
Pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, combinam satélites, aprendizado de máquina e modelagem de sombra para indicar, quarteirão por quarteirão, onde novas árvores rendem mais alívio térmico e onde não há espaço para elas.
Na cidade canadense de Kelowna, apenas 20% da área analisada concentra 50,8% de todo o ganho de sombra que novas árvores poderiam oferecer. O número vem de um estudo da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) publicado na edição de novembro de 2026 do periódico Urban Forestry & Urban Greening, e resume uma ideia que começa a mudar o planejamento urbano: nem toda sombra tem o mesmo valor, e nem todo bairro tem lugar para mais árvores.
Muitas cidades que tentam refrescar ruas escaldantes adotam metas genéricas de cobertura arbórea, do tipo plantar até atingir certo percentual do território. Dois trabalhos complementares da equipe da professora Melissa McHale, da Faculdade de Silvicultura e Gestão Ambiental da UBC, propõem um caminho mais preciso. O primeiro localiza as ilhas de calor com detalhe de quarteirão. O segundo aponta onde é possível plantar e onde a sombra fará mais diferença.
“As cidades muitas vezes sabem que precisam de mais copa de árvores, mas ainda têm de decidir exatamente onde o plantio é possível e onde a sombra fará a maior diferença”, afirmou McHale, autora sênior dos dois estudos. “Juntas, essas abordagens nos levam de metas amplas, para a cidade inteira, a decisões na escala das ruas e dos bairros onde as pessoas de fato sentem o calor.”
Mapas térmicos de satélite dão uma visão de conjunto da temperatura da superfície, mas costumam ter resolução grosseira para o planejamento de rua. No padrão mais usado, cada pixel cobre 30 por 30 metros e mistura, numa única média, telhados, asfalto, gramados e copas de árvores.
No primeiro estudo, publicado em setembro de 2026 no periódico Remote Sensing e liderado por Evan Shea, da UBC, os pesquisadores usaram um modelo de aprendizado de máquina de código aberto, do tipo floresta aleatória, para refinar as imagens térmicas dos satélites Landsat 8 e 9 com dados do Sentinel-2. O resultado foram mapas com pixels de 10 metros, produzidos a partir de 21 passagens do Landsat e 37 imagens do Sentinel-2 feitas no verão de 2023.

O ganho de detalhe foi grande. A variação de temperatura dentro de cada célula de análise ficou, na mediana, 4,7 vezes maior. Com a imagem convencional, os pontos quentes apareciam como grandes manchas de cerca de 18 mil metros quadrados. No mapa de 10 metros surgiram focos de apenas 700 metros quadrados, o tamanho aproximado de um lote residencial grande.
Para verificar se o detalhe novo era real, e não ruído digital, a equipe comparou os mapas com um levantamento independente da cobertura do solo. A proporção de copas, prédios, vegetação baixa e superfícies impermeáveis explicou 65,5% da variação térmica adicional. Os autores ressalvam que temperatura de superfície não é o mesmo que temperatura do ar, mas destacam que o método usa dados gratuitos e pode ser replicado por outras prefeituras.

Encontrar o calor é só metade do problema. No segundo estudo, liderado por Benjamin Nixon, a equipe aplicou o CanopyFit, modelo concebido por McHale e desenvolvido com o Laboratório de Ecologia Urbana e Sustentabilidade da UBC e parceiros municipais. A ferramenta exclui primeiro as áreas onde não se pode plantar, como edifícios, campos esportivos, redes subterrâneas, faixas de proteção contra incêndios florestais e ecossistemas sensíveis. Depois cruza o potencial de sombra com a exposição ao calor e com indicadores sociais e econômicos da população.
Em Kelowna, cidade de clima semiárido com cerca de 170 mil habitantes, o modelo encontrou espaço para 248 hectares de nova copa madura. A oportunidade, porém, é muito desigual e se concentra em poucas áreas.
A análise também separa os bairros por tipo de solução. Há áreas em que calor intenso e maior vulnerabilidade social coincidem com espaço de sobra para plantar, onde novas árvores dariam retorno particularmente alto. Em outras, o calor e a necessidade são grandes, mas quase não há lugar para árvores. Ali, os autores sugerem alternativas como retirar asfalto, mudar regras de construção ou instalar estruturas de sombreamento.

“As cidades têm espaço e recursos limitados para o plantio, então precisamos ser estratégicos”, disse McHale. “O objetivo é estabelecer e manter árvores grandes e saudáveis onde o resfriamento e os outros benefícios delas são mais necessários. Onde o ambiente construído deixa pouco espaço para árvores, os resultados podem ajudar as cidades a identificar as barreiras ao plantio e a avaliar outras formas de oferecer sombra.”
Como as duas ferramentas usam estruturas adaptáveis e dados amplamente disponíveis, os pesquisadores afirmam que outros municípios podem combiná-las com dados locais para montar suas próprias estratégias contra o calor urbano.
Fotos: Shea et al. (2026), Remote Sensing, Northwest e Melissa McHale
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