Fogo libera 791 milhões de toneladas de CO2 e supera o desmate como emissor, na Amazônia

Detalhe de árvore queimada e serapilheira coberta de cinzas, imagem que não mostra a extensão de 3,3 milhões de hectares nem o volume de 791 milhões de toneladas de CO2 medidos na temporada de 2024

O satélite que varreu a Pan-Amazônia em 2024 registrou manchas contínuas de queima sobre 3,3 milhões de hectares de floresta e, ao cruzar essas cicatrizes com modelos de biomassa e combustão, os pesquisadores chegaram a 791 milhões de toneladas de dióxido de carbono liberadas só pelo fogo, volume sete vezes superior à média dos dois anos anteriores e comparável às emissões anuais da Alemanha.

O trabalho do Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia, publicado em Biogeosciences, mostra ainda que, pela primeira vez no recorte 2022-2024, a degradação induzida por incêndio ultrapassou o desmatamento como principal fonte de carbono no bioma, invertendo a hierarquia que dominou décadas de monitoramento.

A medição combina séries de sensores ópticos e de radar com simulações de liberação de carbono por tipo de vegetação atingida, o que permite separar a perda total de cobertura da fração que permanece em pé, porém degradada por fogo de sub-bosque, copa e borda.

No total de distúrbios florestais do ano, desmatamento somado à degradação em larga escala chegou a 6,64 milhões de hectares, pico de mais de duas décadas e salto de 152 por cento em relação à média recente.

Enquanto as emissões atribuídas ao desmatamento recuaram para cerca de 625 milhões de toneladas de CO2, o fogo sozinho respondeu por 791 milhões, com incerteza de 86 milhões, elevando o conjunto desmate mais degradação por fogo a aproximadamente 1.416 milhões de toneladas.

Como a degradação por fogo passou à frente do desmatamento

A virada não significa que a conversão de floresta para outros usos tenha deixado de importar; significa que o mecanismo de perda de carbono mudou de peso relativo. A floresta degradada por fogo mantém estrutura residual, porém perde estoque de biomassa aérea, sofre mortalidade tardia de árvores e fica mais vulnerável a novos incêndios, o que transforma um evento de uma estação em processo de anos.

Os autores do estudo apontam que a combinação de seca extrema reforçada por mudanças no clima, fragmentação de paisagem e escapes de fogo ligados a manejo inadequado de pastagem e a grilagem criou condições para que o fogo se espalhasse por áreas antes menos suscetíveis, inclusive trechos de floresta mais úmida.

No recorte espacial da Pan-Amazônia, bioma que se estende pelo Norte e pelo Centro-Oeste brasileiros e por países vizinhos, o Brasil concentrou cerca de 50 por cento da área de degradação em larga escala e cerca de 61 por cento das emissões por fogo, conforme o estudo Extensive fire-driven degradation in 2024 marks worst Amazon forest disturbance in over 2 decades , de Bourgoin e colegas, publicado em 2025 em Biogeosciences pelo Joint Research Centre da Comissão Europeia.

A Bolívia respondeu por 32 por cento das emissões por fogo e teve 9 por cento de sua floresta intacta atingida no mesmo levantamento de 2024, enquanto outros países da bacia aparecem com menor peso absoluto, embora o padrão de seca e de uso do fogo se repita em bordas agrícolas e em corredores de fragmentação.

A análise cobre o bioma como sistema contínuo, e não apenas a porção sob jurisdição de um único Estado, o que explica por que o número de 791 ± 86 milhões de toneladas de CO2 por degradação induzida por fogo na Pan-Amazônia em 2024 supera inventários nacionais parciais que isolam só a Amazônia Legal brasileira ou só o período de pico de focos.

O que os sensores e os modelos conseguiram separar

A metodologia distingue desmatamento completo, em que a cobertura é removida e o uso muda, de degradação por fogo, em que a floresta permanece classificada como floresta, porém com perda mensurável de carbono e de integridade. Essa separação importa porque inventários que olham só para corte raso subestimam a contribuição do fogo em anos de seca severa.

