
Estudo publicado na PNAS mostra que o revestimento produzido por abelhas Colletes se degrada no solo bem mais rápido que plásticos parecidos feitos pelo homem.
Para estudar um plástico que não vem de fábrica, pesquisadores precisaram de uma pá de jardinagem. Em um campo no Tennessee, nos Estados Unidos, eles seguiram o túnel aberto de uma abelha solo até uma câmara forrada por um material plástico que a própria abelha produziu. O resultado da análise, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por equipes da Universidade de Minnesota, da Universidade do Tennessee e da Virginia Tech, é que esse revestimento se decompõe no solo muito mais depressa que plásticos humanos de estrutura semelhante.
Uma abelha que fabrica o próprio revestimento
As abelhas do gênero Colletes são chamadas de abelhas de celofane por causa da película fina e transparente que espalham nas paredes dos ninhos. Cada fêmea cava o próprio túnel, produz um líquido em uma glândula perto do ferrão e o aplica na câmara. Ali, moléculas pequenas se ligam em cadeias longas e formam o revestimento.
Em seguida, a abelha abastece a câmara com pólen e põe um único ovo. O forro pronto tem cerca de três quartos de plástico e um quarto de seda. O plástico é um poliéster, com cadeias de unidades repetidas que também parecem ligadas entre si, e sua estrutura lembra a do polietileno, que responde por aproximadamente um terço de todo o plástico do mundo.
A descoberta não é nova. Segundo a revista Discover, pesquisadores relataram na Science, em 1979, que essas abelhas de nidificação no solo fazem o próprio plástico, mas pouco se avançou depois disso por décadas, de acordo com o estudo.
O que intrigou os cientistas
As abelhas nidificam em áreas com mais de 10.000 ninhos, ano após ano, e ainda assim o plástico não parece se acumular no solo. Esse contraste motivou a investigação, já que plásticos comparáveis feitos pelo homem quase não se degradam. Quando escapam para o ambiente, podem durar séculos e se fragmentar em partículas minúsculas, que prejudicam a fauna e podem afetar a saúde humana.
Como o teste foi feito
A equipe coletou ninhos da mesma área em março, julho e outubro de 2023 e em fevereiro de 2024, escavando entre 7 e 12 polegadas (cerca de 18 a 30 centímetros) até alcançar as células do ninho. Assim, foi possível comparar revestimentos em diferentes estágios de envelhecimento.
Nos primeiros 4 meses, o forro permaneceu praticamente intacto e flexível. Aos 7 meses, quando a larva já tinha virado abelha adulta, apareceram rachaduras. Aos 11 meses, o material esfarelava se manuseado com força.
As medições seguiram a mesma tendência. O plástico representava cerca de 73% do peso de um revestimento novo e caiu para cerca de 40% após 4 meses. Como o restante era seda, uma fibra proteica que normalmente se decompõe rápido, o resultado indica que o plástico estava se degradando mais depressa que a própria seda.
Segundo o estudo, um plástico de laboratório relacionado perdeu apenas 18% da massa após 280 dias de compostagem industrial, ambiente mais agressivo que o solo comum.
Por que ele some tão rápido? Ainda é hipótese
Os autores afirmam que ainda não sabem a razão e que o próximo trabalho vai investigar o tema. Uma ideia é que o plástico da abelha seja formado por cadeias de comprimentos variados, que se acomodam de forma desordenada e podem deixar mais pontos fracos expostos ao ataque químico.
Outra hipótese é a ação de enzimas, proteínas que aceleram reações químicas, vindas da própria abelha ou de micróbios do ninho. A água de lavagem de ninhos novos e de ninhos com 4 meses mostrou sinais de enzimas que cortam o mesmo tipo de ligação química, embora cada teste tenha usado um único ninho.
Os limites dos dados
Os próprios pesquisadores reconhecem fragilidades. Um ninho contém apenas alguns miligramas de revestimento, alguns testes em ninhos mais velhos foram feitos só duas vezes e a maior parte dos dados de envelhecimento veio de uma única área de nidificação. Os resultados, portanto, são um primeiro retrato, não uma conclusão definitiva.
O que isso pode significar para a Amazônia e o mundo
A região amazônica abriga uma enorme diversidade de abelhas nativas, entre elas as sem ferrão, que também produzem materiais próprios para construir ninhos. O estudo com as Colletes não trata dessas espécies, mas mostra como insetos pouco notados podem guardar soluções químicas relevantes para problemas de poluição, tema que também pesa em rios e cidades amazônicas, onde o descarte de plásticos é um desafio.
Se o truque das abelhas puder ser copiado, dizem os autores, engenheiros poderiam manter a resistência de plásticos do tipo polietileno e torná-los muito mais fáceis de serem desmontados pelo ambiente. O passo seguinte é descobrir o mecanismo por trás da degradação, tarefa que a equipe já anunciou como foco dos próximos estudos. O artigo completo, intitulado Rapid soil degradation of a cross-linked, semicrystalline polyethylene-like polyester produced by Colletes bees, está disponível na PNAS.
Com informações de Universidade de Minnesota, Universidade do Tennessee, Virginia Tech e Proceedings of the National Academy of Sciences.
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