Araras e papagaios da Amazônia eram levados vivos até o deserto do Atacama e criados como animais de estimação séculos antes dos europeus

Araras e papagaios da Amazônia eram levados vivos até o deserto do Atacama e criados como animais de estimação séculos antes dos europeus
Casal de araras-vermelhas (Ara macao), uma das espécies amazônicas cujas penas eram valorizadas nos Andes. Foto: Charles J. Sharp, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

O deserto do Atacama, no norte do Chile, é um dos lugares mais secos do planeta. É o último ambiente onde alguém esperaria encontrar araras. Mesmo assim, arqueólogos acharam ali restos mumificados de dezenas de papagaios e araras vindos da Amazônia, do outro lado da Cordilheira dos Andes. Um estudo publicado na revista PNAS mostra que essas aves não chegavam só como penas: eram capturadas, transportadas vivas e mantidas como animais de estimação por povos do deserto, séculos antes da chegada dos europeus.

A pesquisa foi liderada pelo arqueólogo José Capriles, da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, com o arqueólogo Calogero Santoro, da Universidade de Tarapacá, no Chile, e colegas de outras instituições, entre elas o Museu Nacional de História Natural do Smithsonian.

Penas valiam mais que ouro

Nas Américas antes de Colombo, as penas coloridas de araras, papagaios e periquitos estavam entre os símbolos mais importantes de riqueza, poder e sagrado. Eram usadas em mantos, cocares, tecidos e oferendas. As sociedades dos Andes e da costa do Pacífico importavam esses bens das florestas tropicais da Amazônia, mas pouco se sabia sobre como essa troca funcionava.

27 aves mumificadas

A equipe estudou 27 restos completos ou parciais de aves, mumificadas ou em esqueleto, de pelo menos seis espécies de papagaios, encontrados em cinco sítios arqueológicos do Atacama. Entre elas estão araras, papagaios do gênero Amazona e periquitos conhecidos como jandaias. O clima extremamente seco do deserto preservou penas, pele e tecidos de forma rara.

As aves foram datadas, em sua maioria, do período entre os anos 1100 e 1450, quando sociedades locais mantinham rotas de caravanas de lhamas que ligavam a costa, os oásis do deserto, o altiplano e as encostas orientais dos Andes, de onde se descia para a floresta.

Criadas por gente

O ponto central do estudo é que as aves não chegavam mortas. As análises indicam que elas foram capturadas, levadas por centenas de quilômetros e mantidas vivas por algum tempo no deserto. Exames químicos dos ossos e penas sugerem que, no Atacama, as aves comiam alimentos fornecidos por pessoas, entre eles produtos cultivados na região. Algumas foram enterradas com cuidado, em posições específicas, o que indica um valor que ia além das penas.

Para os autores, capturar, transportar e criar araras, papagaios e periquitos fazia parte do sistema de abastecimento de bens de luxo, motivado pela importância dessas aves na produção e na representação de riqueza e de relações entre pessoas e grupos.

Uma rede que cruzava os Andes

A descoberta reforça a imagem de uma Amazônia conectada a outras regiões muito antes dos europeus. Produtos da floresta, como penas, plantas medicinais e alimentos, circulavam por redes de troca que atravessavam a cordilheira. Para levar uma arara viva da floresta até o deserto, era preciso conhecimento sobre o manejo das aves e uma logística capaz de mantê-las alimentadas ao longo de dias de viagem por terrenos de grande altitude.

As espécies envolvidas

Os grupos de aves identificados, como araras, papagaios do gênero Amazona e jandaias, também vivem no Brasil, na Amazônia e em outras regiões tropicais da América do Sul. Até hoje, as penas dessas aves têm valor cultural para muitos povos indígenas amazônicos, que as usam em cocares e objetos rituais.

Um paralelo incômodo

O estudo também lembra que a retirada de papagaios da natureza é uma prática antiga. Hoje, o tráfico de animais silvestres continua sendo uma das principais ameaças a araras e papagaios no Brasil, com milhares de filhotes tirados dos ninhos todos os anos para abastecer o comércio ilegal. A diferença é que, no passado, as aves eram parte de sistemas culturais e de troca; hoje, a captura em larga escala ameaça a sobrevivência de várias espécies.

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