
Tecnologia desenvolvida pela Embrapa Ceará aproveita caroços descartados e pode reduzir o uso de fertilizantes convencionais.

Um nanofertilizante produzido a partir do caroço do açaí aumentou em 164% o crescimento relativo do sorgo e em 24% o do milho em testes de laboratório realizados pela Embrapa Agroindústria Tropical, no Ceará, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC). A pesquisa, divulgada em 7 de agosto de 2026, utilizou uma dose controlada do produto em variedades recomendadas para o semiárido e busca transformar um resíduo agroindustrial abundante em insumo agrícola de maior valor.
O estudo foi conduzido com as variedades de milho BRS-Gorutuba e sorgo 2502, submetidas à aplicação de 10 miligramas do nanofertilizante por litro. Em comparação com plantas não tratadas, o volume das raízes cresceu 23% no milho e 59% no sorgo. O desenvolvimento do sistema radicular é considerado relevante para culturas submetidas à baixa disponibilidade de água, porque amplia a capacidade de exploração do solo.
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Fóssil de réptil marinho preserva trato digestivo de 245 milhões de anosComo o produto é produzido
O ponto de partida da tecnologia é o pó obtido da semente do açaí. Para cada tonelada de frutos processados na extração da polpa, são gerados cerca de 700 quilos de caroços, que frequentemente têm baixo aproveitamento econômico ou são descartados de maneira inadequada.
Esse material passa por um processo de síntese hidrotermal, realizado com altas temperaturas e pressão em reatores. O resultado são nanopartículas fluorescentes conhecidas como pontos quânticos de carbono, com aproximadamente quatro nanômetros de diâmetro. A escala nanométrica permite que o produto interaja com os tecidos vegetais em dimensões muito menores que as de fertilizantes convencionais.
De acordo com a Embrapa Agroindústria Tropical, as partículas podem penetrar nos tecidos das folhas e facilitar a entrega de nutrientes minerais no nível celular. A proposta é aumentar a eficiência da absorção e reduzir perdas associadas à aplicação de fertilizantes foliares tradicionais.
Partículas podem estimular a fotossíntese
Dentro das plantas, os pontos quânticos de carbono atuam como estruturas capazes de captar radiação ultravioleta e emitir luz azul. Segundo os pesquisadores, essa propriedade pode estimular o sistema fotoquímico das folhas e contribuir para o aumento da eficiência da fotossíntese.
As nanopartículas também participam de processos de transferência de energia dentro das células e fornecem compostos bioativos que podem estimular a atividade de enzimas relacionadas à resposta aos estresses oxidativos. Esses mecanismos ajudam a explicar os resultados observados no crescimento da parte aérea e das raízes, mas ainda dependem de avaliações em condições mais próximas das lavouras.
“Em comparação com os fertilizantes convencionais, os nanofertilizantes geralmente resultam em menos escoamento superficial e menor contaminação dos solos e corpos d’água, tornando-os potencialmente mais sustentáveis”, afirmou Cláudio Carvalho, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical.
Segundo a Embrapa, os resultados foram obtidos em ambiente de laboratório e não significam, neste momento, que o produto já esteja disponível para uso comercial amplo. Ensaios de campo, avaliação de segurança, padronização industrial e adequação às exigências regulatórias ainda são necessários.
Entenda o caso
O caroço do açaí é uma biomassa rica em componentes minerais e pode ser reaproveitado em diferentes aplicações. Na pesquisa, o resíduo foi convertido em nanopartículas de carbono com potencial de atuação sobre a absorção de nutrientes e o metabolismo das plantas.
A iniciativa também dialoga com um desafio presente na Amazônia, onde o processamento do açaí gera grandes volumes de caroços em estados como Pará, Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima e Tocantins. O aproveitamento desse material pode reduzir o descarte e criar novas possibilidades para cadeias produtivas locais, desde que a coleta, a logística e o processamento sejam economicamente viáveis.
Resíduo pode voltar para a produção
Para Cláudio Carvalho, a semente do açaí funciona como um “kit de sobrevivência natural”, por reunir nutrientes necessários ao estabelecimento da planta. O pesquisador avalia que o uso agrícola do material pode agregar valor à biomassa e devolver parte dos nutrientes minerais, especialmente micronutrientes, às áreas de produção.
“Esse é um destino nobre, que agrega valor à biomassa e, ao mesmo tempo, devolve pelo menos parte dos nutrientes minerais, principalmente micronutrientes, às áreas de produção, economizando em fertilizantes”, afirmou Carvalho.
O professor Pierre Fechine, coordenador do Laboratório do Grupo de Química de Materiais Avançados da UFC, destacou que o Brasil produz grandes quantidades de resíduos agroindustriais. Na avaliação dele, a disponibilidade de matéria-prima pode favorecer o desenvolvimento de soluções de baixo custo, embora a transformação de um processo de laboratório em uma linha industrial apresente obstáculos técnicos.
“Em laboratório, trabalhamos com pequenas quantidades e controle rigoroso das condições de síntese. Em uma fábrica, é necessário garantir que cada lote apresente as mesmas propriedades químicas, ópticas e biológicas”, explicou Fechine.
Próximas etapas da pesquisa
O grupo pretende testar o nanofertilizante em outras culturas, como feijão, batata-doce, abóbora, hortaliças e mudas de açaizeiro. Também está prevista a avaliação do produto na própria cultura do açaí, em viveiros, cultivos protegidos e outras etapas de produção.
Entre os desafios estão a manutenção da qualidade e da reprodutibilidade do material, a redução dos custos de energia e purificação, além da organização da logística de coleta dos caroços. Os pesquisadores também apontam a necessidade de ampliar os estudos regulatórios e de segurança antes de uma eventual aplicação agrícola em larga escala.
Segundo a Embrapa, os resultados da pesquisa foram publicados na revista internacional Dyes and Pigments. A equipe deve avançar agora para novos testes com culturas e condições de cultivo diferentes, etapa necessária para avaliar o desempenho e a viabilidade comercial da tecnologia.
Perguntas frequentes
O que é o nanofertilizante de açaí?
É um produto experimental produzido a partir do pó do caroço do açaí. O material é convertido em pontos quânticos de carbono, nanopartículas que podem atuar na absorção de nutrientes e nos processos fotossintéticos das plantas.
O produto já pode ser usado nas lavouras?
Não há indicação de uso comercial amplo neste momento. A tecnologia ainda precisa passar por testes de campo, estudos de segurança, padronização industrial e avaliações regulatórias.
Quais culturas foram testadas?
Os primeiros testes foram realizados com milho BRS-Gorutuba e sorgo 2502. A equipe pretende avaliar também feijão, batata-doce, abóbora, hortaliças e mudas de açaizeiro.
Com informações de Embrapa Agroindústria Tropical.
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