Ossos de animal com presas revelam abate humano no Chile há 13 mil anos e reabrem debate sobre as Américas

Ossos de animal com presas revelam abate humano no Chile há 13 mil anos e reabrem debate sobre as Américas
Foto: Mauricio Álvarez)

Marcas de corte e ferramentas de pedra preservadas junto a um antigo lago ampliam as evidências sobre os primeiros habitantes da América do Sul.

À margem de um lago que já não existe, animais parecidos com elefantes foram abatidos e aproveitados por grupos humanos milhares de anos antes da formação das sociedades conhecidas pela história escrita. Essa cena começou a ser reconstruída por arqueólogos na bacia do antigo lago Tagua Tagua, no centro do Chile, onde ossos de gonfotérios, ferramentas de pedra e outros vestígios foram encontrados em camadas datadas entre 12 mil e 13 mil anos.

O achado não depende apenas da presença de ossos. Algumas peças apresentam marcas lineares compatíveis com cortes produzidos por instrumentos, enquanto as ferramentas foram localizadas no mesmo contexto arqueológico. A combinação ajuda a sustentar a interpretação de que os animais foram mortos e processados no local, e não apenas deixados ali por processos naturais.

O que as marcas preservaram

Gonfotérios eram mamíferos extintos aparentados aos elefantes atuais. Tinham presas longas e faziam parte da megafauna que ocupava a América do Sul no final do Pleistoceno, período marcado por mudanças ambientais e pela presença de grandes herbívoros e predadores.

Durante os dois últimos anos, escavações realizadas na bacia do antigo lago reuniram uma concentração expressiva de restos de animais e artefatos líticos. A equipe identificou marcas de corte em vários ossos de gonfotérios, um sinal importante para diferenciar uma carcaça manipulada por pessoas de um conjunto acumulado por predadores, água ou outros fenômenos naturais.

Segundo o Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social, os ossos e artefatos encontrados no lago Tagua Tagua datam de aproximadamente 12 mil a 13 mil anos e indicam visitas repetidas de grupos caçadores e coletores à margem do antigo lago, no Chile.

Uma paisagem que desapareceu, mas guardou a ocupação

O lago Tagua Tagua não é apenas o endereço da descoberta. Seu antigo leito funcionou como uma espécie de arquivo ambiental, reunindo restos de animais, plantas e objetos produzidos por seres humanos. A água e os sedimentos ajudaram a cobrir e preservar materiais que, em outros locais, poderiam ter sido destruídos pelo clima ou pela atividade posterior.

Antes da nova etapa de pesquisas, a região já havia revelado ossos de cavalos americanos e de espécies de cervos que também desapareceram. Alguns desses restos apresentam sinais de corte e queima, evidências compatíveis com o processamento e o consumo de carne. O novo conjunto amplia esse quadro ao incluir um dos maiores animais conhecidos daquele ambiente.

Ossos de animal com presas revelam abate humano no Chile há 13 mil anos e reabrem debate sobre as Américas
Foto: Mauricio Álvarez)

A repetição de vestígios na mesma bacia também muda a leitura do lugar. Em vez de representar uma passagem isolada, Tagua Tagua pode ter sido uma área procurada mais de uma vez por comunidades móveis. A hipótese é coerente com o modo de vida de caçadores e coletores, que acompanhavam recursos disponíveis na paisagem, mas ainda depende do estudo detalhado de cada camada e associação arqueológica.

Como o Chile entrou no mapa dos primeiros americanos

A descoberta se soma a uma sequência de sítios que tornou o Chile central para a discussão sobre a ocupação inicial da América do Sul. Monte Verde, também localizado no país, é considerado o sítio arqueológico mais antigo confirmado no continente, com idade aproximada de 14,5 mil anos.

Outros locais ajudam a compor essa cronologia. Huaca Prieta, no Peru, e Arroyo Seco, na Argentina, têm cerca de 14 mil anos. Esses registros mostram que a presença humana já estava espalhada por diferentes ambientes sul-americanos em um período muito remoto. O material de Tagua Tagua não estabelece sozinho a data da chegada ao continente, mas oferece novas informações sobre o que essas populações faziam depois de alcançar a região.

O ponto central é a exploração da megafauna. Os ossos indicam que os habitantes do antigo lago não apenas circularam pela paisagem, mas utilizaram animais de grande porte como parte de sua estratégia de sobrevivência. Marcas de corte, sinais de queima e ferramentas de pedra permitem reconstruir etapas de uma atividade que ocorreu muito antes de registros escritos: separar a carne, retirar tecidos e possivelmente preparar o alimento.

O que ainda precisa ser esclarecido

A equipe concluiu o trabalho de campo e iniciou a análise do material coletado. Essa etapa pode ajudar a determinar com mais precisão como os ossos foram quebrados, quais partes dos animais foram aproveitadas e se houve diferentes momentos de ocupação na antiga margem lacustre.

Também permanece em discussão a relação entre a presença humana e o desaparecimento de grandes mamíferos na América do Sul. O achado comprova que pessoas caçavam ou processavam gonfotérios naquele local, mas não demonstra, por si só, que a ação humana tenha causado a extinção desses animais. A transformação do clima, a alteração dos habitats e outros fatores também fazem parte da investigação científica.

Essa cautela é relevante para a Amazônia. O sítio chileno não é uma prova direta sobre a ocupação dos rios e florestas amazônicos, nem permite transferir automaticamente seus resultados para Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A contribuição regional está em outro ponto: mostrar como vestígios associados, preservação de sedimentos e marcas microscópicas podem reconstruir antigas relações entre pessoas, animais e ambientes distintos do continente.

Ao final, a antiga margem de Tagua Tagua aparece como um lugar de encontros repetidos entre comunidades humanas e uma fauna que já não existe. As próximas análises deverão detalhar a sequência dessas ocupações e indicar com maior precisão como os animais foram processados há cerca de 13 mil anos.

Com informações do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social.

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