
Estudo publicado na PNAS sugere que textos medievais sobre o uso de aloe em múmias podem ter raízes históricas reais, mas só 2 de 24 objetos tinham o vestígio.
Um crânio mumificado guardado numa coleção zoológica universitária e um frasco de remédio europeu do século 18 acabaram ligados pela mesma assinatura química: compostos associados ao aloe. A descoberta é de uma equipe da Universidade de Marburg, na Alemanha, e foi publicada no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), em estudo que cruza química de produtos naturais, egiptologia e história da farmácia.
O crânio foi datado por radiocarbono do século 8 a.C., ou seja, tem cerca de 2.700 anos. O segundo material é uma preparação de Mumia vera aegyptiaca, droga medicinal feita com restos de múmias, produzida na Farmácia Löwen, em Offenbach am Main, e hoje abrigada no Museu Alemão de Farmácia, em Heidelberg.
Como os pesquisadores chegaram ao aloe
A equipe analisou 24 objetos de coleções universitárias e de museus. Em linguagem simples: extraiu as substâncias presentes em cada amostra e comparou as moléculas encontradas com o que se conhece de plantas e resinas.
Análises anteriores já tinham identificado nas misturas de embalsamamento resinas de coníferas, alcatrões, resinas de pistache, óleos vegetais, gorduras animais, cera de abelha e betume. Também havia sinais de resinas exóticas, como elemi e dammar. Ainda faltava saber quais espécies de plantas foram de fato usadas e como as receitas variavam entre épocas, regiões e partes do corpo.
Segundo a Universidade de Marburg, o aloe nunca tinha sido identificado por análise molecular como componente de materiais de embalsamamento egípcios.
Uma suspeita medieval que ganha força
Textos medievais associavam o aloe ao material de múmias usado como remédio. Até agora, a hipótese dominante era que esses autores especulavam, apoiados em passagens bíblicas como João 19:39, porque o conhecimento sobre o embalsamamento egípcio tinha se perdido.
“Este achado é importante para a pesquisa por dois motivos: até agora, o aloe não havia sido identificado como componente de materiais de embalsamamento do Egito antigo por análise molecular. Ao mesmo tempo, o aloe estava ligado ao material de múmias usado como medicamento em séculos posteriores, em particular em textos medievais. Supunha-se que os autores desses textos especulavam e se baseavam em passagens bíblicas (por exemplo, João 19:39), pois o conhecimento sobre o embalsamamento egípcio havia sido perdido. As novas descobertas sugerem que essa associação pode ter raízes históricas mais profundas”, explica a professora Tanja Pommerening, que chefia o único Instituto de História da Farmácia e da Medicina da Alemanha, em Marburg.
Aloe ou madeira de agáloco?
Há uma armadilha de vocabulário. O termo histórico “aloe” designava materiais vegetais diversos e podia se referir também ao agáloco, madeira aromática do gênero Aquilaria. Os compostos encontrados, segundo os autores, apontam para produtos do gênero Aloe, e não para o agáloco.
Os pesquisadores também reexaminaram fontes escritas egípcias. O termo ꜥnḫ-jm.j chamou atenção: certas descrições da substância e de seu uso sugerem que ele pode designar o aloe ou um exsudato extraído dele. A identificação definitiva, porém, ainda não foi alcançada.
O que o estudo não permite concluir
Os compostos associados ao aloe apareceram em apenas dois dos 24 objetos. Por isso, não é possível afirmar que o aloe fosse usado de modo geral na mumificação. Ele pode ter entrado só em práticas específicas, conforme o período ou a disponibilidade de matéria-prima.
Impressão química liga peças de museu
Outro resultado diz respeito à história dos próprios objetos. Com metabolômica não direcionada, apoiada em métodos computacionais e de aprendizado de máquina, a equipe comparou padrões moleculares de amostras do Museu Alemão de Farmácia, em Heidelberg.
Surgiram semelhanças marcantes entre uma cabeça mumificada e uma amostra de pó catalogada separadamente. Os resultados sugerem que as duas peças podem ter compartilhado origem material ou histórica, embora nenhum registro da coleção documente essa ligação. A técnica pode ajudar museus a reconstruir, anos depois, vínculos perdidos entre objetos.
O remédio feito de múmia e a gripe
A Mumia vera aegyptiaca foi usada na Europa no fim da Idade Média e no início da era moderna. Era obtida de material de múmias e de substâncias de embalsamamento, ou vendida já preparada. Sua composição exata só era parcialmente conhecida.
As análises mostraram grande variação química entre as preparações históricas, mas várias continham compostos típicos de resinas envelhecidas de coníferas. Estudos experimentais já relataram atividade antimicrobiana em certos componentes dessas resinas, então a equipe testou o perfil anti-infeccioso de algumas amostras.
Um extrato da Coleção Medicinal Wigand, de Marburg, mostrou proteção moderada contra o dano celular causado pelo vírus da influenza em experimentos com células. O composto principal isolado, o ácido 7-oxodeidroabiético, não reproduziu o efeito, e os ingredientes responsáveis seguem desconhecidos. O resultado não é evidência de que o remédio funcionasse contra gripe em humanos, embora textos antigos o indicassem para sintomas como dor de cabeça, tosse, dor de garganta e tontura.
O que isso significa para quem vive na Amazônia
O estudo mostra, em escala pequena, um caminho que também interessa à região: resinas, óleos e exsudatos vegetais são matéria-prima de remédios e rituais há séculos, e a Amazônia é fonte de muitos deles. Cruzar relatos históricos com química moderna pode ajudar a entender o que saberes tradicionais e documentos antigos descrevem. A pesquisa de Marburg, porém, não analisou materiais amazônicos.
Próximos passos
Os pesquisadores querem identificar outros compostos vegetais usados no embalsamamento e verificar se os indícios de aloe se confirmam em novas amostras. O professor Raphael Reher, do Instituto de Biologia Farmacêutica e Biotecnologia de Marburg, resume a meta: “A longo prazo, queremos estabelecer uma abordagem de pesquisa que combine fontes históricas escritas, objetos arqueológicos e análise moderna de produtos naturais. Nosso objetivo não é apenas analisar a composição química de medicamentos antigos e materiais de embalsamamento, mas também compreender melhor sua produção, uso, transmissão histórica e contexto cultural.”
O artigo, assinado por T. Berger, A. Naimi, K. Hardes, C. Sachße, R. Gericke, M. Marner, F. Mühlemeyer, T. Pommerening e R. Reher, está na PNAS, volume 123, número 45, com DOI 10.1073/pnas.2624362123.
Com informações de Universidade de Marburg.
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