
A Serra dos Carajás, no sudeste do Pará, é conhecida no mundo inteiro por uma das maiores reservas de minério de ferro do planeta. Mas o lugar também guarda uma longa história humana, com cavernas e abrigos ocupados há milhares de anos. Um estudo de pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi mostra que essa ocupação antiga deixou marcas que ainda podem ser lidas na própria floresta.
O trabalho foi publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências e assinado pelos pesquisadores Ronize da Silva Santos, Ana Luisa Albernaz, Marlia Regina Coelho-Ferreira, Pedro Glécio Costa Lima e Marcos Pereira Magalhães, arqueólogo que estuda Carajás há décadas.
Como foi feito
A equipe fez inventários de vegetação em dois tipos de mata: florestas de encosta e capões, as ilhas de floresta que aparecem no meio das áreas abertas do alto da serra. Foram estudadas 14 áreas ao redor de sítios arqueológicos e 15 áreas sem nenhum sinal de cultura material, para comparação.
Com métodos estatísticos, os pesquisadores testaram se a composição de espécies era diferente entre os dois grupos e separaram o efeito da ocupação humana do efeito do solo e da distância entre as áreas.
O que mudou
O efeito da ocupação humana sobre a composição da floresta foi significativo nas matas de encosta. Entre as espécies que mais diferenciavam as áreas perto de sítios das áreas sem ocupação estavam árvores como Aparisthmium cordatum, Matayba inelegans e Caraipa densifolia.
Para os autores, os impactos humanos do passado sobre a vegetação de Carajás foram mais intensos nas encostas, mas se estenderam, em graus diferentes, por todo o platô. A floresta que se vê hoje é, em parte, resultado de como as pessoas viveram ali, abriram clareiras, plantaram e usaram os recursos ao longo de séculos ou milênios.
Plantas que contam história
A ideia de que a vegetação guarda a memória da ocupação humana tem ganhado força na Amazônia. Florestas próximas a sítios arqueológicos costumam ter mais espécies úteis, como palmeiras, frutíferas e árvores medicinais, plantadas, protegidas ou favorecidas pelas comunidades antigas. Em outros lugares da Amazônia, castanheiras, açaizais e cacauais concentrados perto de antigas aldeias são vistos como heranças desse manejo.
Em Carajás, o estudo mostra que o efeito existe também numa paisagem muito diferente da floresta de várzea, com serras, campos rupestres sobre a canga ferruginosa e matas de encosta.
Uma história de milhares de anos
A região de Carajás tem alguns dos registros de ocupação humana mais antigos da Amazônia. Escavações em grutas e abrigos da serra encontraram vestígios de grupos caçadores e coletores que viveram ali há mais de 10 mil anos. Ao longo do tempo, a área foi ocupada por diferentes povos, que deixaram ferramentas de pedra, cerâmica e restos de alimentação. O Museu Goeldi conduz pesquisas na serra há décadas, muitas vezes ligadas ao licenciamento das atividades de mineração.
Patrimônio e mineração
A convivência entre a pesquisa arqueológica e a mineração em Carajás é complexa. A serra abriga centenas de cavernas, muitas com sítios arqueológicos e fauna própria, em áreas onde também há minério. Estudos como esse reforçam que o patrimônio da região não está só nas cavernas e nos objetos enterrados, mas também na floresta que cresceu sobre os lugares onde viveram os povos antigos.
O que são os capões
No alto da Serra dos Carajás, a paisagem se divide entre campos abertos sobre a canga, uma crosta de rocha rica em ferro, e manchas de floresta chamadas capões. Esses capões aparecem onde o solo é mais profundo e úmido e funcionam como ilhas de mata no meio da vegetação baixa. Por oferecerem sombra, água e recursos, podem ter sido lugares preferidos por grupos humanos ao longo do tempo, o que torna importante entender como a presença das pessoas afetou essas ilhas.
O valor do conhecimento local
Muitas das espécies favorecidas por ocupações antigas seguem importantes para as comunidades da Amazônia, como alimento, remédio, material de construção e artesanato. Entender de onde vem essa riqueza ajuda a planejar a conservação de forma mais completa, protegendo ao mesmo tempo a biodiversidade e a memória dos povos que ajudaram a formá-la.
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