Pesquisadora cruza plantas citadas no Antigo Testamento, no Novo Testamento e no Alcorão e mostra que oliveira e videira aparecem nos três

Pesquisadora cruza plantas citadas no Antigo Testamento, no Novo Testamento e no Alcorão e mostra que oliveira e videira aparecem nos três
Foto: acervo

Estudo da Universidade de Sarajevo usa textos sagrados como registro histórico da diversidade vegetal e das práticas agrícolas do Oriente Médio antigo.

Oliveira, videira, figueira e tamareira não são apenas símbolos recorrentes em textos religiosos: segundo um estudo da Universidade de Sarajevo, elas funcionam como pistas sobre o que se cultivava, se comia e se valorizava em sociedades antigas. A pesquisadora Mirzeta Memišević Hodžić comparou as plantas mencionadas no Antigo Testamento, no Novo Testamento e no Alcorão, e o trabalho saiu na revista SilvaWorld (volume 5, número 2).

Como a comparação foi feita

O método é uma análise textual comparativa. Para a Bíblia, a autora usou a New Revised Standard Version (NRSV). Para o Alcorão, a tradução inglesa de M.A.S. Abdel Haleem, publicada pela Oxford University Press em 2004.

Em cada texto, ela registrou os grupos de plantas citados e avaliou o papel histórico de cada um: produção de alimento, cultivo, uso em rituais, valor simbólico e funções sociais. Também mediu o quanto a lista de espécies de cada escritura se parece com a das outras, por meio do índice de similaridade de Sørensen-Dice, comparando os textos dois a dois. Os resultados estão organizados em 14 tabelas.

O que aparece nos três textos

Entre as espécies mais citadas estão a oliveira (Olea europaea), a videira (Vitis vinifera), a figueira (Ficus carica) e a tamareira (Phoenix dactylifera), além de cereais e de várias espécies lenhosas.

Segundo o estudo, publicado na SilvaWorld, oliveira e videira aparecem de forma consistente nas três escrituras. A autora associa isso à importância duradoura dessas frutíferas nos sistemas agrícolas do Mediterrâneo.

Outras plantas têm peso maior em um texto específico. A tamareira, por exemplo, é mencionada com frequência no Alcorão, o que, de acordo com a pesquisa, corresponde às condições ecológicas e às práticas agrícolas de regiões áridas e semiáridas.

Pesquisadora cruza plantas citadas no Antigo Testamento, no Novo Testamento e no Alcorão e mostra que oliveira e videira aparecem nos três
Foto: Divulgação

Mais que alimento: o valor social das plantas

A análise vai além do valor nutricional e econômico. Muitas dessas plantas aparecem associadas a rituais, à expressão de identidade, à ideia de fertilidade e prosperidade e ao reforço da memória coletiva dentro das tradições religiosas.

Os textos também carregam, segundo a autora, a transmissão entre gerações de conhecimento ecológico tradicional. Ou seja, quando uma escritura cita uma árvore, ela registra ao mesmo tempo um recurso, uma técnica de cultivo e um significado compartilhado.

O que o estudo sugere para a conservação

A conclusão é que fontes literárias históricas podem fornecer informação complementar sobre a diversidade de plantas e sobre padrões de uso ao longo do tempo. O trabalho relaciona diversidade vegetal, condições ambientais e práticas tradicionais de cultivo nos agroecossistemas históricos.

A autora afirma que esse tipo de leitura pode contribuir para debates atuais sobre conservação da biodiversidade, recursos vegetais tradicionais e patrimônio cultural das paisagens agrícolas. O estudo, porém, trabalha com traduções para o inglês e com textos, não com amostras de campo, de modo que serve como indício histórico, e não como inventário botânico definitivo.

O paralelo com a Amazônia

A lógica do trabalho dialoga com a realidade amazônica, onde povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas mantêm saberes sobre espécies cultivadas e manejadas que também passam de geração em geração, por meio da oralidade, de rituais e de práticas alimentares. A etnobotânica, área citada na bibliografia do estudo, é justamente o campo que investiga essas relações entre pessoas e plantas.

O estudo não trata da Amazônia, mas indica um caminho: registros culturais, sejam escritos ou orais, ajudam a entender a diversidade agrícola de um território e a valorizar a conservação das variedades tradicionais. O artigo completo está disponível no site da revista SilvaWorld, e a publicação em acesso aberto permite que outros pesquisadores retomem a comparação com novas traduções e fontes.

Com informações de Universidade de Sarajevo e revista SilvaWorld.

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