Os pesquisadores usaram produtos de detecção de mudança em escala de hectares e validaram contra amostras de alta resolução, o que reduziu a confusão entre cicatriz de fogo, sombra de nuvem e senescência natural.

O resultado de 3,3 milhões de hectares impactados por fogo em 2024 aparece como large-scale degradation, e o salto percentual em relação à média recente chega a centenas de por cento em algumas classes de intensidade, com a degradação em larga escala descrita no patamar de aumento de 400 por cento a 1077 por cento frente à média recente, segundo o mesmo artigo em Biogeosciences.

A comparação com a Alemanha funciona como âncora de escala para leitores acostumados a inventários nacionais de gases de efeito estufa: um único bioma, em uma única temporada de fogo, liberou volume da mesma ordem de grandeza que a economia industrial de um país europeu emite em doze meses.

A fonte primária do achado circulou em inglês e em canais científicos europeus; o resumo em ScienceDaily trouxe o número de 791 milhões de toneladas e a virada fogo versus desmate ao público amplo, enquanto o artigo completo em Biogeosciences detalha incertezas, mapas e a série 2022-2024.

A hipótese de que a seca extrema, a fragmentação e o uso inadequado do fogo se reforçaram mutuamente é apresentada como leitura mais provável dos dados, e não como consenso fechado de todo o campo.

Seca, fragmentação e o ciclo do carbono sob estresse

Em condições históricas de umidade, a floresta amazônica funciona como sumidouro líquido de carbono em muitos anos, absorvendo mais do que emite.

Quando o fogo penetra o sub-bosque e mata árvores de grande porte, o estoque armazenado em troncos e raízes começa a se oxidar ao longo de meses e anos, e a capacidade fotossintética daquela parcela cai. A degradação por fogo, portanto, não é só emissão pontual da combustão; é também redução futura de sequestro.

O estudo sugere que a repetição de temporadas como a de 2024 pode empurrar trechos do bioma para um regime em que a emissão líquida se torna mais frequente, especialmente em bordas já fragmentadas e em regiões com histórico de fogo de escape. A fragmentação entra no mecanismo porque bordas expõem o interior da floresta a vento, luz e ressecamento, baixando o limiar de inflamabilidade.

Pastagens e áreas de agricultura no entorno fornecem ignição, e em anos de déficit hídrico extremo o fogo deixa de ser contido por umidade do combustível fino. Os autores não atribuem cada hectare a um único responsável, mas descrevem o conjunto de pressões que tornou 2024 excepcional em mais de vinte anos de registro.

A consequência imediata é o pulso de 791 milhões de toneladas; a consequência de médio prazo é a floresta mais aberta, mais quente e mais propensa a queimar de novo.

Por que a virada fogo-desmate altera o diagnóstico do bioma

Enquanto o desmatamento remove a floresta de uma vez e costuma ser seguido de uso agropecuário, a degradação por fogo deixa um dossel ralo e um estoque de carbono instável. Políticas e mercados de carbono que só contabilizam corte raso deixam de fora uma fração crescente do problema.

O estudo do centro europeu mostra que, no triênio analisado, o ano de 2024 foi o ponto em que essa fração se tornou dominante nas emissões rastreadas. Isso não cancela a importância de frear o desmate; desloca parte da atenção para prevenção de incêndio, manejo de fogo em paisagens mistas e restauração de áreas já degradadas, sob pena de o bioma continuar emitindo mesmo com taxas de conversão em queda.

A incerteza de 86 milhões de toneladas em torno do número central de 791 milhões reflete variações de biomassa, de eficiência de combustão e de detecção de cicatrizes sob nuvem. Mesmo na borda inferior da faixa, o volume permanece várias vezes acima da média dos anos imediatamente anteriores.

O total combinado de 1.416 ± 108 milhões de toneladas de CO2 para desmatamento mais degradação por fogo, com as emissões por desmatamento em 625 ± 38 milhões de toneladas de CO2, coloca a temporada em patamar que os autores descrevem como o pior distúrbio florestal em mais de duas décadas na escala da Pan-Amazônia, com 6,64 milhões de hectares de distúrbios totais e 3,3 milhões de hectares de degradação em larga escala em 2024.

