Moradores de reserva no Pará chamam libélulas de jacintas, e 415 entrevistas mostram que 98% gostam delas e veem chance de turismo

Moradores de reserva no Pará chamam libélulas de jacintas, e 415 entrevistas mostram que 98% gostam delas e veem chance de turismo
Foto: acervo

Estudo com a UFPA e a Ufopa ouviu comunidades da Resex Tapajós-Arapiuns e aponta o entomoturismo como caminho para renda e conservação.

Nas margens dos rios e igarapés da Resex Tapajós-Arapiuns, no oeste do Pará, existe um inseto de asas coloridas que quase todo morador conhece, mas por outro nome: jacinta. É assim que as libélulas e donzelinhas são chamadas na região, e uma pesquisa que ouviu 415 pessoas entre Santarém e Aveiro mostra que elas podem virar atração de um tipo de turismo ainda pouco explorado, o de observação de insetos.

O estudo foi liderado pela bióloga Mayerly Alexandra Guerrero-Moreno e pelo professor José Max Oliveira-Júnior, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), com coassinatura do professor Leandro Juen, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal do Pará (UFPA). O artigo está em acesso aberto no volume 55 da revista Global Ecology and Conservation.

Um inseto que todo mundo conhece pelo apelido

Segundo a pesquisa, 98,55% dos moradores, indígenas e não indígenas, reconhecem o inseto, mas o chamam de jacina ou jacinta. Na língua tupi, o termo significa “borboleta marrom com asas azuis-claras”.

Para os autores, “o nome popular parece coincidir com a descrição de algumas espécies do gênero Zenithoptera, que possuem corpos marrons com asas azuis metálicas e estão distribuídas da Nicarágua à Argentina, incluindo a região amazônica”. Eles também observam que a associação com borboletas se explica pela semelhança no voo, nos habitats e na coloração marcante.

A imagem que os moradores guardam é positiva. A sensação em relação às libélulas foi avaliada de forma favorável por 98,07% dos entrevistados, e a experiência com elas por 63,83%. Os atributos mais lembrados foram beleza (32,26%), inofensividade (27,74%), aparência colorida (23,23%) e capacidade de voar (16,77%).

Os melhores pontos para ver os insetos, segundo os entrevistados, são as margens dos rios (38,65%), a floresta (26,6%) e os igarapés (25,04%).

O que é entomoturismo e por que libélulas

O trabalho discute o entomoturismo, vertente voltada à observação, ao estudo e à fotografia de insetos, aplicado a unidades de conservação e levando em conta o saber das populações tradicionais. Segundo os pesquisadores, essa é a novidade do estudo.

As libélulas e donzelinhas pertencem à ordem Odonata. Em ambientes de água doce, funcionam como bioindicadores: a presença e a variedade delas ajudam a medir a qualidade do ambiente. Na Resex Tapajós-Arapiuns, há riqueza e abundância de espécies como Argia sp., Epipleoneura capilliformis, Heteragrion bariai e Oxystigma williamsoni.

O artigo lembra que a literatura científica aponta um declínio global de insetos, ligado à mudança no uso da terra pela agricultura e pecuária intensivas, a poluentes químicos, a espécies invasoras e às alterações climáticas. Valorizar esses animais, portanto, também é uma forma de protegê-los.

Quem foi ouvido

A Resex, localizada entre Santarém e Aveiro, abriga cerca de 23 mil pessoas, em mais de 4.800 famílias, que vivem do uso de recursos naturais, da agricultura familiar e da criação de pequenos animais. Artesanato, apicultura, carpintaria e turismo aparecem como atividades emergentes.

A amostra mínima foi calculada com nível de confiança de 95%, mas o número de aldeias na reserva cresceu e a equipe incluiu mais gente para ter um retrato amplo. No total, foram 415 entrevistas, com indígenas (44,34%) e não indígenas (56,66%).

Mais da metade dos entrevistados (53,49%) era do gênero feminino. Para os autores, isso mostra que “cada vez mais, as mulheres assumem o protagonismo em questões associadas à liderança, ao desenvolvimento e ao progresso das comunidades amazônicas”. Nas aldeias indígenas, os mais velhos foram indicados para responder, por serem considerados conhecedores dos costumes e da dinâmica da reserva.

O gargalo da educação

A escolaridade predominante foi o ensino fundamental (33,73%). O motivo, segundo o estudo, é que a maioria das escolas municipais na reserva oferece regularmente só do 5º ao 9º ano. O ensino médio é, em algumas comunidades, modular e exige deslocamentos por trajetos fluviais longos e complexos.

Como não há instituições de ensino superior na reserva, quem quer se qualificar precisa migrar para Santarém ou outras cidades. “Esse cenário não favorece a população local, dada a carência de recursos econômicos”, explicam os pesquisadores.

Ciência feita com a comunidade

Segundo a UFPA, o estudo concluiu que o ecoturismo comunitário centrado em Odonata pode atrair visitantes e promover a participação e o empoderamento de populações indígenas e não indígenas da reserva. O modelo, chamado de CBET na sigla em inglês, envolve as comunidades na gestão e na operação das atividades turísticas.

Há ainda uma ponte com o monitoramento oficial. O Programa Monitora, do ICMBio, usa conhecimentos sobre os odonatos para inferir a qualidade ambiental dos riachos amazônicos. Para os autores, incluir libélulas e donzelinhas como bioindicadores e desenvolver o ecoturismo comunitário pode melhorar a gestão sustentável das áreas protegidas.

O caminho, porém, exige preparo. “Isso inclui aprofundar-se na biologia, importância ecológica, técnicas de manejo e identificação de espécies potenciais. O financiamento e o desenvolvimento de políticas públicas que apoiem essas iniciativas são cruciais para garantir o sucesso e a sustentabilidade do ecoturismo comunitário”, destacam os pesquisadores.

O próximo passo, portanto, é transformar a boa vontade medida nas entrevistas em programas de capacitação e financiamento para as comunidades.

Sobre a pesquisa

As atividades tiveram financiamento da Capes, por meio do Edital nº 13/2020 (PDPG Amazônia Legal), da Fundação para a Ciência e Tecnologia (Projeto UIDB/04020/2020) e da Agência Executiva de Investigação (Horizontes Sustentáveis). O estudo integra o INCT Sínteses da Biodiversidade Amazônica (SinBiAm) e o Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Oriental (PPBIO-AmOr).

Com informações de UFPA.

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