
O lobo-guará é um animal de paisagens abertas. Pernas compridas, pelo alaranjado e uma crina escura no pescoço o deixam perfeitamente adaptado aos campos e cerrados, onde enxerga longe por cima do capim. Por isso, a imagem registrada em meados de outubro de 2026 chamou a atenção: uma câmera instalada na mata fechada da parte baixa do Parque Nacional do Itatiaia, no Rio de Janeiro, flagrou um lobo-guará caminhando pela floresta.
É o primeiro registro da espécie nessa porção do parque, segundo a equipe do Onçafari, organização que faz o monitoramento da fauna na área desde 2023.
Um parque com dois mundos
Criado em 1937, o Itatiaia é o primeiro parque nacional do Brasil. Fica na Serra da Mantiqueira, na divisa entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, e tem duas paisagens muito diferentes.
A parte alta, o planalto, ocupa terras dos dois estados e tem campos de altitude, rochas expostas e vegetação baixa. É lá que fica o Pico das Agulhas Negras. Esse ambiente aberto lembra, em alguns aspectos, o Cerrado, e já era conhecido como área de ocorrência do lobo-guará. A parte baixa, inteiramente no Rio de Janeiro, é coberta por Mata Atlântica densa e fechada, onde a espécie era considerada rara mesmo perto dos campos.
Explorando ou procurando comida
A bióloga Gabriela Burattini, líder de monitoramento do Onçafari, considera o registro relevante porque amplia o conhecimento sobre onde a espécie circula dentro do parque. A equipe ainda não sabe o que explica a presença do animal na mata. Ele pode estar explorando áreas novas ou procurando recursos, como comida e abrigo, mas essas hipóteses ainda precisam ser investigadas.
Os pesquisadores dizem que os registros da espécie vêm aumentando tanto na parte alta quanto na baixa. O monitoramento vai continuar, e a equipe pretende ouvir moradores da região para entender melhor por onde os lobos andam.
28 espécies de mamíferos
As câmeras usadas no trabalho são armadilhas fotográficas, equipamentos com sensores que disparam fotos ou vídeos quando detectam calor em movimento, sem interferir no comportamento dos bichos. Desde o início do projeto, o Onçafari já registrou 28 espécies de mamíferos de médio e grande porte no parque, além de mamíferos menores, aves e répteis. Os dados são repassados à gestão do parque e a universidades.
O maior canídeo da América do Sul
O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) pode passar de um metro de comprimento, sem contar a cauda, e chegar a quase 90 centímetros de altura no ombro. Apesar do nome, não é um lobo verdadeiro: é a única espécie viva do seu gênero. É onívoro e come de pequenos roedores, aves e insetos a muitas frutas. A preferida é a lobeira, fruto do Cerrado que pode responder por boa parte da dieta, e o animal ajuda a espalhar as sementes da planta.
Tímido e solitário, costuma andar ao entardecer e à noite e evita pessoas. Está classificado como vulnerável à extinção no Brasil. As maiores ameaças são a perda dos campos e cerrados para a agricultura, os atropelamentos em estradas e doenças transmitidas por cães domésticos, como a sarna e a cinomose.
Como reconhecer o lobo-guará
Quem cruza com o animal costuma se surpreender com as pernas, longas e finas, que parecem desproporcionais ao corpo. Elas são uma adaptação para enxergar por cima do capim alto. A pelagem é alaranjada, com as patas e o focinho escuros e uma faixa preta que se arrepia no pescoço quando o animal se sente ameaçado. As orelhas grandes ajudam a localizar pequenos roedores escondidos na vegetação. O cheiro forte da urina, usado para marcar território, é outra marca da espécie.
Um sinal a acompanhar
O avanço do lobo-guará para áreas fora do seu habitat clássico tem sido registrado em outras partes do Sudeste, inclusive em regiões de Mata Atlântica desmatadas que viraram pasto, onde a paisagem aberta favorece a espécie. No Itatiaia, a novidade é o contrário: o animal apareceu dentro da mata preservada. Entender esse movimento pode ajudar a planejar a proteção de um dos símbolos da fauna brasileira, estampado até na nota de 200 reais.
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