
Um sobrevoo com laser sobre o Acre e o sul do Amazonas mapeou 432 obras de terra de povos antigos que estavam escondidas sob a floresta. A partir dessa amostra, os autores estimam que a região tenha de 24 mil a 30 mil estruturas do tipo e que a população de então tenha chegado a 1,25 milhão a 3 milhões de pessoas. Segundo o estudo publicado em 29 de julho de 2026 na revista Nature, os 30 mil e os 3 milhões são estimativas por extrapolação, não contagens diretas.
O artigo, de acesso aberto, se chama “Over 20,000 precolonial earthworks in the Southwest Amazonia”. É assinado por Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, e por pesquisadores da Finlândia, do Brasil e de outros países, entre eles Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre, e Francisco Apurinã.
O que foi medido
Os voos ocorreram entre 6 de junho e 1º de julho de 2024, sobre dez linhas de varredura. Foram 4.430 quilômetros de percurso e 4.497 quilômetros quadrados cobertos, em faixas de 1 quilômetro de largura. O levantamento documentou 432 obras de terra, das quais só 36 eram conhecidas. Ou seja, 396 são novas para a ciência.
Seis dessas linhas, paralelas e separadas por 10 quilômetros, somam 2.380 quilômetros e serviram de base para as contas. Nelas, os pesquisadores detectaram 347 estruturas. Esse é o dado medido. O resto do que se lê nas manchetes vem de projeção.
Como um laser aéreo enxerga através da copa
A aeronave levava um scanner a laser da marca Riegl, que disparava 1,6 milhão de pulsos por segundo a cerca de 1.125 metros de altura. Parte dos pulsos passa pelas frestas entre folhas e galhos, atinge o solo e volta ao sensor. O equipamento registra o formato completo do sinal de retorno, o que ajuda a separar o que veio das copas do que veio do chão.
A média foi de 31,2 pontos por metro quadrado. Depois, os pontos foram classificados em “chão” e “não chão”, o ruído foi removido e o terreno foi interpolado num modelo digital com resolução de 50 centímetros. Sem árvores, valas e barrancos aparecem como sombras nítidas no relevo.
O método tem limite. Onde a mata é mais fechada, poucos pulsos chegam ao solo. Segundo os autores, a nuvem de pontos foi insuficiente para visualizar obras comuns em 41,9% da área a oeste da longitude 66° O e em 54,5% da área a leste. Estruturas grandes, de mais de 1 hectare, ficaram invisíveis em 11,3% e 17,8% dessas áreas, respectivamente.
Por que a floresta escondeu as obras por séculos
Até aqui, os geoglifos eram achados quase só em áreas desmatadas, onde imagens de satélite e fotos aéreas mostram o desenho da terra. Sob mata, a copa esconde tudo. Segundo o estudo, o laser encontrou cinco vezes mais obras nas áreas já desmatadas do que o satélite: 156 onde antes se conheciam 30.
Os geoglifos são recintos geométricos cercados por valas de 9 a 13 metros de largura e até 5 metros de profundidade, com área de 0,35 a 14 hectares. Pela modelagem dos autores, foram construídos entre 600 a.C. e 850 d.C. O laser também mostrou muitos recintos com aterro e sem vala, difíceis de ver por satélite.
Os autores descrevem esses lugares como centros públicos, cerimoniais e políticos, sem ocupação permanente nem defesas. Não eram, portanto, aldeias de moradia diária.
De 432 a 30 mil: a conta dos autores
O voo cobriu só uma fração do território que os autores delimitam em cerca de 183.000 quilômetros quadrados, o triplo da estimativa anterior, de 60.000. A região central, com 85.000 quilômetros quadrados, foi calculada a partir da faixa do entorno de Rio Branco, e o restante foi tratado como periferia de baixa densidade.
Com essa extrapolação, chegaram a 23.760 obras. Outro caminho, que multiplica por cinco os achados de satélite, deu 26.400 e 29.500. Como o laser não vê o chão em parte da floresta, os autores dizem que o total pode ficar próximo de 30 mil. Cerca de dois terços, ou 16.660, seriam da civilização que os autores chamam de Aquiry, construtora dos geoglifos.
Entenda
Dado medido: 432 obras em 4.497 km² de voo. Estimativa: 24 mil a 30 mil obras e 1,25 milhão a 3 milhões de pessoas entre 100 e 300 d.C. A população resulta de premissas, como 300 pessoas por obra, e não de contagem de moradores. Os próprios autores tratam a conta como estimativa provisória.
O que os autores dizem sobre a população
A conta é direta. Dos 16.660 recintos, os pesquisadores supõem que de 25% a 60% estivessem em uso entre 100 e 300 d.C., ou 4.165 a 10.000. Com 300 pessoas para construir e manter cada um, o resultado é de 1,25 milhão a 3 milhões, ou 7,1 a 16,5 habitantes por quilômetro quadrado. Para comparar, o Acre atual tem 5,1.
O número de 300 por obra vem da comparação com aldeias de montículos que surgiram na região por volta do século 13. Se cada casa fosse de uma só família, o total cairia para 250 mil a 600 mil. Os autores consideram essa hipótese muito improvável. Se a mata esconde obras, o teto sobe para 1,6 a 3,8 milhões.
O estudo não afirma que 3 milhões de pessoas viviam juntas numa cidade. Os autores falam em comunidades dispersas e em urbanismo de baixa densidade, e admitem que o número depende de métodos e dados que podem levar a outras conclusões.
E as estradas retas?
As manchetes sobre estradas retas de 2 quilômetros ligando aldeias não têm base no artigo da Nature, que só cita vias associadas a alguns geoglifos. O estudo específico sobre o tema saiu em 2026 na Latin American Antiquity, assinado por Risto Kalliola, Martti Pärssinen, Alceu Ranzi e Antonia Barbosa. Segundo o resumo, são 955 trechos, somando 350 quilômetros. Os autores escrevem que raramente passavam de algumas centenas de metros e que a função era mais simbólica que a de deslocamento cotidiano.
O que vem agora
Segundo os autores, se resultados parecidos aparecerem em outras partes da Amazônia, a densidade de população pré-colonial e o efeito dela sobre solos, floresta, biodiversidade e até modelos de clima devem ser reavaliados. Os dados brutos do laser têm acesso restrito pela lei brasileira, e obras em territórios indígenas não foram marcadas nos mapas.
A próxima etapa é checar em campo e datar mais estruturas. O sudeste da área, em Rondônia, segue como pergunta em aberto por falta de escavações.
Com informações de Nature, Latin American Antiquity e Nature Portfolio.
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