
Relato de viagem a bordo do Grand Amazon Expedition mostra como renda do turismo e presença das comunidades podem se somar à proteção da Amazônia.
Um barco, sete dias e dois dos rios mais famosos do planeta: foi com esse roteiro que o jornalista Reinaldo Canto, especialista em sustentabilidade, saiu para conferir de perto uma pergunta que divide opiniões. Turistas ajudam ou atrapalham a floresta? A bordo do Grand Amazon Expedition, ele passou quatro dias no Rio Negro e três no Solimões, entre caminhadas na mata, observação de animais e visitas a comunidades, e voltou com uma resposta cheia de ressalvas, mas favorável ao turismo bem planejado.
Do barco à trilha: o que se vê no caminho
O percurso combinou navegação, trilhas e encontros com moradores. As águas escuras do Rio Negro e o cenário do Solimões compõem paisagens distintas, e a vegetação muda conforme a embarcação avança.
Nas trilhas, a floresta deixa de ser abstração. Jacarés, botos e uma grande variedade de pássaros aparecem como parte do cotidiano, e não como foto de livro. Segundo o relato, esse contato direto pesa ainda mais para quem vive fora da região, sobretudo visitantes estrangeiros, que costumam ver a Amazônia como um lugar distante e exuberante, mas pouco compreendido em sua dimensão social.

Canto lembra que a imagem da floresta chega ao grande público quase sempre por meio de notícias sobre desmatamento, queimadas, garimpo ilegal e mudanças climáticas. São problemas reais, diz ele, que precisam seguir no centro do debate. Mas estar lá também ajuda a enxergar o que vale a pena proteger.
A lógica de uma floresta que gera renda
Quem explica a conta é Samir Zen, guia naturalista do Grand Amazon, que trabalha há cerca de 15 anos com turismo na região. “O turismo é um vetor de preservação”, afirma. A ideia é simples: quando a mata conservada vira atração, ela passa a render dinheiro a quem vive no entorno.
Em vez de depender só da retirada de recursos naturais, os moradores podem guiar visitantes por trilhas, repassar conhecimentos sobre a floresta e vender artesanato. Todos têm interesse na floresta de pé: o visitante quer uma mata preservada, a operadora depende da qualidade da experiência e a comunidade pode lucrar mantendo o ambiente.

O próprio relato faz um alerta importante. O turismo, por si só, não garante preservação. Ele precisa ser planejado, respeitar limites ambientais, os territórios e as decisões das comunidades, e garantir que parte dos benefícios chegue de fato a quem mora ali.
A aldeia Kambeba a 70 quilômetros de Manaus
Um dos pontos altos da viagem foi a visita ao assentamento indígena Kambeba, às margens do Rio Negro, a cerca de 70 quilômetros de Manaus. Ali, Samir citou as fontes de sustento da comunidade: o apoio da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), a visita de grupos de turistas e a venda de artesanato.
Essas atividades se somam a práticas tradicionais, como a pesca para consumo próprio, a agricultura familiar e a coleta sustentável de recursos da floresta. O guia descreve a mata como uma espécie de farmácia e supermercado dos moradores.

Para ele, essa dependência explica parte da proteção. Quem precisa do ambiente preservado para viver tem motivos concretos para defendê-lo, e o conhecimento passado de geração em geração ajuda a reconhecer ciclos naturais e a definir formas de uso que respeitam os limites do ecossistema.
Gente que protege lugares
Na avaliação de Samir, as comunidades também têm papel diante da grilagem e da pressão sobre terras públicas. Ao permanecer nos territórios e defender as áreas de que dependem, povos indígenas e populações tradicionais podem ajudar a conter a ocupação irregular e a destruição da mata.
“Quem tem que ser preservado são as pessoas, porque as pessoas preservam lugares”
A frase, atribuída ao guia, resume o argumento central do texto: fiscalização, leis e dinheiro são indispensáveis, mas a proteção da floresta também passa por reconhecer direitos territoriais, fortalecer comunidades e garantir que elas mantenham seus modos de vida com dignidade.
O que fica depois que o barco volta ao porto
Segundo Reinaldo Canto, a viagem pelo Rio Negro e pelo Solimões mostra que a Amazônia não cabe na ideia de paisagem grandiosa ou destino de aventura. A riqueza que impressiona o visitante depende de proteger tanto os ambientes quanto as pessoas que os mantêm vivos.
Para o colunista, a experiência só faz sentido se não terminar no desembarque. A consciência ambiental ganha valor quando vira escolha: apoiar iniciativas responsáveis, valorizar povos indígenas e tradicionais e cobrar políticas públicas efetivas de proteção da floresta. O desafio agora é medir, em cada roteiro, quanto do que o turista paga realmente chega às comunidades.
Com informações de Envolverde.
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