Sal do mar sobe o rio Pará até Belém, e a maré é quem leva

Sal do mar sobe o rio Pará até Belém, e a maré é quem leva
Foto: Márcio Morais Silva, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0 (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mangue_na_Praia_de_Soure,_Maraj%C3%B3_-_PA.JPG). Manguezal na praia de Soure, Ilha do Marajó (PA), 15/12/2015.

A água salgada do Atlântico sobe o estuário do rio Pará empurrada pela maré e, na estiagem, chega a cerca de 100 km da foz, segundo tese de doutorado da Universidade Federal do Pará (UFPA). Sensores instalados em Belém registraram água salobra entre dezembro e janeiro. O avanço varia com a estação, por causa da vazão dos rios, e com o dia, por causa da força das marés.

Não é o mar “invadindo” a cidade. É uma mistura gradual, que mexe com poços, captações e açaizais, e que os cientistas separam da subida global do mar e da erosão da costa.

O caminho do sal estuário acima

A tese é de Renan Peixoto Rosário, orientada por Marcelo Rollnic e defendida em 2016. Entre 2014 e 2016, sensores mediram condutividade e nível da água em Colares e em Joanes, no município de Salvaterra, ambas a cerca de 60 km da foz, e em Belém, a cerca de 120 km.

Segundo o trabalho, o transporte de Stokes, gerado pela propagação da onda de maré, é a parcela responsável por levar o sal estuário acima. Na baixa vazão, o limite da água salobra ficou a cerca de 100 km da foz no canal principal e a cerca de 120 km na estação de Belém. O critério é a salinidade de 0,5 grama por quilo.

É água pouco salgada. Numa medição de outubro de 2015, a cerca de 100 km da foz, a salinidade variou de 0 a 1,6 g/kg. Na modelagem do mesmo trabalho, o mar aberto entra com 35 PSU, unidade prática de salinidade.

Três fenômenos, três causas

Subida global do mar. Segundo o IPCC, em relatório de 2021, o nível médio global subiu 20 centímetros entre 1901 e 2018, com ritmo de 3,7 mm por ano entre 2006 e 2018. Para 2100, em relação a 1995 a 2014, o painel projeta de 28 a 55 cm no cenário de emissões muito baixas e de 63 cm a 1,01 m no de emissões muito altas.

Erosão local. Em Jubim, em Salvaterra, estudo da UFPA publicado em 6 de agosto de 2025 comparou imagens de satélite de 1990 a 2023 e encontrou recuo linear médio de 35,24 metros, contra avanço médio de 15,10 metros. Os autores escrevem que processos naturais do estuário predominam na mudança da costa. Já a geógrafa Renata Jordan Henriques, da Universidade Federal de Minas Gerais, disse à Pesquisa FAPESP, em setembro de 2024: “As praias ao sul da ilha passaram por uma erosão marinha intensa nos últimos 40 anos, indicando a elevação do nível do mar na região”.

Intrusão salina por vazante. É o mecanismo descrito acima: com menos água doce descendo, a maré leva o sal mais longe.

O que a seca de 2024 deixou em Soure

Estudo do Instituto Evandro Chagas e da Universidade da Amazônia, publicado em 2025 na Revista Pan-Amazônica de Saúde, analisou as praias do Pesqueiro e da Barra Velha, em Soure, em julho e setembro de 2024. A condutividade elétrica, indicador de salinidade, variou de 17.490 a 25.420 µS/cm. Cloreto e sulfato ficaram acima de 250 mg/L em todas as amostras.

Os autores lembram que, em águas costeiras, tais valores refletem sobretudo a salinidade natural, e levantam a hipótese de que a estiagem de 2024 ampliou a entrada de água do mar. São amostras de praia, não de água de beber.

Sobre poços, um trabalho de iniciação científica da Universidade do Estado do Pará, apresentado no 48º Congresso Brasileiro de Química, em 2008, coletou água subterrânea em Ponta de Pedras, Muaná e Soure. Segundo os autores, seis poços, três em Ponta de Pedras e três em Soure, tinham cloreto compatível com águas salobras do estuário, intrusão “pouco pronunciada”. A exceção foi um poço de várzea no Marahu, na Ilha de Mosqueiro, em Belém, com condutividade próxima de 19.000 µS/cm, a maior do estudo.

Açaizal e manguezal na linha de frente

Estudo publicado em 22 de junho de 2026 nos Cadernos de Agroecologia expôs mudas de açaí a salinidades de 0 a 6 dS/m. Houve tolerância até 3 dS/m e queda acentuada de pigmentos a 6. É teste com mudas, não medição em açaizal.

Segundo a Ambiental Media, em reportagem de 3 de outubro de 2023, famílias extrativistas de Afuá percebem menos açaí e mudança nas safras. O texto não atribui causa. Kildren Pantoja, cientista socioambiental que visita os pais em Salvaterra, disse à reportagem: “A água está muito mais salgada do que antes, os peixes estão mudando”. É percepção, não medição.

Quem acompanha e como

No Amapá, do outro lado da foz do Amazonas, o Observatório Popular do Mar (Omara), criado por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá e da Universidade do Estado do Amapá, mede erosão e salinização com ciência cidadã. Segundo a InfoAmazonia, em reportagem reproduzida pelo ConectAmapá em 20 de setembro de 2026, há medições em 11 comunidades desde 2022.

A reportagem traz análise de Guilherme Couto com modelo do programa europeu Copernicus: na foz, o mar subiu 4,13 mm por ano entre 1995 e 2025, ou 12,4 cm em 31 anos. É dado do lado amapaense: serve de paralelo, não de medida do Pará.

No Marajó, a lacuna é de dados. “É um deserto de dados”, disse à Ambiental Media Mariane Castro, moradora de Muaná e gestora de comunicação do Observatório do Marajó.

Entenda

Subida do mar é o aumento do nível médio dos oceanos, ao longo de décadas. Erosão é o recuo da margem pela ação de ondas e marés. Intrusão salina é a entrada de água salobra rio adentro, que cresce quando a vazão cai e a maré empurra.

Marajó vai afundar?

Em 8 de maio de 2024, O Liberal noticiou um mapa da Climate Central com cenário de 5 metros de subida. A geógrafa Luziane Mesquita da Luz, da UFPA, ponderou: “Esse mapa extrapolou muito, porque o Marajó tem áreas que são altas”. Segundo ela, “Ele não afundaria todo, mas as planícies, sim”.

O IPCC ressalva que uma subida próxima de 2 m até 2100 e de 5 m até 2150, no cenário mais extremo, não pode ser descartada, com baixa confiança. Isso está bem acima da faixa provável para 2100, de até 1,01 m.

O que já se mede é o sal que vai e volta com a maré e com as estações. A tese da UFPA situa a baixa vazão entre julho e dezembro. Acompanhar esses meses, com sensores e moradores, é o caminho para separar quanto do avanço vem do rio e quanto vem do mar.

Com informações de UFPA (tese de Renan Peixoto Rosário, 2016), IPCC (AR6, 2021), Pesquisa FAPESP, Revista Pan-Amazônica de Saúde, Revista Brasileira de Geografia Física, Cadernos de Agroecologia, Ambiental Media, O Liberal, InfoAmazonia e ConectAmapá.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA