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Trilhões de neutrinos atravessam seu corpo por segundo, enquanto múons vindos do espaço chegam à superfície

Trilhões de neutrinos atravessam seu corpo por segundo, enquanto múons vindos do espaço chegam à superfície
Foto: Curly_photo via Getty Images)

Partículas invisíveis cruzam pessoas em todos os continentes e ajudam a revelar como a atmosfera protege a vida.

Seu corpo está sendo atravessado neste instante por partículas que vieram do espaço e que você provavelmente jamais sentirá. A cada segundo, uma estimativa indica que cerca de 100 trilhões de neutrinos cruzam uma pessoa, enquanto dezenas ou centenas de múons, criados no alto da atmosfera, também podem atingir o organismo. O fenômeno ocorre continuamente, inclusive sobre a Amazônia, porque a principal barreira entre essas partículas e a superfície é a atmosfera terrestre.

Neutrinos são partículas subatômicas extremamente difíceis de detectar. Eles quase não interagem com a matéria comum e, por isso, atravessam pessoas, animais, solo e até o planeta praticamente sem desviar. A maioria se desloca sem produzir qualquer efeito perceptível no caminho.

O fluxo invisível que vem do Sol

A maior parte dos neutrinos que atravessa o corpo humano nasce dentro do Sol. As reações de fusão nuclear que mantêm a estrela brilhando também produzem essas partículas, que viajam em todas as direções e chegam à Terra continuamente.

Uma parcela menor tem origem muito mais distante. Neutrinos também podem ser produzidos por processos nucleares em outras regiões do Universo, inclusive fora da galáxia. Como interagem tão pouco com a matéria, eles conseguem percorrer enormes distâncias sem serem absorvidos ou desviados com facilidade.

Segundo a Live Science, aproximadamente 100 trilhões de neutrinos passam pelo corpo de cada pessoa a cada segundo em 30 de agosto de 2026, conforme estimativa apresentada por Michael Pravica, professor de física da Universidade de Nevada, em Las Vegas.

A quantidade parece gigantesca, mas o número não significa que exista uma concentração de partículas presa dentro do organismo. O fluxo é permanente: neutrinos entram e saem quase imediatamente, como se o corpo fosse transparente para eles. Essa característica também faz dessas partículas ferramentas importantes para estudar o interior do Sol e eventos extremos do Universo.

Quando o raio cósmico encontra o ar

Os neutrinos não são os únicos visitantes espaciais. A Terra também recebe raios cósmicos, formados principalmente por prótons e núcleos de átomos mais pesados, como hélio e ferro. Elétrons e pósitrons, a versão de antimatéria dos elétrons, representam uma fração menor desse conjunto.

Essas partículas chegam de várias direções e viajam em velocidades próximas à da luz. Algumas são produzidas pelo Sol, mas a maioria vem de fora do Sistema Solar. Explosões de estrelas, matéria atraída por buracos negros supermassivos e colisões entre galáxias estão entre os fenômenos associados à origem dos raios cósmicos.

Antes de alcançarem o chão, muitos deles encontram moléculas de ar em grandes altitudes. O choque não faz a partícula simplesmente desaparecer. Em vez disso, desencadeia uma cascata de partículas secundárias, que se espalham pela atmosfera e podem chegar até a superfície.

Por que a mão recebe um ou dois múons por segundo

Entre os produtos dessas colisões estão os múons, partículas eletricamente carregadas parecidas com elétrons, mas com massa mais de 200 vezes maior. Eles vivem por pouco tempo, porém se movem tão rapidamente que conseguem atravessar a atmosfera e alcançar pessoas no solo.

De acordo com Lu Lu, professora assistente de física da Universidade de Wisconsin-Madison, aproximadamente um múon atravessa uma área de um centímetro quadrado ao nível do mar a cada minuto. Para o corpo inteiro, isso corresponde a dezenas ou centenas de passagens por segundo. Em uma mão, a estimativa fica em torno de um ou dois múons por segundo.

A diferença entre neutrinos e múons ajuda a entender por que não existe um único número simples para responder quantas partículas cósmicas estão passando pelo corpo. Neutrinos chegam em quantidade imensamente maior e quase nunca interagem. Múons são muito menos numerosos, mas podem deixar rastros detectáveis porque carregam carga elétrica e colidem com a matéria.

Detectores instalados em laboratórios e observatórios registram essas passagens por meio da energia e das marcas deixadas pelas partículas. A observação dos múons também permite estudar a intensidade dos raios cósmicos e o comportamento das cascatas formadas na atmosfera.

A floresta não é o escudo, a atmosfera é

Para quem vive na Amazônia, o fenômeno acontece da mesma forma geral que em outras partes do planeta. Moradores de Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins estão sob o mesmo fluxo contínuo de partículas vindas do espaço. A floresta, os rios e as cidades não bloqueiam os neutrinos; a proteção essencial vem das camadas de ar acima da superfície.

Essa conexão ajuda a separar dois elementos que costumam ser confundidos. O espaço bombardeia a Terra o tempo todo, mas a atmosfera funciona como um filtro natural, impedindo que muitas partículas primárias cheguem diretamente ao solo. Ao mesmo tempo, ela transforma parte da radiação cósmica em partículas secundárias, como os múons, que conseguem atravessar o caminho restante.

Isso também explica por que a experiência humana não corresponde ao tamanho dos números. Uma pessoa não sente os 100 trilhões de neutrinos que passam por seu corpo, nem percebe conscientemente os múons que atravessam sua mão. O fluxo é invisível e, na maior parte dos casos, não provoca sensação imediata.

Um retrato do Universo que passa por nós

O estudo dessas partículas transforma o corpo humano em uma espécie de ponto de observação cósmica. Os neutrinos carregam informações sobre reações nucleares no Sol e sobre acontecimentos distantes, enquanto os múons revelam como os raios cósmicos interagem com a atmosfera terrestre.

A presença dessas partículas também mostra que a Terra não está isolada do restante do Universo. Mesmo protegida por uma camada atmosférica essencial à vida, ela permanece em contato constante com fenômenos que começaram a acontecer a milhões ou bilhões de quilômetros daqui.

A reportagem que reúne as estimativas foi publicada pela Live Science em 30 de agosto de 2026, com informações de pesquisadores da Universidade de Nevada, em Las Vegas, e da Universidade de Wisconsin-Madison. O acompanhamento de neutrinos e raios cósmicos deve continuar sendo usado para investigar tanto o funcionamento do Sol quanto os eventos mais violentos do espaço.

Com informações de Live Science.

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