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Archaeopteryx precisava de dois ou três saltos para voar, sugere estudo sobre a primeira ave

Archaeopteryx precisava de dois ou três saltos para voar, sugere estudo sobre a primeira ave
Foto: aventurasnahistoria.com.br

Modelo baseado em aves atuais indica como limitações no ombro e no peito mudaram a decolagem há 150 milhões de anos.

Modelo do Archaeopteryx, uma das primeiras aves conhecidas
Modelo do Archaeopteryx, uma das primeiras aves conhecidas. Crédito: Divulgação/Karen Fawcett.

Em vez de saltar uma única vez e desaparecer no ar, o Archaeopteryx pode ter precisado repetir o movimento antes de conseguir voar. Um estudo publicado na revista Developmental Biology sugere que essa ave primitiva, que viveu há cerca de 150 milhões de anos, usava dois ou três saltos com as patas traseiras para alcançar a velocidade mínima de voo, em uma decolagem diferente daquela observada na maioria das aves modernas.

A reconstrução foi feita por pesquisadores que combinaram modelagem computacional, análise da musculatura e observações de aves vivas. O resultado ajuda a explicar uma questão ainda debatida na paleontologia: como um animal com asas e penas, mas também com várias características de dinossauro, conseguia sair do chão.

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Uma ave com limitações que desapareceram ao longo da evolução

O Archaeopteryx ocupa uma posição central na história evolutiva das aves. Seus fósseis apresentam penas e asas, mas também revelam uma longa cauda óssea, garras em dedos separados e dentes em uma mandíbula sem bico. Por isso, o animal é frequentemente descrito como uma forma de transição entre dinossauros não avianos e aves.

Essa combinação, porém, não significa que ele fosse simplesmente uma ave moderna em escala reduzida. De acordo com a Universidade de Southampton, o animal tinha mobilidade limitada na articulação do ombro e não possuía esterno, o osso localizado no centro do peito. Também faltava a quilha, uma estrutura óssea importante para a fixação dos músculos responsáveis pelo movimento das asas em muitas aves atuais.

Segundo a Universidade de Southampton, o Archaeopteryx poderia alcançar a velocidade mínima de voo sustentável, estimada em 7 metros por segundo, após dois ou três saltos bípedes, há aproximadamente 150 milhões de anos. A conclusão é uma estimativa biomecânica, não uma observação direta do comportamento do animal.

Entenda o caso

O estudo reconstruiu as camadas musculares de aves atuais e aplicou os dados à anatomia conhecida do Archaeopteryx. Foram considerados os movimentos do quadril, dos joelhos e dos tornozelos, além da força disponível para impulsionar um corpo de aproximadamente 400 gramas.

O modelo indica que três saltos poderiam ser suficientes para atingir a velocidade necessária. Outra possibilidade seria realizar dois saltos acompanhados por um movimento descendente das asas entre eles. A hipótese torna a decolagem mais parecida com uma sequência coordenada de impulsos do que com um salto único.

O que os pesquisadores reconstruíram

A equipe utilizou como base estudos do falecido paleobiólogo Colin Palmer, combinando simulações digitais com observações de gaivotas, pegas, corvos e tentilhões. Essas espécies foram usadas para compreender como diferentes articulações e grupos musculares participam do momento em que uma ave deixa o solo.

O foco recaiu principalmente sobre as patas traseiras. Como o ombro do Archaeopteryx não permitiria que as asas fossem projetadas para além das costas com a mesma amplitude das aves atuais, as pernas teriam assumido uma parcela maior do trabalho. O impulso repetido ajudaria a compensar a menor eficiência das asas e a ausência de uma quilha no esterno.

Para um indivíduo de tamanho médio e massa estimada em 400 gramas, os cálculos apontaram uma velocidade de voo sustentável de 7 metros por segundo, equivalente a 25,2 quilômetros por hora. Segundo Erik Meilak, ex-pesquisador de doutorado da Universidade de Southampton e autor do estudo, essa marca poderia ser alcançada com três saltos bípedes ou com dois saltos e uma batida descendente das asas.

“Nossas descobertas mostram que um Archaeopteryx de tamanho médio e 400 g poderia ter alcançado uma velocidade de voo sustentável de 7 metros por segundo com três saltos bípedes, ou com dois saltos bípedes com um movimento descendente entre os saltos”, afirmou Erik Meilak.

A consequência: o voo pode ter começado no chão

A principal consequência da pesquisa é deslocar o debate sobre a origem do voo. Em vez de imaginar que os primeiros pássaros precisavam necessariamente cair de árvores ou lançar-se de galhos, o modelo sustenta que o Archaeopteryx poderia decolar a partir do solo, usando a potência das pernas e uma sequência de pequenos saltos.

Isso não resolve todas as dúvidas. A fossilização raramente preserva músculos, tendões e movimentos, e a anatomia real do animal continua sendo inferida a partir de ossos, penas e comparações com espécies vivas. Além disso, modelos computacionais dependem de premissas sobre massa corporal, força muscular, equilíbrio e amplitude das articulações.

A própria comparação com aves atuais exige cautela. Corvos, gaivotas e outras espécies podem dar pequenos pulos antes de bater as asas, sobretudo quando não estão sob ameaça imediata. Esse comportamento pode reduzir o gasto de energia ou facilitar a partida, mas não prova que o Archaeopteryx executava exatamente a mesma sequência.

O que o estudo acrescenta à história das aves

A pesquisa ajuda a preencher uma lacuna entre a posse de asas e a capacidade de voar com eficiência. Ter penas não significava dominar, desde o início, a decolagem, a sustentação e o controle no ar. A evolução do voo provavelmente ocorreu por etapas, com mudanças graduais no ombro, no esterno, na musculatura e no equilíbrio do corpo.

Para a paleontologia brasileira, o debate também oferece uma referência para interpretar fósseis de dinossauros emplumados e aves primitivas encontrados em diferentes regiões do país. Embora o Archaeopteryx não tenha vivido na Amazônia, a investigação sobre a origem do voo contribui para compreender a diversificação das aves que hoje ocupam ambientes amazônicos, do sub-bosque das florestas do Acre e de Rondônia às várzeas do Amazonas, do Pará, do Amapá, de Roraima e do Tocantins.

O estudo foi publicado em 2026 na revista Developmental Biology. A íntegra do artigo pode ser consultada na publicação científica sobre a biomecânica do voo do Archaeopteryx. Novas simulações e comparações com fósseis mais completos poderão testar se a sequência de saltos era a única estratégia possível ou apenas uma das formas de decolagem usadas por essa ave primitiva.

Perguntas frequentes

O Archaeopteryx era uma ave?

Ele é considerado uma das primeiras aves conhecidas e um importante elo evolutivo entre dinossauros não avianos e aves. Ao mesmo tempo, preservava características de dinossauro, como dentes, garras e cauda óssea.

Quantos saltos eram necessários para o voo?

O modelo sugere dois ou três saltos bípedes. Outra possibilidade seria combinar dois saltos com uma batida descendente das asas entre eles.

O estudo prova como o animal voava?

Não. A conclusão é uma hipótese apoiada por modelagem computacional, anatomia fóssil e comparação com aves atuais. A ausência de músculos preservados impede uma confirmação direta.

Os próximos estudos deverão comparar novas reconstruções anatômicas e fósseis para avaliar com maior precisão como os primeiros pássaros deixavam o chão.

Com informações da Universidade de Southampton.

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