteis que deixaram o ambiente terrestre para ocupar os mares.
Perguntas frequentes
O que era Austronaga minuta?
Era um pequeno réptil marinho do Triássico Médio, com cerca de 60 centímetros de comprimento. Apesar da aparência semelhante à de outros répteis aquáticos, ele era mais próximo dos arcossauros, grupo que inclui crocodilos, aves e dinossauros.
O que foi preservado no fóssil?
O fóssil conserva quase todo o trato digestivo, incluindo um estômago de uma única câmara, o fígado e um tubo correspondente aos intestinos. Também há indícios de que o animal havia comido um peixe antes de morrer.
Por que a descoberta é importante?
O achado mostra que antigos arcossauros já apresentavam adaptações complexas para a vida marinha. Ele também oferece uma rara oportunidade de estudar órgãos internos de um réptil de 245 milhões de anos.
Com informações de Science Advances.
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