Números brasileiros e o que já se media por aqui

No recorte nacional, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, no âmbito do SEEG, registrou 31,5 milhões de toneladas de CO2 equivalente em emissões por fogo em florestas, campos e pastagens na Amazônia entre junho e agosto de 2024, aumento de 60 por cento em relação ao mesmo período de 2023 e volume quase equivalente às emissões anuais da Noruega, conforme a nota disponível em ipam.org.br/co2-emissions-from-fires-in-the-amazon-grow-by-60 .

No mesmo intervalo de junho a agosto de 2024, o IPAM contabilizou 12,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente somente em vegetação florestal, em cerca de 700 mil hectares atingidos.

Esses totais de temporada parcial na porção brasileira não substituem as 791 ± 86 milhões de toneladas de CO2 por degradação induzida por fogo na Pan-Amazônia em 2024 do estudo Extensive fire-driven degradation in 2024 marks worst Amazon forest disturbance in over 2 decades , mas mostram que a mesma estiagem já aparecia como anomalia nas séries domésticas antes da consolidação europeia da comparação de escala e da virada fogo-desmate.

A sobreposição é esperada porque o Brasil detém cerca de 50 por cento da área de degradação em larga escala e cerca de 61 por cento das emissões por fogo no levantamento pan-amazônico de 2024, e os picos de seca e de focos foram sentidos com força no sul e no sudeste da Amazônia Legal, além de estados de transição do bioma que se estende pelo Norte e pelo Centro-Oeste e pelos países vizinhos.

A diferença de escopo, de período e de método explica por que os totais do IPAM para junho a agosto e o consolidado anual da Pan-Amazônia não coincidem hectare a hectare; a convergência está no sinal de que o fogo deixou de ser apenas ferramenta de limpeza pós-corte e passou a degradar floresta em pé em escala capaz de rivalizar com o desmatamento nas contas de carbono, com o desmatamento em queda para 625 ± 38 milhões de toneladas de CO2 e o conjunto desmate mais fogo-degradação em 1.416 ± 108 milhões de toneladas de CO2 no bioma em 2024.

O que a mudança de regime exige de monitoramento e de resposta

Se a degradação por fogo se mantiver à frente do desmate em anos secos, os sistemas de alerta que priorizam só polígonos de corte raso precisam incorporar cicatrizes de incêndio e mortalidade retardada com a mesma urgência. Modelos de estoque de carbono que assumem floresta intacta após um ano sem desmate registrado subestimam a perda real.

O estudo europeu não prescreve política pública brasileira, mas deixa explícito que a fragilidade ecológica do bioma aumentou mesmo em cenário de desaceleração relativa do desmatamento, o que sugere que o controle do fogo e a redução de fragmentação passaram a ser variáveis de primeira ordem para o balanço de carbono.

Para o leitor no Brasil, o dado de 791 milhões de toneladas e a equivalência com as emissões anuais da Alemanha traduzem um processo que já se via no chão e nos focos de calor em escala compreensível. A floresta que queima e permanece de pé continua a aparecer em mapas como floresta, porém com menos carbono, menos umidade e mais risco de novo incêndio.

A medição de 3,3 milhões de hectares e a virada estatística de 2024 fixam um marco a partir do qual qualquer discussão sobre sumidouro amazônico precisa incluir, de modo explícito, a degradação por fogo, e não apenas a taxa de conversão de uso do solo. Sem essa correção de diagnóstico, o bioma pode continuar a perder carbono em silêncio contábil enquanto as estatísticas de desmate melhoram.

A publicação em Biogeosciences e a divulgação associada fecham o ciclo de medição da temporada de 2024 com um número redondo o bastante para circular fora do meio acadêmico e com um achado estrutural, a primazia do fogo sobre o desmate nas emissões, que ainda era pouco ecoado em português quando o artigo saiu.

O mecanismo, a escala e a comparação internacional estão agora documentados; a consequência prática é que prevenção de incêndio, restauração de áreas degradadas e monitoramento de floresta em pé deixam de ser apêndices do combate ao desmatamento e passam a ocupar o centro do problema de carbono na Amazônia.

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